Coleo Estudos
Dirigida por J. Guinsburg
Equipe de realizao - Traduo: Miriam Chnaiderman e Renato Janine Ribeiro;
Reviso: Paulo de Salles Oliveira; Produo: Ricardo W. Neves e Adriana Garcia.
Jacques Derrida
GRAMATOLOGIA
BRASIL
 EDITORA PERSPECTIVA
Ttulo do original francs
De la Gramatologie
m 1967, by Les ditions de Minuit, Pris.
2' edio
Direitos reservados em lingua portuguesa 
EDITORA PERSPECTIVA S.A.
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01401-000 - So Paulo - SP - Brasil
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Fax: (0--11) 885-6878
www.editoraperspectiva.com.br
1999
Advertncia
A primeira parte deste ensaio, "A escritura pr-literal"',
desenha em traos largos uma matriz terica, Indica certos
pontos de referncia histricos e prope alguns conceitos
crticos.
Estes so postos  prova na segunda parte: "Natureza
cultura, escritura". Momento, se assim se quiser, do exemplo
- embora esta noo aqui seja, com todo o rigor, inadmis-
svel. Do que, por comodidade, ainda nomeamos exemplo,
cumpriria ento, procedendo com mais pacincia e lentido,
justificar a escolha e demonstrar a Necessidade. Trata-se
de uma leitura do que poderamos talvez denominar a poca
***1. Pode-se consider-la como o desenvolvimento de um ensaio publicado
na revista Cririsue (dezembro de 1%5 - janeiro de 1966). A ocasio nos
fora proporcionada For trs importantes publicaes: M. V.-David, Le dbar
sur les r~rirure, er I'hiroglyphe aux XVIIP et XVIII,' .ricles (1965) (DE);
A. Leroi-Gourhan, le gecre er la parole (1965) (GP); L'crirure er la psycho-
(oXie des peuples (Actes d'un colloque, 1963) (EP).
' Para deixarmos clara a distino existente em francs entre besoin
rexigncia nascida da natureza ou da vida social; estado de privao) e
neces.cir (obrigao, coero inelutvel, encadeamento necessrio na ordem
das razes ou das matrias - eventualmente tambm um besoin imperioso),
decidimos represent-los respectivamente por nece.ssidade e Necessidade. Auto-
riza-nos a esra distino, puramente grfica e sem expresso fontica, a justifi-
cao yu: d o Autor Para a palavra dijfrance (port. dilernoia), inventada
por ele mesmo para distinguir-se de diffrence (port. diferena): este
silncio, funcionando no interior somente de uma escritura dita fontica, assi-
nala ou lembra de modo muito oportuno que, contrariamente a um enormne
pFreconceito, no h escritura fontica. No h escritura pura e rigorosamente
fontica. A escritura dita fontica s pode funcionar, em princpio e de
direito, e no apenas por uma insuficincia emprica e tcnica, se admitir
em si mesma signos 'no-fonticos' (pontuao, espaamento, etc.) que, como
se perceberia muito rapidamente ao examinar-se a sua estrutura e Necessidade,
toleram muito mal o conceito de signo. Ou melhor, o loao da diferena .
 ele mesmo silencioso. A diferena entre dois fonemas  inaudvel, e s
ela permite a estes serem operarem como tais" ("La diffrance", in THorie
d'ensernhle. ohra coletiva, Aux Editions du Seuil, 1968, pp. 41-66). (N. dos T.)
de Rousseau. Leitura apenas esboada: considerando, com
efeito, a Necessidade da anlise, a dificuldade dos problemas,
a natureza de nosso desgnio, acreditamo-nos autorizados a
privilegiar um texto curto e pouco conhecido, o Essai sur
I 'onigine des langues. Teremos de explicar o lugar que conce-
demos a esta obra. Se nossa leitura permanece inacabada, 
tambm por outra razo: embora no tenhamos a ambio de
ilustrar um novo mtodo, tentamos produzir, muitas vezes
embaraando-nos neles, problemas de leitura crtica. Nossa
interpretao do texto de Rousseau depende estreitamente das
proposies arriscadas na primeira parte. Estas exigem que
a leitura escape, ao menos pelo seu eixo, s categorias cls-
sicas da histria: da histria das idias, certamente, e da
histria da literatura, mas talvez, antes de mais nada, da
histria da filosofia.
Em torno deste eixo, como  bvio, tivemos de respei-
tar normas clssicas, ou pelo menos tentamos faz-lo. Em-
bora a palavra poca no se esgote nestas determinaes,
lidvamos com uma figura estrutural tanto quanto com uma
totalidade histrica. Esforamo-nos por isso em associar as
duas formas de ateno que pareciam requeridas, repetindo
assim a questo do texto, do seu estatuto histrico, do seu
tempo e do seu espao prprios. Esta poca passada , com
efeito, constituda totalmente como um texto, num sentido*
destas palavras que teremos a determinar. Que ela conserve,
enquanto tal, valores de legibilidade e uma eficcia de mo-
delo; que desordene assim o tempo da linha ou a linha do
tempo - eis o que quisemos sugerir ao interrogarmos de
passagem, para nele encontrarmos apelo, o rousseausmo
declarado de um etnlogo moderno.
 Sobre esse termo, ver a segunda nota que fizemos no captulo IV da
Segunda Parte. (N. dos T.)
Sumrio
Advertncia .......................... VII
I. A ESCRITURA PR-LITERAL
Epgrafe ............................. 3,
1. O fim do livro e o comeo da escritura . . . . . . 7
O programa .
O significante e.a .verdade .. . . . . . . . . . . . . . . . 12
O ser escrito . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 21
2. Lingstica e Gramatologia . . . . . . . . . . . . . . . 33
O fora e o dentro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 36
O fora ~ o dentro . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 53
A brisura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 79
3. Da Gramatologia como cincia positiva . . . . 91
A lgebra: arcano e transparncia . . . . . . . . . . 93
A cincia e o nome do homem . . . . . . . . . . . . . 101
A charada e a cumplicidade das origens . . . . 109
II. NATUREZA, CULTURA, ESCRITURA
Introduo  "poca de Rousseau" . . . . . . . . 121
1. A violnca da letra: de Lvi-Strauss
a Rousseau . ... .. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 125
A guerra dos nomes prprios . . . . . . . . . . . . . 132
A escritura e a explorao do homem pelo
homem .................. ........... 146
2. "Este perigoso suplemento. . ." . . . .. .. . . . 173
Do cegamento ao suplemento . .. . . . . . . . . . 176
A cadeia dos suplementos . . . . . . . . . . . . . . . . 187
O exorbitante. Questo de mtodo . . . . . . . . 193
3. Gnese e escritura do Essai sur I'origine des
langues .............................. 201
I. O LUGAR DO ESSAI . .. . . . . . . .. . . . . . . . . . 201
A escritura, mal poltico e mal lingstico . . . . 204
O debate atual: a economia da Piedade . . . . . 208
O primeiro debate e a composio do Essai . . 234
II. A IMITAO . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 238
O intervalo e o suplemento ......... .... 239
A estampa e as ambigidades do formalismo . . 245
O torno da escritura . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 264
III. A ARTICULAO . . . . . . . .. . . . . . . . . . . . . . . 280
"Este movimento de vareta . . . " . . . . . . . . . . 280
A inscrio da origem . . . . . . .. . . . . . . . . . . 295
O pneuma . . ...................... 300
Esta "simples~movimento de dedo". A escritura
e a proibio do incesto . . . . . . . . . . . . . . . . 310
4. Do suplemento  fonte: a Teoria da escritura 327
A metfora originria . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 329
Histria e sistema das escrituras . . . . . . . . . . 343
O alfabeto e a representao absoluta . . . . . . 360
O teorema e o teatro . . . . . . . . . . . . . . . . . 370
O suplemento de origem . .. . . . . . . . . . . . . . 382
I. A Escritura Pr-Literal
Epgrafe
Aquele que brilhar na cincia da escritura
brilhar como o sol. Um escriba (EP,
p. 87).
6 Samas (deus do sol), com tua luz pers-
crutas a totalidade dos pases, como se
fossem signos cuneiformes (ibidem).
Esses trs modos de escrever correspon-
dem com bastante exatido aos trs diver-
sos estados pelos quais se podem conside-
rar os homens reunidos em nao. A
pintura dos objetos convm aos povos sel-
vagens; os signos das palavras e das ora-
es, aos povos brbaros; e o alfabeto,
aos povos policiados.
JeAN-JacQuEs RousseAu Essai sur l'origin~
des langues.
A escritura alfabtica  em si e para si
a mais inteligente. HEGEL, Enciclopdia''`.
Essa tripla epgrafe no se destina apenas a concentrar
a ateno sobre o etnocentrismo que, em todos os tempos e
lugares, comandou o conceito da escritura. Nem apenas sobre
o que denominaremos logocentrismo: metafsica da escritura
fontica (por exemplo, do alfabeto) 'que em seu fundo no
foi mais - por razes enigmticas mas essenciais e inaces-
sveis a um simples relativismo histrico - do que o etnocen-
***Indicamos, nos locais apropriados, quando usamos traduo brasiteira
dos textos referidos pelo Autor. Muitas vezes, porm, devido  preciso
vocabular de Dertida, fomos levados a alterar sensivelmente certas passagens
das tradues citadas, o que fizemos sem indicao especffica em cada caso.
(N. dos T.)
GRAMATOLOGIA
trismo mais original e mais poderoso, que hoje est em vias
de se mpor ao planeta, e que comanda, numa nica e mesma
ordem :
1. o conceito da escritura num mundo onde a fone-
tizao da escritura deve, ao produzir-se, dissimular sua pr-
pria histria;
2. a histria da metafsica que, apesar de todas as dife-
renas e no apenas de Plato a Hegel (passando at por
Leibniz) mas tambm, fora dos seus limites aparentes, dos
pr-socrticos e Heidegger, sempre atribuiu ao logos a ori-
gem da verdade em geral: a histria da verdade, da verdade
da verdade, foi sempre, com a ressalva de uma excurso me-
tafrica de que deveremos dar conta, o rebaixamento da
escritura e seu recalcamento fora da fala "plena";
3. o conceito da cincia ou da cientifcidade da cin-
cia - o que sempre foi determinado como lgica - conceito
que sempre foi um conceito filosfico, ainda que a prtica da
cincia nunca tenha cessado, de fato, de contestar o impe-
rialismo do logos, por exemplo fazendo apelo, desde sempre
e cada vez mais,  escritura no-fontica. Sem dvida, esta
subverso sempre foi contida no interior de um sistema alo-
cutrio que gerou o projeto da cincia e as convenes de
toda caracterstica no-fontical. Nem poderia ser de outro
modo. Mas exclusivamente em nossa poca, no momento em
que a fonetizao da escritura - origem histrica e possibi-
lidade estrutural tanto da filosofia como da cincia, condio
da episteme - tende a dominar completamente a cultura
mundial2, a cincia no pode mais satisfazer-se em nenhum
de seus avanos. Esta inadequao j se pusera em mo-
1. Cf., por exemplo, as noes de "elaborao secundria" ou de "simbo-
tismo de segunda inteno" in E. Ortigues, Le di.scours er le .cymote, pp. 62
e 171. "O simbolismo matemtico  uma conveno de escritura, um simholismo
escriturial.  somente por abuso de vocabulrio ou analogia que se fala de
uma 'linguagem matemtica'. O alQoritmo , na verdade, uma `caracterstica',
consiste em caracteres escritos. No fala, a no ser por intermdio de uma
lngua que fornece no apenas a expresso fontica dos caracteres, mas
tambm a formulao dos axiomas que permitem determinar o valor deste:
caracteres.  verdade que, a rigor, seria possvel decifrar caracteres desco-
nhecidos, mas isto supe sempre um saber adquirido, um pensamento j
formado pelo uso da fala. Portanto, em todas as hipteses, o simbolismo
matemtico  fruto de uma elaborao secundria, supondo previamente o uso
do discurso e a possibilidade de conceber convenes explcitas. Nem por isso
deixar o algoritmo matemtico de exprimir leis formais de simbolizao.
estruturas sintxicas, independentes de tal ou qual modo de expresso particular."
Sobre estes problemas, cf. tambm Gilles-Gaston Granger, Pense hrm~(te et
ecience de l'homme, p. 38 e sobretudo pp. 43 e 50 e ss. (sobre o Renvercemenr
des rapports de la langue orale et de I'crirure). (N. dos T.)
2. Todas as obras consagradas  histria da escritura tratam do problemn
da introduo da escritura fontica em culturas que at ento no a praticavam.
Cf., por exemplo, EP, pp. 44 e ss. ou La rJorme de t'crimre ehinoi.se, in:
Linguistique, Recherches Internatonales  la Lumire du Marxi.cme, N 7, maio-
-junho 1958. (N. dos T.)
EPiGItAFE
vimento, desde sempre. Mas algo, hoje, deixa-a aparecer
como tal, permite, de certa forma, assumi-la, sem que esta
novidade se possa traduzir pelas noes sumrias de muta-
o, de explicitao, de acumulao, de revoluo ou de tra-
dio. Estes valores pertencem, sem dvida, ao sistema cuja
descolocao * se apresenta hoje como tal, descrevem estilos
de movimento histrico que s tinham sentido - como o con-
ceito de histria mesmo - no interior da poca logocntrica.
Pela aluso a uma cincia da escritura guiada pela me-
tfora, pela metafsica e pela teologia3, a epgrafe no deve
apenas anunciar que a cincia da escritura - a gramato-
logia - espalha pelo mundo os signos de sua liberao por
meio de esforos decisivos. Estes esforos so necessaria-
mente discretos e dispersos, quase imperceptveis: isto se
deve ao seu sentido e  natureza do meio em que produzem
sua operao. Desejaramos principalmente sugerir que, por
mais necessria e fecunda que seja a sua empresa, e ainda
que, na melhor das hipteses, ela superasse todos os obst-
culos tcnicos e epistemolgicos, todos os entraves teolgicos
e metafsicos que at agora a limitaram, uma tal cincia da
escritura corre o risco de nunca vir  luz como tal e sob
esse nome. De nunca poder definir a unidade do seu pro-
jeto e do seu objeto. De no poder escrever o discurso do
seu mtodo nem descrever os limites do seu campo. Por
razes essenciais:  unidade de tudo o que se deixa visar
hoje, atravs dos mais diversos conceitos da cincia e da
*** Descolocar: termo pelo qual trnduzimos o verbo francs distoquer. Este
difere de dplacer (deslocar), bem mais freqnte, por incluir uma idia de
violncia no movimento que imprime. Tambm tem o sentido - importante
em nosso contexto - de efetuar o despejo de um locatrio do seu atojamenrn.
(N. dos T.)
3. No visamos aqui apenas aos "preconceitos teolgicos" que, num momento
e lugar referenciveis" inflectiram ou renrimiram a teoria do signo escrito
nos sculos XVII e XVIll. Falaremos a seu respeito mais adiante a propsito
do livro de M.-V. David. Estes preconceitos so apenas a manifestao mais
vistosa e mais bem circunscrita, historicamente determinada, de um pressuposto
constitutivo, permanente, essencial  histria do Ocidente, e portanto  tota-
lidade da metafsica, mesmo quando se d como atia.
***' ReJereneiar: verbc, pelo qual traduzimos o francs reprer, composto
do substantivo repre que , mais simplesmente "ponto de referncia' . O
verbo derivado indica a ao de colocar ou instalar pontos de referncia, que
podem - em sentido mais concreto - ser postes ou marcos numa estrada, ou
- tambm - a operao de introduzir marcos de referncia num texto. (N.
dos T. )
4. Gramatologia: "tratado das letras, do alfabeto, da silabao, da leitura
e da escritura", Littr. Ao que sabemos, em nossos dias apenas I. J. Gelb
empregou esta palavra para designar o projeto de uma cincia moderna. Cf.
A Sludy oJ writing, the Jaundarions oJ Rrammarotogy, 1952 (o subttulo desa-
parece na reedi de 1%3). Embora se preocupe com a classificao sistemtica
ou sientifica da e apresente hipteses controvertidas sobre a monognese ou a
polignese das escrituras, este tivro seRue o modelo dss histrias clssicas da
escritura. (Observe-se que a definio de Littr  cetomada, exatamente nos
mesmos termos~ por Aurlio Buarque de Hollanda no seu Pequeno DicionGrio
Brasileiro da Lngua Portuguesa - onde se admite a variante gramaticologia.)
(N. dos T. )
GRAMATOLOGIA
escritura, est determinada em princpio, com maior ou menor
segredo mas sempre, por uma poca histrico-metafsica cuja
clausura nos limitamos a entrever. No dizemos: cujo fim.
As idias de cincia e escritura - e por isso tambhm a de
cincia da escritura - tm sentido para ns apenas a partir
de uma origem e no interior de um mundo a que j foram
atribudos um certo conceito do signo (diremos mais adiante:
o conceito de signo) e um certo conceito das relaes entre
fala e escritura. Relao muito determinada apesar do seu
privilgio, apesar de sua Necessidade e da abertura de campo
que regeu durante alguns milnios, sobretudo no Ocidente, a
ponto de hoje nele poder produzir sua descolocao e denun-
ciar, por si mesma, seus limites.
Talvez a meditao paciente e a investigao rigorosa
em volta do que ainda se denomina provisoriamente escritura,
em vez de permanecerem aqum de uma cincia da escritura
ou de a repelirem por alguma reao obscurantista, deixando-a
- ao contrrio - desenvolver sua positividade ao mximo
de suas possibilidades, sejam a errncia de um pensamento fiel
e atento ao mundo irredutivelmente por vir que se anuncia
no presente, para alm da clausura do saber. O futuro s se
pode antecipar na forma do perigo absoluto. Ele  o que
rompe absolutamente com a normalidade constituda e por
isso somente se pode anunciar, apresentar-se, na espcie da
monstruosidade. Para este mundo por vir e para o que nele
ter feito tremer os valores de signo, de fala e de escritura,
para aquilo que conduz aqui o nosso futuro anterior, ainda
no existe epgrafe.
1. O Fim do Livro e o Comeo
da Escritura
Scrates, aquele que no escreve
N IETZSCHE
Independentemente do que se pense sob esta rubrica,
no h dvida de que o problema da linguagem nunca foi
apenas um problema entre outros. Mas nunca, tanto como
hoje, invadira como tal o horizonte mundial das mais diversas
pesquisas e dos discursos mais heterogneos em inteno,
mtodo e idelogia. A prpria desvalorizao da palavra
"linguagem", tudo o que - no crdito que lhe  dado -
denuncia a indolncia do vocabulrio, a tentao da seduo
barata, o abandono passivo  moda, a conscincia de van-
guarda, isto , a ignorncia, tudo isso testemunha. Esta
inflao do signo "linguagem"  a inflao do prprio signo,
a inflao absoluta, a inflao mesma. Contudo, por uma
face ou sombra sua, ela ainda faz signo: esta crise  tambm
um sintoma. Indica, como que a contragosto, que uma poca
histrico-metafsica deve determinar, enfim, como linguagem
a totalidade de seu horizonte problemtico. Deve-o, no so-
mente porque tudo o que o desejo quisera subtrair ao jogo da
linguagem  retomado neste, mas tambm porque, simultanea-
mente, a linguagem mesma acha-se ameaada em sua vida,
desamparada, sem amarras por no ter mais limites, devol-
vida  sua prpria finidade no momento exato em que seus
limites parecem apagar-se, no momento exato em que o sig-
nificado infinito que parecia exced-la deixa de tranqiliz-la
a respeito de si mesma, de cont-la e de cerc-la.
GRAMATOLOGIA
O PROGRAMA
Ora, por um movimento lento cuja Necessidade mal se
deixa perceber, tudo aquilo que - h pelo menos uns vinte
sculos - manifestava tendncia e conseguia finalmente reu-
nir-se sob o nome de linguagem comea a deixar-se deportar
ou pelo menos resumir sob o nome de escritura. Por uma
Necessidade que mal se deixa perceber, tudo acontece como
se - deixando de designar uma forma particular, derivada,
auxiliar da linguagem em geral (entendida como comunicao,
relao, expresso, significao, constituio do sentido ou
do pensamento etc.), deixando de designar a pelcula exte-
rior, o duplo inconsistente de um significante maior, o signi..
ficante do significante - o conceito de escritura comeava
a ultrapassar a extenso da linguagem. Em todos os sentidos
desta palavra, a escritura compreenderia a linguagem. No
que a palavra "escritura" deixe de designar o significante do
significante, mas aparece, sob uma luz estranha, que o "sig-
nificante do significante" no mais define a reduplicao aci-
dental e a secundariedade decada. "Significante do signifi-
cante" descreve, ao contrrio, o movimento da linguagem: na
sua origem, certamente, mas j se pressente que uma origem,
cuja estrutura se soletra como "significante do significante"
arrebata-se e apaga-se a si mesma na sua prpria produo.
O significado funciona a desde sempre como um significante.
A secundariedade, que se acreditava poder reservar  escri-
tura, afeta todo significado em geral, afeta-o desde sempre,
isto , desde o incio do jogo. No h significado que escape,
mais cedo ou mais tarde, ao jogo das remessas significantes,
que constitui a linguagem. O advento da escritura  o advento
do jogo*; o jogo entrega-se hoje a si mesmo, apagando o
limite a partir do qual se acreditou poder regular a circulao
dos signos, arrastando consigo todos os significados tranqi-
lizantes, reduzindo todas as praas-fortes, todos os abrigos do
fora-de-jogo que vigiavam o campo da linguagem. Isto equi-
vale, com todo o rigor, a destruir o conceito de "signo" e
toda a sua lgica. No  por acaso que esse transbordamento
sobrevm no momento em que a extenso do conceito de
linguagem apaga todos os seus limites. Como veremos: esse
transbordamento e esse apagamento tm o mesmo sentido, so
um nico e mesmo fenmeno. Tudo acontece como se o
conceito ocidental de linguagem (naquilo que, para alm da
sua plurivocidade e para alm da oposio estreita e proble-
*** Sobre a noo de jogo e signo, convm ler "A Estrutura o signo e o
jogo no discurso das cincias humanas", in A Escritura e a Diferena, Ed.
Perspectiva, 1971. (N. dos T.)
O FIM DO LIVRO E O COMEO DA ESCRITURA
mtica entre fala e lngua, liga-o em geral  produo fone-
mtica ou glossemtica,  lngua,  voz,  audio, ao som e
ao sopro,  fala) se revelasse hoje como a forma ou a de-
formao de uma escritura primeira': mais fundamental do
que a que, antes desta converso, passava por mero "suple-
mento da fala" (Rousseau). Ou a escritura no foi nunca
um mero "suplemento", ou ento  urgente construir uma
nova lgica do "suplemento". ~ esta urgncia que nos guiar,
mais adiante, na leitura de Rousseau.
Estas deformaes no so contingncias histricas que
poderamos admirar ou lamentar. Seu movimento foi abso-
lutamente necessrio - de uma Necessidade que no pode
apresentar-se, para ser julgada, perante nenhuma outra instn-
cia. O privilgio da phone no depende de uma escolha que
teria sido possvel evitar. Responde a um momento da eco-
nomia (digamos, da "vida" da "histria" ou do "ser como
relao a si" ) . O sistema do "ouvir-se-falar" atravs da
substncia fnica - que se d como significante no-exterior,
no-mundano, portanto no-emprico ou no-contingente -
teve de dominar durante toda uma poca a histria do mundo,
at mesmo produziu a idia de mundo, a idia de origem do
mundo a partir da diferena entre o mundano e o no-mun-
dano, o fora e o dentro, a idealidade e a no-idealidade, o
universal e o no-universal, o transcendental e o emp-
rico, etc. 2
Com um sucesso desigual e essencialmente precrio, esse
movimento teria tendido aparentemente, como em direo
ao seu telos, a confirmar a escritura numa funo segunda e
instrumental: tradutora de uma fala plena e plenamente pre-
sente (presente a si, a seu significado, ao outro, condio
mesma do tema da presena em geral), tcnica a servio da
linguagem, porta-voz (porte-parole), intrprete de uma fala
originria que nela mesma se subtrairia  interpretao.
Tcnica a servio da linguagem: no recorremos aqui
a uma essncia geral da tcnica que j nos seria familiar e
que nos ajudaria a compreender, como um exemplo, o con-
1. Falar aqui de uma escritura primeira no implica afirmar uma priori-
dade cronolgica de fato. Este  o conhecido debate a escritura  "anterior
 linguagem fontica", como afirmaram (por exemplo) Metchnaninov e Marr,
e mais tarde Loukotka? (Concluso assumida pela primeira edio da Grande
Enciclopdia Sovitica, e depois contradita por Stlin. A respeito deste debate
cf. V. Istrine, "Langue et Ecriture" in Linguistique, op. cir., pp. 35, 60. O debate
desenvolveu-se tambm em torno das teses do Padre van Ginneken. A respeito
da discusso dessas teses, ef. Fvrier, Histoire de rcriture, Payot, 1948-1959,
pp. 5 e ss,). Tentaremos mostrar, mais adiante, por que os termos e as premissas
de um tal debate nos impem a suspeio.
2. Este  um problema que foi abordado mais diretamente em nossa obra
La Voix et ie Phnomne (P. U. F., 1967).
GRAMATOLOG i A
l~
ceito estreito e historicamente determinado da escritura. Ao
contrrio, acreditamos que um certo tipo de questo sobre
o sentido e a origem da escritura precede ou pelo menos se
confunde com um certo tipo de questo sobre o sentido e a
origem da tcnica.  por isso que nunca a noo de tcnica
simplesmente esclarecer a noo de escritura.
Tudo ocorre, portanto, como se o que se denomina
linguagem apenas pudesse ter sido, em sua origem e em seu
fim, um momento, um modo essencial mas determinado, um
fenmeno, um aspecto, uma espcie da escritura. E s o
tivesse conseguido fazer esquecer, enganar *, no decorrer de
uma aventura: como esta aventura mesma. Aventura, afinal
de contas, bastante curta. Ela se confundiria com a histria
que associa a tcnica e a metafsica logocntrica h cerca de
trs milnios. E se aproximaria hoje do que , propriamente,
sua asfixia. No caso em questo - e este  apenas um exem-
plo entre outros -, dessa to falada morte da civilizao do
livro, que se manifesta inicialmente pela proliferao con-
vulsiva das bibliotecas. Apesar das aparncias, esta morte
do livro anuncia, sem dvida (e de uma certa maneira desde
sempre), apenas uma morte da fala (de uma fala que se
pretende plena) e uma nova mutao na histria da escritura,
na histria como escritura. Anuncia-a  distncia de alguns
sculos - deve-se calcular aqui conforme a esta escala, sem
contudo negligenciar a qualidade de uma durao histrica
muito heterognea: tal  a acelerao, e tal o seu sentido
qualitativo, que seria outro engano avaliar prudentemente
segundo ritmos passados. , "Morte da fala"  aqui, sem d-
vida, uma metfora: antes de falar de desaparecimento, de-
ve-se pensar em uma nova situao da fala, em sua subordi-
nao numa estrutura cujo arconte ela no ser mais.
Afirmar, assim, que o conceito de escritura excede e
compreende o de linguagem supe, est claro, uma certa
definio da linguagem e da escritura. Se no a tentssemos
justificar, estaramos cedendo ao movimento de inflao que
acabamos de assinalar, que tambm se apoderou da palavra
"escritura", o que no aconteceu fortuitamente. J h al-
gum tempo, com efeito, aqui e ali, por um gesto e por motivos
profundamente necessrios, dos quais seria mais fcil denun-
ciar a degradao do que desvendar a origem, diz-se "lingua-
gem" por ao, movimento, pensamento, reflexo, conscin-
cia, inconsciente, experincia, afetividade etc. H, agora, a
***" A expresso donner le change foi traduzida por enganar, pois tem esse
sentido na linguagem corrente. (N. dos T.)
O FIM DO LIVRO E O COMEO DA ESCRITURA 11
tendncia a designar por "escritura" tudo isso e mais alguma
coisa: no apenas os gestos fsicos da inscrio literal, picto-
grfica ou ideogrfica, mas tambm a totalidade do que a
possibilita; e a seguir, alm da face significante, at mesmo
a face significada; e, a partir da, tudo o que pode dar lugar
a uma inscrio em geral, literal ou no, e mesmo que o
que ela distribui no espao no pertena  ordem da voz:
cinematografia, coreografia, sem dvida, mas tambm "es-
critura" pictural, musical, escultural etc. Tambm se pode-
ria falar em escritura atltica e, com segurana ainda maior,
se pensarmos nas tcnicas que hoje governam estes domnios,
em escritura militar ou poltica. Tudo isso para descrever
no apenas o sistema de notao que se anexa secundaria-
mente a tais atividades, mas a essncia e o contedo dessas
atividades mesmas.  tambm neste sentido Gue o bilogo
fala hoje de escritura e pro-grama, a respeito dos processos
mais elementares da informao na clula viva. Enfim, quer
tenha ou no limites essenciais, todo o campo coberto pelo
programa ciberntico ser campo de escritura. Supondo-se
que a teoria da ciberntica possa desalojar de seu interior
todos os conceitos metafsicos - e at mesmo os de alma,
de vida, de valor, de escolha, de memria - que serviam
antigamente para opor a mquina ao homem3, ela ter de
conservar, at denunciar-se tambm a sua pertencena hist-
rico-metafsica, a noo de escritura, de trao, de grama ou
de grafema. Antes mesmo de ser determinado como humano
(juntamente com todos os caracteres distintivos que sempre
foram atribudos ao homem, e com todo o sistema de sig-
nificaes que implicam ) ou como a-humano, o grama -
ou o grafema - assim denominaria o elemento. Elemento
sem simplicidade. Elemento - quer seja entendido como
o meio ou como o tomo irredutvel - da arqui-sntese em
geral, daquilo que deveramos proibir-nos a ns mesmos de
definir no interior ,do sistema de oposies da metafsica,
daquilo que portanto no deveramos nem mesmo denominar
a experincia em geral, nem tampouco a origem do sentido
em geral.
Esta situao anunciou-se desde sempre. Por que est
a ponto de se fazer reconhecer como tal e a posteriori? Essa
questo exigiria uma anlise interminvel. Tomemos apenas
alguns pontos de referncia, como introduo ao objetivo
3. Sabe-se que Wiener, por exemplo, embora abandone  "semntica" a
oposio, que julga demasiado grosseira e geral, entre o virvo e o no-vivo,
etc., continua - apesar de tudo - empregando expresses como "rgos dos
sentidos", "rgos motores", etc., para qualificar partes da mquina.
GRAMATOLOGIA
12
limitado a que nos propomos aqui. J aludimos s mate-
mticas tericas: sua escritura, quer seja entendida como
grafia sensvel (e esta j supe uma identidade, portanto
uma idealidade de sua forma, o que torna em princpio ab-
surda a noo to correntemente aceita de "significante sen-
svel"), quer como sntese ideal dos significados ou como
rastro operatrio em outro nvel, quer ainda - mais pro-
fundamente - como a passagem de umas s outras, nunca
em absoluto esteve ligada a uma produo fontica. No inte-
rior das culturas que praticam a escritura dita fontica, as
matemticas no so apenas um enclave. Este  assinalado,
alis, por todos os historiadores da escritura: eles lembram,
ao mesmo tempo, as imperfeies da escritura alfabtica, que
por tanto tempo foi considerada a escritura mais cmoda e
"mais inteligente". Este enclave  tambm o lugar onde a
prtica da linguagem cientfica contesta do dentro, e cada
vez mais profundamente, o ideal da escritura fontica e toda
a sua metafsica implcita (a metafsica), isto , particular-
mente a idia filosfica da episteme; e tambm a de istoria,
que  profundamente solidria com aquela, apesar da disso-
ciao ou oposio que as relacionou entre si numa das fases
de seu caminhar comum. A histria e o saber, istoria e epis-
teme, foram determinados sempre (e no apenas a partir da
etimologia ou da filosofia) como desvios em vista da reapro-
priao da presena.
Mas, para alm das matemticas tericas, o desenvol-
vimento das prticas da informao amplia imensamente as
possibilidades da "mensagem", at onde esta j no  mais
a traduo "escrita" de uma linguagem, o transporte de um
significado que poderia permanecer falado na sua integri-
dade. Isso ocorre tambm simultaneamente a uma extenso
da fonografia e de todos os meios de conservar a linguagem
falada, de faz-la funcionar sem a presena do sujeito fa-
lante. Este desenvolvimento, unido aos da etnologia e da
histria da escritura, ensina-nos que a escritura fontica, meio
da grande aventura metafsica, cientfica, tcnica, econmica
do Ocidente, est limitada no tempo e no espao, e limita-se
a si -mesma no momento exato em que est impondo sua
lei s nicas reas culturais que ainda lhe escapavam. Mas
esta conjuno no-fortuita da ciberntica e das "cincias
humanas" da escritura conduz a uma subverso mais pro-
funda.
4. Cf., por exemplo, EP, pp. 126. 148, 355 etc. De um outro ponto de
visla cf. Jakobson. E.s.soi.s de linRusd9ue Rnrale, p. 116 da traduo francaa.
O FIM DO LIVRO E O COMEO DA ESCRITUTRA 13
O SIGNIFICANTE E A VERDADE
A "racionalidade" - mas talvez fosse preciso abando-
nar esta palavra, pela razo que aparecer no final desta
frase -, que comanda a escritura assim ampliada e radicali-
zada, no  mais nascida de um logos e inaugura a destruio,
no a demolio mas a de-sedimentao, a desconstruo de
~ todas as signfcaes que brotam da sgnficao de logos.
 Em especial a significao de verdade. Todas as determi-
naes metafsicas da verdade, e at mesmo a que nos re-
corda Heidegger para alm da onto-teologia metafsica, so
mais ou menos imediatamente inseparveis da instncia do
logos ou de uma razo pensada na descendncia do logos,
em qualquer sentido que seja entendida: no sentido pr-so-
crtco ou no sentido filosfico, no sentido do entendimento
infinito de Deus ou no sentido antropolgico, no sentido pr-
-hegeliano ou no sentido ps-hegeliano. Ora, dentro deste
logos, nunca fo rompido o liame orginrio e essencial com
a phon. Seria fcil mostr-lo e tentaremos precis-lo mais
adiante. Ta1 como foi mais ou menos implicitamente deter-
minada, a essncia da phon estaria imediatamente prxima
daquilo que, no "pensamento" como logos, tem relao com
o "sentdo"; daqulo que a produz, que o recebe, que o dz,
que o "rene". Se Aristteles, por exemplo, considera que
"os sons emitidos pela voz (~siz ~v ~c~ cpc.w~.) so os smbolos
dos estados da alma (rsaNr~l~,aTa Tr~~' ~vy~~) e as palavras
escritas os smbolos das palavras emitidas pela voz" (Da
Interpretao 1, I6 a 3),  porque a voz, produtora dos
primeiros smbolos, tem com a alma uma relao de pro-
ximidade essencial e imediata. Produtora do primeiro sig-
nificante, ela no  um mero significante entre outros. Ela
significa o "estado de alma" que, por sua vez, reflete ou re-
flexiona* as coisas por semelhana natural. Entre o ser e a
alma, as coisas e as afees**, haveria uma relao de tra-
duo ou de significao natural; entre a alma e o logos,
uma relao de simbolizao convencional. E a prlmeira
conveno, a que se referiria imediatamente  ordem. da
signficao natural e universal, produzir-se-ia como lngua-
gem falada. A linguagem escrita fixaria convenes, que
ligariam entre si outras convenes.
 Em francs, os verbos rrJlrer e rjlchir - cuja distino encontra
correspondncia, em portugus, nas substantivos rejlexo e rejlexv. (N. dos T.)
 Traduzimos por afeo o substantivo ajjecfion, visto que o Autor, ao
empreg-lo, joga constantemente com o seu dupto sentido: afeio e afeco.
(N. dos T.)
GRAMATOLOGIA
14
"Assim como a escritura no  a mesma para todos os homens,
as palavras faladas riao sao lamp~~co ~S m~S111`AS, ~.51`j~1'laZltO S~O
idnticos para todos os estados de alma de que estas expresses so
imediatamente os signos (~~7pva npcTw~), como tambm so idn-
ticas s coisas cujas imagens so esses estados" (16~ o grifo  nosso).
Exprimindo naturalmente as coisas, as afees da alma
constituem uma espcie de linguagem universal que, portan-
to, pode apagar-se por si prpria.  a etapa da transparncia.
Aristteles pode omiti-la s vezes sem correr riscoss. Em
todos os casos, a voz  o que est mais prximo do signifi-
cado, . tanto quando este  determinado rigorosamente como
sentido (pensado ou vivido) como quando o , com menos
preciso, como coisa. Com respeito ao que uniria indissolu-
velmente a voz  alma ou ao pensamento do sentido signifi-
cado, e mesmo  coisa mesma (unio que se pode fazer, seja
segundo o gesto aristotlico que acabamos de assinalar, seja
segundo o gesto da teologia medieval, que determina a res
como coisa criada a partir de seu eidos, de seu sentido pen-
sado no logos ou entendimento infinito de Deus); todos sig-
nificante, e em primeiro lugar o significante escrito, seria
derivado. Seria sempre tcnco e representativo. No teria
nenhum sentido constituinte. Esta derivao  a prpria
origem da noo de "significante". A noo de signo im-
plica sempre, nela mesma, a distino do significado e do
significante, nem que fossem no limite, como diz Saussure,
como as duas faces de uma nica folha. Tal noo perma-
nece, portanto, na descendncia deste logocentrismo que 
tambm um fonocentrismo: proximidade absoluta da voz e
do ser, da voz e do sentido do ser, da voz e da idealidade do
sentido. Hegel mostra muito bem o estranho privilgio do
som na idealizao, na produo do conceito e na presena
a si do sujeito.
"Este movimento ideal, pelo qual se diria que se manifesta a
simples subjetividade, ressoando a alma do corpo a orelha percebe-o
da mesma maneira terica pela qual o olho percebe a cor ou a forma
a interioridade do objeto tornando-se assim a do prprio sujeito''
(Esttica, III, I., p. 16 da trad. francesa). "... A orelha, ao con~
trrio, sem voltar-se praticamente para os objetos percebe o resuItado
desse tremor interno do corpo pelo qual se manifesta e se revela, nc
5 ~ o que mostra Pierre Aubenque (Ge Prolme de !'Btre chepz Aristoe
pp. 106 e ss.). No decorrer de uma notvel anlise que muito nos ins irou aq
P. Aubenque observa com efeito: "8 verdade que em outros textos Aristtele~
qualifica como smbolo a relao da linguagem s coisas: `No  possvel
trazer
 discusso as prprias coisas, mas, no lugar das coisas servir-nos~emos de
seus
nomes como simbolos'. O intermedirio, constitudo pelo estado de alma, 
aqui
supritnido ou pelo menos negHgenciado mas esta supresso  legtima porque
comportando-se os estados de alma como as coisas estas podem ser-lhes ime
diatamente substitudas. Em compensao, no se pode substituir, sem mais,
coisa pelo nome... ' (pp. 107-108).
O FIM DO LIVRO E O CoMEO DA ESCRITURA 15
a figura material, mas uma primeira idealidade vinda da alma" (p.
296).
O que  dito a respeito do som em geral vale a jortiori
para a fonia, pela qual, em virtude do ouvir-se-falar - sis-
tema indissocivel - o sujeito afeta-se a si mesmo e refe-
re-se a si no elemento da idealidade.
J se pressente, portanto, que o fonocentrismo se con-
funde com a determinao historial do sentido do ser em
geral como presena, com todas as subdeterminaes que
dependem desta forma geral e Gue nela organizam seu sistema
e seu encadeamento historial (presena da coisa ao olhar
como eidos, presena como substncia/essncia/existncia
(ousia), presena temporal como ponta (isto:) do agora
ou do instante (nun), presena a si do cogito, conscincia,
subjetividade, co-presena do outro e de si, intersubjetividade
como fenmeno intencional do ego etc.). O logocentrismo
seria, portanto, solidrio com a determinao do ser do ente
como presena. Na medida em que um tal logocentrismo
no est completamente ausente do pensamento heideggeria-
no, talvez ele ainda o retenha nesta poca da onto-teologia,
nesta filosofia da presena, isto , na filosofia. Isto signifi-
caria, talvez, que no  sair de uma poca o poder desenhar
a sua clausura. Os movimentos da pertencena ou da no-per-
tencena  poca so por demais sutis, as iluses a este res-
peito so fceis demais, para Gue se possa tomar uma deciso
aqui.
A poca do logos, portanto, rebaixa a escritura, pensada
como mediao de mediao e queda na exterioridade do
sentido. Pertenceria a esta poca a diferena entre signifi-
cado e significante, ou pelo menos o estranho desvio de seu
"paralelismo", e sua mtua exterioridade, por extenuada que
seja. Esta pertencena organizou-se e hierarquizou-se numa
histria. A diferena entre significado e significante pertence
de maneira profunda  implcita  totalidade da grande poca
abrangida pela histria da metafsica, de maneira mais expl-
cita e mais sistematicamente articulada  poca mais limitada
do criacionismo e do infinitismo cristos, quando estes se
apoderam dos recursos da conceitualidade grega. Esta per-
tencena  essencial e irredutvel: no se pode conservar a
comodidade ou a "verdade cientfica" da oposio estica, e
mais tarde medieval, entre signans e signatum sem com isto
trazer a si tambm todas as suas razes metafsico-teolgicas.
A estas razes no adere apenas (e j  muito) a distino
entre o sensvel e o inteligvel, com tudo o que comanda,
GRAMATOLOGIA
16
isto , a metafsica na sua totalidade. E esta distino 
geralmente aceita como bvia pelos lingistas e semilogos
mais vigilantes, por aqueles mesmos que pensam que a cien~
tificidade de seu trabalho comea onde termina a metafsica
Assim, por exemplo:
"O pensamento estruturalista moderno estabeleceu claramente
a linguagem  um sistema de signos, a lingstica  parte integrant
da cincia dos signos, a semitica (ou, nos termos de Saussure,
semiologia). A definio medieval - aliquid stat pro aliquo -
ressuscitada por nossa poca, mostrou-se sempre vlida e fecunda
Assim  que a marca constitutiva de todo signo em geral, e en
particular do signo lingstico, reside no seu carter duplo: cada
unidade lingstica  bipartida e comporta dois aspectos um sensvel
e outro inteligvel - de um lado o signans (o significante de Saussu
re), de outro o signatum (o significado). Estes dois elementos cons
titutivos do signo lingstico (e do signo em geral) supem-se e cha
mam-se necessariamente um ao outro" 6
Mas a estas razes metafsico-teolgicas vinculam-se
muitos outros sedimentos ocultos. Assim, a "cincia" semio
lgica ou, mais estritamente, lingstica, no pode conservar
a diferena entre significante e significado - a prpria idia
de signo - sem a diferena entre o sensvel e o inteligvel
 certo, mas tambm sem conservar ao mesmo tempo, mais
profunda e mais implicitamente, a referncia a um significado
que possa "ocorrer", na sua inteligibilidade, antes de sua
"queda", antes de toda expulso para a exterioridade do "este
mundo" sensvel. Enquanto face de inteligibilidade pura, re
mete a um logos absoluto, ao qual est imediatamente unido
Este logos absoluto era, na teologia medieval, uma subjeti
vidade criadora infinita: a face inteligvel do signo permanecia
voltada para o lado do verbo e da face de Deus.
 claro que no se trata de "rejeitar" estas noes: elas
so necessrias e, pelo menos hoje, para ns, nada mais
 pensvel sem elas. Trata-se inicialmente de por em evidncia
a solidariedade sistemtica e histrica de conceitos e gestos
do pellSamellto que, freqentemente, se acredita poder sepa
rar inocentemente. O signo e a divindade tm o mesmo local
e a mesma data de nascimento. A poca do signo  essencial
mente teolgica. Ela no terminar talvez nunca. Contudo,
sua clausura histrica est desenhada.
Um motivo a mais para no renunciarmos a estes con
ceitos  que eles nos so indispensveis hoje para abalar
herana de que fazem parte. No interior da clausura, pi
6. R. Jakobson, Essais de linguisrique gnrale, trad fr., p. 162. Sobre e
problema, sobre a tradio do conceito de signo e sobre a originalidade
conttibuio saussuriana no interior' desta continuidade, cf. Ortigues, op. c
p. 54 e ss.
 O FIM DO LIVRO E O COMEO DA ESCRITURA
um movimento oblquo e sempre perigoso, que corre per-
manentemente o risco de recair aqum daquilo que ele des-
constri,  preciso cercar os conceitos crticos por um dis-
curso prudente e minucioso, marcar as condies, o meio e
os limites da eficcia de tais conceitos, designar rigorosamente
a sua pertencena  mquina que eles permitem desconstituir;
e, simultaneamente, a brecha por onde se deixa entrever
ainda inomevel, o brilho do alm-clausura. O conceito de
signo, aqui,  exemplar. Acabamos de marcar a sua perten-
cena metafsica. Contudo, sabemos que a temtica do sig-
no , desde cerca de um sculo, o trabalho de agonia de uma
tradio que pretendia subtrair o sentido, a verdade, a pre-
sena, o ser etc., ao movimento da significao. Lanando a
suspeio, como fizemos agora, sobre a diferena entre sig-
nificado e significante ou sobre a idia de signo em geral,
devemos imediatamente esclarecer que no se trata de faz-lo
a partir de uma instncia da verdade presente, anterior, exte-
rior ou superior ao signo, a partir do lugar da diferena
apagada. Muito pelo contrrio. Inquieta-nos aquilo que, no
conceito de signo - que nunca existiu nem funcionou fora
da histria da filosofia (da presena) -, permanece siste-
mtica e genealogicamente determinado por esta histria.
por isso que o conceito e principalmente o trabalho da des-
construo, seu "estilo", ficam expostos por natureza aos
mal-entendidos e ao des-conhecimento *.
A exterioridade do significante  a exterioridade da es-
critura em geral e tentaremos mostrar, mais adiante, que no
h signo lingstico antes da escritura. Sm esta exteriori-
dade, a prpria idia de signo arruna-se. Como todo o
nosso fundo e toda a nossa linguagem desabariam com ela,
como a sua evidncia e o seu valor conservam - num certo
ponto de derivao - uma solidez indestrutvel, seria mais
ou menos tolo concluir, da sua pertencena a uma poca, que
se deva "passar a outra coisa" e livrar-se do signo, desse ter-
mo e dessa noo. Para se perceber adequadamente o gesto
que esboamos aqui, cumprir entender* * de uma maneira
' Ao grafarmos desta maneira a traduo do termo mconnaissance (e seus
compostos), quisemos frisar a atitude implicada de recusa ou negao de reco-
nhecimento e conhecimento. No se trata de simples ignorncia, porm de um
gesto ditado por m-f (no reconhecsr um parente ou ato seu) ou, mais
gerahnente pela clausura da poca (numa certa data, certos pensamentos e
at percepes so impossveis). - Mantivemos, porm, a traduo j consa-
grada de irreconhecvel para o adjetivo mcannaissable. (N. dos T.)
" O verbo francs entendre  mais usuahnente traduzido como ouvir~ no
entanto tambm tem a acepo de "compreender", "entender" - e o Autor
pressupe este duplo sentido ao utiliz-lo. Embora em portugus o verbo en-
render seja mais freqentements usado como sinnimo de "compreender", tam-
bm pode significar "ouvir" - e ao empreg-lo em cartos contextos, procura-
mos manter a ambigidade pretendida por Derrida. (N. dos T.)
18 , GRAMATOLOGIA
nova as expresses "poca", "clausura de uma poca", "ge-
nealogia histrica"; e a primeira coisa a fazer  subtrai-las a
todo relativismo.
Assim, no interior desta poca, a leitura e a escritura, a
produo ou a interpretao dos signos, o texto em geral,
como tecido de signos, deixam-se confnar na secundariedade.
Precedem-nos uma verdade ou um sentido j constitudos pelo
e no elemento do logos. Mesmo quando a coisa, o "referen-
te", no est imediatamente em relao com o logos de um
deus criador onde ela comeou como sentido falado-pensado,
o significado tem, em todo caso, uma relao mediata com
o Logos em geral (finito ou infinito), mediata com o signi-
ficante, isto , com a exterioridade da escritura. Quando
isto parece no acontecer,  que uma mediao metafrica
se insinuou na relao e simulou a imediatez: a escritura da
verdade na alma*, oposta pelo Fedro (278 a)  m escri-
tura (  escritura no sentido "prprio" e corrente,  escritura
"sensvel", "no espao"), o livro da natureza e a escritura
de Deus, particularmente na Idade Mdia; tudo o que fun-
ciona como metfora nestes discursos confirma o privilgio
do logos e funda o sentido "prprio" dado ento  escritura:
signo significante de um significante significante ele mesmo
de uma verdade eterna, eternamente pensada e dita na pro-
ximidade de um logos presente. O paradoxo a que devemos
estar atentos  ento o seguinte: a escritura natural e un-
versal, a escritura inteligvel e intemporal recebe este nome
por metfora. A escritura sensvel, finita, etc.,  designada
como escritura no sentido prprio; ela  ento pensada do
lado da cultura, da tcnica e do artifcio: procedimento hu-
mano, astcia de um ser encarnado por acidente ou de uma
criatura fnita.  claro que esta metfora permanece enig-
mtica e remete a um sentido "prprio" da escritura como
primeira metfora. Este sentido "prprio"  ainda impensado
pelos detentores deste discurso. No se trataria, portanto,
de inverter o sentido prprio e o sentido figurado, mas de
determinar o sentido "prprio" da escritura como a meta-
foricidade mesma.
Em "O simbolismo do livro", este belo capitulo ( 10) de
A literatura europia e a Idade Mdia latina, E. R. Curtius
descreve com uma grande riqueza de exemplos a evoluo
que vai do Fedro a Caldern, at parecer "inverter a situa-
o" (p. 372 da traduo francesa) pela "nova considerac
' O Autor desenvolve esta anlise no seu artigo La pharmacie de Platon
puhlicado inicialinente nos n~s 32 e 33 da revista Tel Quel (inverno c primaver
de 1%8) e mais tarde reunido em La DissminaKon, Aux ~ditions du Seuil, 197i
(N. dos T.)
O FIM DO LIVRO E O COMEO DA ESCRITURA 19
de que gozava o livro" (p. 374). Contudo, parece que esta
modificao, por importante que seja em efeito, abriga uma
continuidade fundamental. Como acontecia com a escritura
da verdade na alma, em Plato, ainda na Idade Mdia  uma
escritura entendida em sentido metafrico, isto , uma escri-
tura natural, eterna e universal, o sistema da verdade signi-
ficada, que  reconhecida na sua dignidade. Como no Fedro,
uma certa escritura decada continua a ser-lhe oposta. Seria
preciso escrever uma histria desta metfora que sempre ope
a escritura divina ou natural  inscrio humana e laboriosa,
finita e artificiosa. Seria preciso articular rigorosamente suas
etapas, marcadas pelos pontos de referncia que acumulamos
aqui, seguir o tema do livro de Deus (natureza ou lei, na
verdade lei natural) atravs de todas as suas modificaes.
Rabi Eliezer disse: "Se todos os mares fossem de tinta, todos
os lagos plantados de clamos, se o cu e a terra fossem pergaminhos
e se todos os humanos exercessem a arte de escrever - eles no
esgotariam a Tor que aprendi, enquanto isso no diminuiria a pr-
pria Tor de mais do que leva a ponta de um pincel mergulhado no
mar."7*
Galileu:
"A natureza est escrita em linguagem matemtica."
Descartes:
... lendo o grande livro do mundo...
Cleanto, em nome da religio natural, nos Dilogos. . . de Hume:
"E este livro, ~que a natureza , no contm algum discurso ou
raciocnio inteligvel, mas sim um grande e inexplicvel enigma".
Bonnet:
"Parece-me mais filosfico supor que nossa terra  um livro
que o grande Ser entregou a inteligncias que nos so muito superio-
res para que o lessem, e onde elas estudam a fundo os traos infini-
tamente multiplicados e variados de sua adorvel sabedoria."
G. H. Von Schubert:
"Esta lngua feita de imagens e de hierglifos, de que se serve a
Sabedoria suprema em todas as suas revelaes  humanidade ---
7. Citado por E. Levinas, in Dijjicile Liberi, p. 44.
* Segundo Nathan Ausubel, porm, (em Conhecimento Judaico, Rio de
Janeiro, Editora Tradio, 1964, p. 250), a citao  de Johanan ben Zakai,
que viveu no sculo I, e o texto  o seguinte: "Se os cus fossem feitos de
Fergaminho, se todas as rvores da floresta fossem transformadas em penas de
escrever, e se todos os seres humanos fossem escribas, ainda assim seriam insu-
ficientes para que se escrevesse e registrasse tudo o que se aprendi de meus
mestres. E no entanto toda a sabedoria que adquiri nada mais  do que a
gua que um co pode lamber do mar:" (N. dos T.)
GRAMATOLOGIA
que volta a encontrar-se na linguagem mais prxima  PoeSia - e
que, em nossa condio atual, assemelha-se mais  expresso meta-
frica do sonho do que  prosa da viglia - pode-se perguntar se
esta lngua no  a verdadeira lngua da regio superior. Se, enquanto
nos acreditamos acordados, no estaremos mergulhados num sono
milenar, ou ao menos no eco de seus sonhos, onde somente percebe-
remos da lngua de Deus algumas falas isoladas e obscuras, como
quem dorme percebe os discursos  sua volta."
Jaspers:
"O mundo  o manuscrito de um outro, inacessvel a uma leitura
universal e que somente a existncia decifra."
Acima de tudo, deve-se evitar negligenciaz as diferenas
profundas que marcam todas estas maneiras de tratar a mes-
ma metfora. Na histria destas maneiras, o corte mais
decisivo aparece no momento em que se constitui, ao mesmo
tempo que a cincia da natureza, a determinao da presena
absoluta como presena a si, como subjetividade. ~ o mo-
mento dos grandes racionalismos do sculo XVII. Desde
ento, a condenao da escritura decada e finita tomar
outra forma, a que ns ainda vivemos:  a no-presena a
si que ser denunciada. Assim comearia a explicar-se a
exemplariedade do momento "rousseausta", que abordare-
mos mais adiante. Rousseau repete o gesto platnico, refe-
rindo-se agora a um outro modelo da presena: presena a
si no sentimento, no cogito sensvel que carrega simultanea-
mente em s a inscrio da lei dvna. De um lado, a escri-
tura representativa, decada, segunda, instituda, a escritura
no sentido prprio e estreito,  condenada no Ensaio sobre a
origem das linguas (ela "tira o nervo" da fala; "julgar o
gnio" atravs dos livros  o mesmo que "querer pintar um
homem a partir do seu cadver" etc. ) . A escritura, no sen-
tido corrente,  letra morta,  portadora de morte. Ela asf-
xia a vida. De outro lado, sobre a outra face do mesmo
propsito, venera-se a escritura no sentido metafrico, a'es-
critura natural, divina e viva; ela iguala em dignidade a ori-
gem do valor, a voz da conscincia como lei divina, o corao,
o sentimento, ete.
"A Bblia  o mais sublime de todos os livros... mas, enfim,
 um livro. . . no  em algumas folhas esparsas que se deve procurar
a lei de Deus, mas sim no corao do homem, onde a sua mo dig-
nou-se escrev-la" (Carta a Vernes).
"Se a lei natural estivesse escrita apenas na razo humana, ela
seria pouco capaz de dirigir a maior parte das nossas aes. Mas
ela tambm est gravada, em caracteres indelveis, no corao do
homem. ..  a que ela lhe grita... (O estado de guerra).
O FIM DO LIVRO E O COMEO DA ESCRItURA 21
A escritura natural est imediatamente unida  voz e ao
sopro. Sua natureza no  gramatolgica mas pneumatol-
gica.  hiertica, bem prxima da santa voz interior da
Profisso de F, da voz que se' ouve ao se entrar em si: pre-
sena plena e veraz da fala divina a nosso sentimento interior:
"Quanto mais eu entro em mim e me consulto, mais eu leio
estas palavras escritas na minha alma: s justo e sers feliz...
No infiro estas regras dos princpios de alguma alta filosofia, mas
encontro-as, no fundo do meu corao, escritas pela natureza em
caracteres indelveis".
Haveria muito a dizer sobre o fato de a unidade nativa
da voz e da escritura ser prescritiva. A arquifala  escritura
porque  uma lei. Uma lei natural. A fala principiante 
ouvida, na intimidade da presena a si, como voz do outro
e como mandamento.
H portanto uma boa e uma m escritura: hoa e natu-
ral, a inscrio divina no corao e na alma; perversa e arti-
ficiosa, a tcnica, exilada na exterioridade do corpo. Mo-
dificao totalmente interior do esquema platnico: escritura
da alma e escritura do corpo, escritura do dentro e escritura
do fora, escritura da conscincia e escritura das paixes,
assim como h uma voz da alma e uma voz do corpo: "A
conscincia  a voz da alma, as paixes so a voz do corpo"
(Profisso de F). A "voz da natureza", a "santa voz da
natureza", confundindo-se com a inscrio e a prescrio
divinas;  preciso voltar-se incessantemente a ela, entreter-se
nela, dialogar entre seus signos, falar-se e responder-se entre
suas pginas.
"Ter-se-ia dito que a natureza desdobrava a nossos olhos tocia
a sua magnificncia, para oferecer o seu texto a nossos colquios...
"Fechei portanto todos os livros. H apenas um aberto a todos os
olhos,  o da natureza.  neste livro grande e sublime que eu.apren-
do a servir e a adorar seu autor."
Assim, a boa escritura foi sempre compreendida. Com-
preendida como aquilo mesmo que devia ser compreendido:
no interior de uma natureza ou de uma lei natural, criada ou
no, mas inicialmente pensada numa presena eterna. Com-
preendida, portanto, no interior de uma totalidade e enco-
berta num volume ou num livro. A idia do livro  a idia
de uma totalidade, finita ou infinita, do significante; essa
totalidade do significante somente pode ser o que ela , uma
totalidade, se uma totalidade constituda do significante pree-
xistir a ela, vigiando sua inscrio e seus signos, independen-
. GRAMATOLOGIA
22
temente dela na sua idealidade. A idia do livro, que remete
sempre a uma totalidade natural,  profundamente estranha
ao sentido da escritura.  a proteo enciclopdica da teo-
logia e do logocentrismo contra a disrupo da escritura,
contra sua energia aforstica e, como precisaremos mais adian-
te, contra a diferena em geral. Se distinguimos a texto do
livro, diremos que a destruio do livro, tal como se anuncia
hoje em todos os domnios, desnuda a superfcie do texto.
Esta violncia necessria responde a uma violncia que no
foi menos necessria.
O SER ESCRITO
A evidncia tranqilizante na qual teve de se organizar
e ainda tem de viver a tradio ocidental seria ento a se-
guinte: a ordem do significado no  nunca contempornea,
na melhor das hipteses  o avesso ou o paralelo sutilmente
defasado - o tempo de um sopro - da ordem do signifi-
cante. E o signo deve ser a unidade de uma heterogeneidade,
uma vez que o significado (sentido ou coisa, noema ou rea-
lidade) no  em si um significante, um rastro*: em todo
caso, no  constitudo em seu sentido por sua relao ao
rastro possvel. A essncia formal do significado  a pre-
sena, e o privilgio de sua proximidade ao logos como phon
 o privilgio da presena. Resposta inelutvel assim que
se pergunta "o que  o signo?", isto , quando se submete
o signo  questo da essncia, ao ti esti. A "essncia for-
mal" do signo pode ser determinada apenas a partir da pre-
sena. No se pode contornar esta resposta, a no ser que
se recuse a forma mesma da questo e se comece a pensar
que o signo  esta coisa mal nomeada, a nica, que escapa
 questo instauradora da filosofia: "O que  . . . ?"8
Aqui, radicalizando os conceitos de interpretao, de
perspectiva, de avaliao, de diferena e todos os motivos
"empiristas" ou no-filosficos que, no decorrer de toda a
histria do Ocidente, no cessaram de atormentar a filosofia
e s tiveram a fraqueza, alis inelutvel, de produzirem-se no
campo filosfico, Nietzsche, longe de permanecer simples-
mente (junto com Hegel e como desejaria Heidegger) na
metafsica, teria contribudo poderosamente para libertar o
 O substantivo francs rrace no deve ser confundido nem com trair
(tiao) nem com r~rac (traado), pois se refere a marcas deixadas por uma
ao ou pela passagem de um ser ou objeto (Dictionnaire Robert). Por isso 0
traduzimos como rastro. (N. dos T.)
8. Este  um tema que tentamos desenvolver na obra La Voix et Le
Phnomne.
O FIM DO LIVRO E O COMEO DA ESCRITURA 23
significante de sua dependncia ou de sua derivao com
referncia ao logos e ao conceito conexo de verdade ou de
significado primeiro, em qualquer sentido em que seja enten-
dido. A leitura e portanto a escritura, o texto, seriam para
Nietzsche ogeraes "originrias"9 (colocamos esta palavra
entre aspas por razes que aparecero mais adiante ) com
respeito a um sentido que elas no teriam de transcrever ou
de descobrir inicialmente, que portanto no seria uma ver-
dade significada no elemento original e na presena do logos,
como topos noets, entendimento divino ou estrutura de ne-
cessidade apriorstica. Para salvar Nietzsche de uma leitura
de tipo heideggeriano, parece, portanto, que acima de tudo
no se deve tentar restaurar ou explicitar uma "ontologia"
menos ingnua, intuies ontolgicas profundas acedendo a
alguma verdade originria, toda uma fundamentalidade ocul-
ta sob a aparncia de um texto empirista ou metafsico. 
impossvel desconhecer mais a virulncia do pensamento
nietzschiano. Ao contrrio, deve-se acusar a "ingenuidade"
de um arrombamento* que no pode esboar uma sortida para
fora da metafsica, que no pode criticar radicalmente a me-
tafsica seno utilizando de uma certa maneira, num certo
tipo ou num certo estilo de texto, proposies que, lidas no
corpus filosfico, isto , segundo Nietzsche, mal lidas ou
no lidas, sempre foram e sempre sero "ingenuidades", sig-
nos incoerentes de pertencena absoluta. Talvez no seja
preciso, portanto, arrancar Nietzsche  leitura heideggeriana,
mas, ao contrrio, entreg-lo totalmente a ela, subscrever
sem reserva esta interpretao; de uma certa maneira e at
o ponto onde, o contedo do discurso nietzschiano estando
algo mais ou menos perdido para a questo do ser, sua for-
ma reencontre sua estranheza absoluta, onde seu texto recla-
me enfim um outro tipo de leitura, mais fiel a seu tipo de
escritura: Nietzsche escreveu o que escreveu. Escreveu que
a escritura - e em primeiro lugar a sua - no est origi-
9. O que no quer dizer, por simples inverso que o significante seja
fundamental ou primeiro. O "primado" ou a "prioridade" do significante seria
uma expresso insustentvel e absurda, se formulada ilogicamente na mesma
lgica que ela quer, legitimamente sem dvida, destruir. Nunca o significante
preceder de direito o significado, sem o que no seria mais significante e o
significante "significando" no teria mais nenhum significado possvel. O pen-
samento, que se anuncia nesta impossvel frmula sem conseguir alojar-se nela,
deve portanto enunciar-se de outro modo: e somente poder faz-Io, 'se lanar
a suspeio sobie a idia mesma de "signo-de", que permanecer sempre Iigada
quilo mesmo que aqui se coloca em questo. Portanto, no limite, destruindo
toda a conceitualidade ordenada em torno do conceito de signo (significante e
significado, expresso e contedo etc.).
 Em francs perce: antnimo de clausura
(ou fechamento). Trata-se
da abertura - feita  fora - que "proporciona uma passagem ou d um ponto
de vista"; "ao de fender, romper as defesas do inimigo" (Robert). (N.
dos T.)
GRAMATOLOGIA
24
nariamente sujeita ao logos e  verdade. E que esta sujeio
veio a ser** no decorrer de uma poca cujo sentido nos ser
necessrio desconstruir. Ora, nesta direo (mas apenas nesta
direo pois, lida de outra maneira, a demolio nietzschiana
permanece dogmtica e, como todas as inverses, cativa do
edifcio metafsico que pretende derrubar. Neste ponto e
nesta ordem de leitura, as demonstraes de Heidegger e de
Fink so irrefutveis), o pensamento heideggeriano no aba-
laria, ao contrrio, reinstalaria a instncia do logos e da ver-
dade do ser como primum signatum: significado, num
certo sentido, "transcendental" (como se dizia na Idade M-
dia que o transcendental - ens, unum, verum~, bonum - era
o primum cognitum) implicado por todas as categorias ou
por todas as significaes determinadas, por todo lxico e
por toda sintaxe, e portanto por todo significante lingstico,
no se confundindo simplesmente com nenhum deles, dei-
xando-se pr-compreender atravs de cada um deles, perma-
necendo irredutvel a todas as determinaes epocais que -
contudo - ele possibilita, abrindo assim a histria do logos
e no sendo ele prprio seno pelo logos: isto , no sendo
nada antes do logos e fora do logos. O logos do ser, "o
Pensamento, dcil  Voz do Ser"1  o primeiro e ltimo
recurso do signo, da diferena entre o signans e o signatumi.
 preciso um significado transcendental, para que a diferena
entre significado e significante seja, em algum lugar, abso-
luta e irredutvel. No  por acaso que o pensamento do
ser, como pensamento deste significado transcendental, ma-
nifesta-se por excelncia na voz: isto , numa lngua de
palavras. A voz ouve-se - isto , sem dvida, o que se
denomina a conscincia - no mais prximo de si como o
apagamento absoluto do significante: auto-afeo pura que
tem necessariamente a forma do tempo e que no toma
emprestado fora de si, no mundo ou na "realidade", nenhum
significante acessrio, nenhuma substncia de expresso alheia
 sua prpria espontaneidade.  a experincia nica do
significado produzindo-se espontaneamente, do dentro de si,
e contudo, enquanto conceito significado, no elemento da
idealidade ou da universalidade. O carter no-mundano
desta substncia de expresso  constitutivo desta idealidade.
Esta experincia do apagamento do significante na voz no
 O termo francs devenir traduz-se devir quando substantivo, vir-a-ser
ou tornar-se quando verbo. (N. dos T.)
10. Posfcio a Was ist Metaphysik, p. 46. [Na traduo de Ernildo Stein
(Que  MetaJsica, Livraria Duas Cidades 1%9) l-se: "o pensamento dcil
 voz do ser' - p. 57.] A instncia da voz ,tambm domina a anlise do
Gewtssen em Sein und Zeit (pp. 267 e ss.).
O FIM DO LIVRO E O COMEO DA ESCRITURA 25
 uma iluso entre outras - uma vez que  a condio da
idia mesma de verdade - mas mostraremos, em outro lu-
gar, em que ela se logra. Este logro  a histria da verdade
e no  dissipado com tanta pressa. Na clausura desta ex-
perincia, a palavra  vivida como a unidade elementar e
indecomponvel do significado e da voz, do conceito e de
uma substncia de expresso transparente. Esta experincia
seria considerada na sua maior pureza - e ao mesmo tempo
na sua condio de possibilidade - como experincia do
"ser". A palavra "ser" ou, em todo caso, as palavras que
designam nas diferentes lnguas o sentido do ser, seria com
algumas outras, uma "palavra originria" ( Urwort 11 ) , a pa-
lavra transcendental que assegura a possibilidade do ser-pa-
lavra a todas as outras palavras. Seria pr-compreendida em
toda linguagem enquanto tal e - esta  a abertura de Sein
und Zeit - apenas esta pr-compreenso permitiria abrir a
questo do sentido do ser em geral, para alm de todas as
ontologias regionais e de toda a metafsica: questo que
enceta * a filosofia (por exemplo, no Sofista) e se deixa
recobrir por ela, questo que Heidegger repete ao lhe sub-
meter a histria da metafsica. No h dvida de que o sen-
tido do ser no  a palavra "ser" nem o conceito de ser -
Heidegger lembra-o sem cessar. Mas, como este sentido no
 nada fora da linguagem e da linguagem de palavras, liga-se,
seno a tal ou qual palavra, a tal ou qual sistema de lnguas
(concesso non doto), pelo menos  possibilidade da palavra
em geral. E da sua irredutvel simplicidade. Seria possvel pen-
sar, portanto, que resta apenas decidir entre duas possibili-
dades. 1 - Uma lingstica moderna, isto , uma cincia
da significao, que cinda a unidade da palavra e rompa com
sua pretensa irredutibilidade, tem ainda a ver com a "lin-
guagem"? Heidegger provavelmente duvidaria desta possi-
bilidade. 2 - Inversamente, tudo o que se medita to
profundamente sob o nome de pensamento ou de questo do
ser no estaria encerrado numa velha lingstica da palavra,
que aqui seria praticada sem o saber? Sem o saber, porque
uma tal lingstica, quer seja espontnea ou sistemtica, sem-
11. Cf. "Das Wesen der Sprache", e "Das Wort", in Unterwegs zur Spracbe
(1959).
 Encetar, traduo do verbo entamer, que o Dictionaire Robert define
como: a - "cortar por inciso; tirar uma parte, cortando, de alguma coisa
ainda intata; cortar, penetrar" (neste sentido, o dicionrio remete ao verbo
percer, traduzido por ns como arrombar); b - "pr a mo em (algo a fazer)".
No Pequeno Dicionrio Brasileiro da Lngua Portuguesa, encontramos os seguintes
sentidos para o verbo encetar: "principiar; comear a gastar ou a cortar; tirar
parte de; estrear; experimentar; pron. estrear-se; fazer alguma coisa em pri-
meiro lugar ou pela primeira vez". (N. dos T.)
GRAMATOLOGIA
26
pre teve de compartilhar os pressupostos da metafsica. Am-
bas se movem sobre o mesmo solo.
 bvio que a alternativa no poderia ser to simples.
De um lado, com efeito, se a lingstica moderna per-
manece inteiramente encerrada numa conceitualidade clssica,
se em particular ela emprega ingenuamente a palavra ser e
tudo o que esta supe, aquilo que nesta lingstica descons-
tri a unidade da palavra em geral no mais pode ser cir-
cunscrito, segundo o modelo das questes heideggerianas, tal
como funciona poderosamente desde o incio de Sein und
Zeit, como cincia ntica ou ontologia regional. Na medida
em que a questo de ser se une indissoluvelmente, sem se
lhe reduzir,  pr-compreenso da palavra ser, a lingstica
que trabalha na desconstruo da unidade constituda desta
palavra no precisa mais esperar, de fato ou de direito, que
se coloque a questo do ser, para definir seu campo e a
ordem de sua dependncia.
No apenas seu campo no  mais simplesmente ntico,
mas os limites da ontologia que lhe corresponderia no tm
mais nada de regional. E o que aqui dizemos da lingstica
ou pelo menos de um certo trabalho que pode fazer-se nela
e graas a ela, no podemos diz-lo com respeito a toda
investigao, enquanto e na medida rigorosa em que viesse
a desconstituir os conceitos-palavras fundadores da ontologia,
do ser privilegiadamente? Fora da lingstica,  na investi-
gao psicanaltica que este arrombamento parece ter hoje
as maiores oportunidades de ampliar-se.
No espao rigorosamente delimitado deste arrombamen-
to, estas "cincias" no so mais dominadas pelas questes
de uma fenomenologia transcendental ou de uma ontologia
fundamental. Talvez se diga ento, seguindo a ordem das
questes inauguradas por Sein und Zeit e radicalizando as
questes da fenomenologia husserliana, que este arromba-
mento no pertence  prpria cincia, que o que assim parece
produzir-se num campo ntico ou numa ontologia regional
no lhes pertence de direito e j se junta  prpria questo
do ser.
Pois, de outro lado,  a questo do ser que Heidegger
coloca  metafsica. E com ela a questo da verdade, do
sentido, do logos. A meditao incessante desta questo no
restaura confianas. Pelo contrrio, ela as exclui de sua pro-
fundidade prpria, o que  mais difcil - tratando-se do
sentido do ser - do que se acredita geralmente. Interro-
gando a vspera de toda determinao do ser, abalando as
O FIM Do LIVRO E O COMEO DA ESCRITURA 26
seguranas da onto-teologia, uma tal meditao contribui,
tanto quanto a lingstica mais atual, para descolocar a uni-
dade de sentido do ser, isto , em ltima instncia, a unidade
da palavra.
, assim que, depois de evocar a "voz do ser", Heidegger
lembra que ela  silenciosa, muda, insonora, sem palavra,
oliginariamente -fona (die Gewhr der lautlosen Stimme ver-
borgener Quellen. . . )*. No se oilve a voz das fontes. Rup-
tura entre o sentido originrio do ser e a palavra, entre o
sentido e a voz, entre a "voz do ser" e a phon , entre o
"apelo do ser" e o som articulado; uma tal ruptura, que ao
mesmo tempo confirma uma metfora fundamental e lana
a suspeio sobre ela ao aeusar a defasagem metafrica,
traduz bem a ambigidade da situao heideggeriana com
respeito  metafsica da presena e ao logocentrismo. Ela
ao mesmo tempo est compreendida nestes e os transgride.
Mas  impossvel fazer a partilha. O prprio movimento da
transgresso a retm, s vezes, aqum do limite. Ao con-
trrio do que sugeramos mais atrs, seria preciso lembrar
que o sentido do ser no  nunca simples e rigorosamente
um "significado", para Heidegger. No  por acaso que no
 utilizado esse termo: isto quer dizer que o ser escapa ao
movimento do signo, proposio que tanto se pode entender
como uma repetio da tradio clssica quanto como uma
desconfiana face a uma teoria metafsica ou tcnica da sig-
nificao. De outro lado, o sentido do ser no  nem "pri-
meiro", nem "fundamental", nem "transcendental", quer se
entendam estes termos no sentido escolstico, kantiano ou
husserliano. O desprendimento do ser como "transcendendo"
as categorias do ente, a abertura da ontologia fundamental
so apenas momentos necessrios mas provisrios. Desde a
Introduo  Metafsica, Heidegger renuncia ao projeto e
 palavra de "ontologia"'z. A dissimulao necessria, ori-
ginria e irredutvel do sentido do ser, sua ocultao na ecloso
mesma da presena, este retiro sem o qual no haveria sequer
histria do ser que fosse totalmente histria e histria do ser,
a insistncia de Heidegger em marcar que o ser se produz
como histria apenas pelo logos e no  nada fora deste, a
diferena entre o ser e o ente, tudo isto indica bem que,
fundamentalmente, nada escapa ao movimento do significante
e que, em ltima instncia, a diferena entre o significado e
"A garantia da voz silenciosa das fontes ocultas". (N. dos T.)
12. P. SC da traduo francesa de G. Kahn.  [Recorremos para a Intro-
duo d Metajsica,  traduo brasileira de E. Carneiro Leo, Tempo Brasileiro
(Rio), 2~ ed~o, 1969. O texto citado acha-se nas pp. 67-68 - (N. dos T.).]
GRAMATOLOGIA
27
o significante no  nada. Esta proposio de transgresso,
se no for tomada num discurso preveniente, corre o risco
de formular a prpria regresso. Deve-se, portanto, passar
Fela questo do ser, tal como  colocada por Heidegger e
apenas por ele, para a onto-teologia e mais alm dela, para
aceder ao pensamento rigoroso desta estranha no-diferena
e determin-la corretamente. Que o "ser", tal como  fixado
sob suas formas sintticas e lexicolgicas gerais no interior
da rea lingstica e da filosofia ocidentais, no seja um sig-
nificado primeiro e absolutamente irredutvel, que ainda este-
ja enraizado num sistema de lnguas e numa "significncia"
histrica determinada, embora estranhamente privilegiada
como virtude de desvelamento e de dissimulao, Heidegger
lembra-o s vezes: particularmente quando convida a medi-
tar o "privilgio" da "terceira pessoa do singular do pre-
sente do indicativo" e do "infinitivo". A metafsica ocidental
,
como limitao do sentido do ser no campo da presena,
produz-se como a dominao de uma forma lingstical3.
13. Introduo d MetaJsica (escrito em 1935), p. 103 da traduo francesa
(p. 118 da tradm;o brasileira: "Tudo isso acena na direo daquilo com
que nos deparamos na primeira caracterizao da experincia e interpretao
grega do Ser. Se nos ativermos  nterpretao usual do infinitivo, o verbo
'ser' retira ento o seu sentido do carter unitrio e determinado do horizonte,
que guia a compreenso. Em sntese: ns compreendemos ento o substantivo
verbal 'ser' pelo infinitivo, o qual, por sua vez, se reporta sempre ao 'e' e a
varicdade por ele exposta (9ue nn.r expusemos). A forma verbal singular e
determinada. '', a terceira pe.s.soa do singular do indioativo presente possui aqui
uma Proeminncia. No compreendemos o `ser' com relao ao `m s', 'vs
sois', `eu sou' ou 'eles seriam' embora todas essas formas expressem tambm.
e do mcsmo modo que o '', varia6es verbais do `ser'. Por outro lado, sem
o querer e quase se no fosse possvel de outra maneira, explicamos o infinitivo
'ser' a partir do `'. Por conseguinte o `ser' possui a significao indicada,
que recotoa a concepo grega da Essencializao do Ser (da esrancia do ser),
uma determinao, portanto, que no nos caiu por acaso do cu mas que desde
milnios, vem dominando a nossa existncia Histrica (nosso esrar-A proven-
rua!) lCeschichre des Wesens) Com um s golpe, pois, o noss0 .esforo
em determinar a significao verbal do 'ser' se transforma expressamente naquilo
que  realmente: uma reflexo sobre a provenincia de nossa Hisrria oculra."
outraa meditao sobre a origem de nosso .rer-A vrorenrual). Seria necessrio.
 claro citar integralmente a anlise que assim se termina. (Pusemos entre
colchetes e em grifo as expresses usadas na traduo francesa, citada Por
Derrida, quando divergem de Carneiro Leo.) (N. dos T.)
 Sobre a palavra Essencializao, transcrevemos a nota de Carneiro Leo
em sua traduo de Heidegger, j citada: "O verbo 'wesen'  arcaico em
alemo. Usa-se apenas em algumas formas e palavras, como 'gewesen' (=
sido), 'ab-wesend' (= ausente), `an-wesend' (= presente), 'das Wesen' (= a
propriedade, a essncia), etc. Heidegger o reintroduziu na linguagem da filo-
sofia. Como termo tcnico de seu pensamento, significa a dinmica pela qual
um ente chega ao vigor de sua essncia na existncia humana. Esta dinmica
 sempre Historicamente instaurada pela vicissitude da Verdade do Ser. Para
exprimir toda essa estrutura existencial usamos na traduo um neologismo,
'essencializar' 'essencializao'." (Introduo  Metafsica, p. 219). (N. dos T.l
 Nota de Carneiro Leo ~obre Histria-Historiografia (Geschichte-Histoi-
re) : "Em geral a lngua alem tem duas palavras que se usam promiscuamente,
'Geschichte' e 'Historie'. 'Geschichte' provm do verbo 'geschehen' (= acon-
tecer, dar-se, processar-se), e significa o conjunto dos acontecimentos humanos
no curso do tempo. 'Historie' de origem grega atravs do latim,  a cincia da
'Geschichte'. Em sua filosofia Heidegger distiogue rigorosamente as duas palavras,
e entende, a partir de sua interpretao da Histria do Ser, `Geschichte' diale-
ticamente como a iluminao da diferena ontolgica. Da poder falar em
O FIM DO LIVRO E O COMEO DA ESCRITURA 27
Interrogar a origem desta dominao no equivale a hipos-
tasiar um significado transcendental, mas a questionar sobre
o que constitui a nossa histria e o que produziu a transcen-
dentalidade mesma. Heidegger tambm o lembra quando, em
Zur Seinsfrage pela mesma razo, no permite ler a palavra
"ser" seno sob uma cruz (kreuzweise Durchstreichung) (o
riscar cruciforme). Esta cruz no , contudo, um signo sim-
plesmente negativo (p. 31 ) *. Esta rasura  a ltima escri-
tura de uma poca. Sob seus traos apaga-se, conservando-se
legvel, a presena de um significado transcendental. Apa-
ga-se conservando-se legvel, destri-se dando a ver a idia
mesma de signo. Enquanto de-limita a onto-teologia, a me-
tafsica da presena e o logocentrismo, esta ltima escritura
 tambm a primeira escritura.
Da vir a reconhecer, no aqum dos caminhos heideg-
gerianos mas no seu horizonte, e ainda neles mesmos, que o
sentido do ser no  um significado transcendental ou trans-
-epocal (ainda que fosse sempre dissimulado na poca) mas
j, num sentido propriamente inaudito, um rastro significante
determinado,  afirmar que, no conceito decisivo de diferena
ntico-ontolgica, tudo no deve ser pensado de um s gole:
ente e ser, ntico e ontolgico, "ntico-ontolgico" seriam,
num estilo original, derivados com respeito  diferena; e,
em relao ao que denominaremos mais adiante a diferncia,
conceito econmico designando a produo do diferir, no
duplo sentido desta palavra. A diferena-ntico-ontolgica
e seu fundamento (Grund ) na "transcendncia do Dasein"
(Vom Wesen des Grundes, (Da essncia do fundamento)
p. 16) no seriam em absoluto originrios. A diferncia **,
sem mais, seria mais "originria", mas no se poderia mais
denomin-la "origem" nem "fundamento", pertencendo estas
noes essencialmente  histria da onto-teologia, isto , ao
sistema funcionando como apagamento da diferena. Esta
s pode, contudo, ser pensada . na sua maior proximidade
sob uma condio: que se comece determinando-a como di-
ferena ntico-ontolgica, antes de riscar esta determinao.
A Necessidade da passagem pela determinao riscada, a
'Geschichte' do ente e em 'Geschichte' do Ser. Traduzimos `Historie' por histo-
riografia e 'Geschichte' do ente por histria com minscula e 'Geschichte' do
Ser por Histria com maiscula" (Ibidem, pp. 77-78). (N. dos T.)
' Texto publicado em portugus pela Livraria Duas Cidades (1969), com
o ttulo de Sobre o Problema do Ser e juntamente com O Caminho do Campo,
em traduo de Ernildo Stein, revisada por J. G. Nogue.ira Moutinho. As
citaes referem-se s pp. 44 e 45 desta edio. (N. dos T.)
"* O Autor cria o termo diJJrnnce, contrastando-o com diJJrerace ("dife-
rena") e justificando o neologismo no texto j citado, publicado em Thorie
d'ensemble. Mantivemos a traduo di)erncia, j utilizada em A E.rerilura e
n DiJerena, trad Maria Heatriz Marques Nizza da Silva, So Paulo, Perspectiva,
1971. (N. dos T.)
GRAMATOLOGIA
30
Necessidade deste torno de escritura  irredutvel. Pensamen-
to discreto e difcil que, atravs de tantas mediaes desper-
cebidas, deveria carregar todo o peso de nossa questo, de
uma questo que denominamos ainda, provisoriamente, his-
torial.  graas a ela que, mais tarde, poderemos tentar fazer
comunicarem-se a diferncia e a escritura.
A hesitao destes pensamentos (aqui, os de Nietzsche
e de Heidegger) no  uma "incoerncia": tremor*** prprio
a todas as tentativas ps-hegelianas e a esta passagem entre
duas pocas. Os movimentos de desconstruo no solicitam
as estruturas do fora. S so possveis e eficazes, s ajustam
seus golpes se habitam estas estruturas. Se as habitam de
uma certa maneira, pois sempre se habita, e principalmente
quando nem se suspeita disso. Operando necessariamente do
interior, emprestando da estrutura antiga todos os recursos
estratgicos e econmicos da subverso, emprestando-os es-
truturalmente, isto , sem poder isolar seus elementos e ses
tomos, o empreendimento de desconstruo  sempre, de
um certo modo, arrebatado pelo seu prprio trabalho. Eis
o que no deixa de assinalar, diligentemente, aquele que co-
meou o mesmo trabalho em outro lugar da mesma habita-
o. Nenhum exerccio est mais difundido em nossos dias
do que este, e deveria poder-se formalizar as suas regras.
J Hgel estava preso neste jogo. De um lado, no h
dvida de que ele resumiu a totalidade da filosofia do logos.
Determinou a ontologia como lgica absoluta; reuniu todas
as delimitaes do ser como presena; designou  presena
a escatologia da parusia, da proximidade a si da subjetividade
infinita. E  pelas mesmas razes que teve de rebaixar ou
subordinar a escritura. Quando critica a caracterstica leib-
niziana, o formalismo do entendimento e o simbolismo mate-
mtico, faz o mesmo gesto: denunciar o ser-fora-de-si do
logos na abstrao sensvel ou intelectual. A escritura  este
esquecimento de si, esta exteriorizao, o contrrio da me-
mria interiorizante, da Erinnerung* que abre a histria do
esprito.  o que dizia o Fedro: a escritura  ao mesmo
tempo mnemotcnica e potncia de esquecimento. Natural-
mente, a crtica hegeliana da escritura detm-se diante do
alfabeto. Enquanto escritura fontica, o alfabeto  simulta-
neamente mais servil, mais desprezvel, mais secundrio ("A
escritura alfabtica exprime sons que, por sua vez, so j
signos. Ela consiste, portanto, em signos de signos" ("aus
 Aluso a Temor e Tremor, de S. Kierkegaard. N. dos .T.)
 Substan`ivo alemo composto do verbo erinnern e que sigitifica "recor-
dao, lentbrana". Deriva-se do termo inner, "interior", "interno". (N. dos T.)
O FIM DO LIVRO E O COMEO DA ESCRITURA 31
Zeichen der Zeichen", Enciclopdia,  459), mas  tambm a
melhor escritura, a escritura do esprita: seu apagamento
diante da voz, aquilo que nela respeita a interioridade ideal
dos significantes fnicos, tudo pelo qual ela sublima o espao
e a vista, tudo isto a torna a escritura da histria, isto , a
escritura do esprito infinito referindo-se a si mesmo em seu
discurso e em sua cultura:
"Segue-se da que aprender a ler e escrever uma escritura alfab-
tica  ter um meio de cultura de infinita riqueza (unendliches Bil-
dungsmittel) e no bastante apreciado; j que conduz o esprito, do
concreto sensvel,  ateno para com o momento formal,  palavra
sonora e aos seus elementos abstratos, e contribui de maneira essen-
cial para fundar e purificar no sujeito o campo da interioridade."
Neste sentido, ela  a Aufhebung* das outras escrituras,
e particularmente da escritura hieroglfica e da caracterstica
leibniziana, que haviam sido criticadas anteriormente num ni-
co e mesmo gesto. (A Aufhebung , de maneira mais ou
menos implcita, o conceito dominante de quase todas as his-
trias da escritura, ainda hoje. Ela  o conceito da histria
e da teleologia.) Hegel prossegue, com efeito:
"O hbito adquirido cancela depois tambm a especificidade pela
qual a escritura alfabtica aparece, no interesse da vista, como um
caminho indireto (Umweg) para alcanar pela audibilidade as repre-
sentaes; o que faz semelhantemente  escritura hieroglfica, de
modo que no uso dela no temos necessidade de ter presente  cons-
cincia, diante de ns, a mediao dos sons".
 sob esta condio que Hegel retoma, por conta pr-
pria, o elogio leibniziano (la escritura no-fontica. Ela pode
ser praticada pelos surdos e pelos mudos, dizia Leibniz.
Hegel:
`'Alm de conservar-se - pela prtica que transforma a escritura
alfabtica em hierglifos - a capacidade de abstrao adquirida com
aquele primeiro exerccio, a leitura hieroglfica  para si mesma uma
leitura surda e uma escritura muda (eintaubes Lesen und ein stummes
Schreiben); o audvel ou temporal, e o visvel ou espacial, tm, de
fato, cada um seu prprio fundamento e de igual validade um que
o outro; mas, na escritura alfabtica, h somente um fundamento,
isto , a exata relao pela qual a lngua visvel se refere  lngua
sonora s como signo; a inteligncia se exterioriza imediata e incondi-
cionalmente no falar".
O que trai a escritura mesma, no seu momento no-fo-
ntico,  a vida. Ela ameaa de um nico movimento o
 Termo empregado por Hegel e que corresponde ao verbo oulheben, que
Jean Wahl props rraduzir em francs como "surpri~tner", neologismo exemplar
que d conta do seu duplo sentido: suprimir algo, levndo-o  sua mxima
perfeio. (N. dos T.)
32 GRAMATOLOGIA
sopro, o esprito, a histria como relao a si do esprito.
Ela  o seu fim, a sua finidade, a sua paralisia. Cortando o
sopro, esterilizando ou imobilizando a criao espiritual na
repetio da letra, no comentrio ou na exegese, confinada
num meio estreito, reservada a uma minoria, ela  o princ-
pio de morte e de diferena no devir do ser. Ela est para
a fala como a China est para a Europa:
"S ao carter exegtico da cultura espiritual chinesa  ade-
quada a escritura hieroglfica; e, alm disso, este modo de escritura
s pode ser prprio daquela minoria de um povo que tem a posse
exclusiva da cultura espiritual." ... "Uma linguagem de escritura
hieroglfica reclamaria uma filosofia to exegtica como , em geral,
a cultura dos chineses."
Se o momento no-fontico ameaa a histria e a vida
do esprito como presena a si no sopro,  porque ameaa a
substancialidade, este outro nome metafsico da presena, da
ousia. Inicialmente sob a forma do substantivo. A escritura
no-fontica quebra o nome. Ela descreve relaes e no
denominaes. O nome e a palavra, estas unidades do sopro
e do conceito, apagam-se na escritura pura. A este respeito,
Leibniz  to inquietante quanto o chins na Europa:
"Esta circunstncia da notao analtica das representaes na
escritura hieroglfica, que levou Leibniz ao engano de consider-la
como mais vantajosa que a escritura alfabtica, , ao contrrio, o
que contradiz a exigncia fundamental da linguagem em geral, o no-
me." ... toda diferena (Abweichung) na anlise produziria uma
formao diversa do nome escrito".
O horizonte do saber absoluto  o apagamento da escri-
tura no logos. a reassuno do rastro na parsia, a reapro-
priao da diferena, a consumao do que denominamos,
em outro lugarls, a metaf sica do prprio.
E contudo, tudo o que Hegel pensou neste horizonte,
isto , tudo menos a escatologia, pode ser relido como medi-
tao da escritura. Hegel  tambm o pensador da diferena
irredutvel. Reabilitou o pensamento como memria produ-
tora de signos. E reintroduziu, como tentaremos mostral
em outro lugar, a Necessidade essencial do rastro escrito num
discurso filosfico - isto , socrtico - que sempre acre-
ditara poder dispens-lo: ltimo filsofo do livro e primeiro
pensador da escritura.
14. dem Stavarischen, palavra do alemo arcaico que at agora se traduziu
como "imvel". "ectfico" tcf. l'ribelin. pP 255-2571. (Para as citaes da
Enciclopdia das Cincias Filosllcas de HeBe1 recorremos, com certas alte-
raes,  traduo brasikira de Lvio Xavier, em trs volumes, So Paulo, Athena
Editora, 1936.) (N. dos T.)
15. "A Palavra soprada", em A Escaitura e a Dilerena trad. de Maria
Beattiz Marques Nizza da Silva, So Paulo, Petspectiva, 1971.
2. Lingstica e Gramatologia
A escrilura no  seno a representao da
fala;  esguisito preocupar-se mais com a
deterrninao da imagem que do objeto.
J. J. RoussaAu, Fragmento indito de um
ensaio sohre a lngua.
O conceito de escritura deveria definir o campo de uma
cincia. Mas, pode ele ser estabelecido pelos cientistas, fora
de todas pr-determinaes histrico-metafsicas que acaba-
mos de situar to secamente? O que significar uma cincia
da escritura uma vez estabelecida:
 1. que a prpria idia de cincia nasceu numa certa
poca da escritura;
2 que foi pensada e formulada, enquanto tarefa, idia,
projeto, numa linguagem que implica um certo tipo de re-
laes determinadas - estrutural e axiologicamente - entre
fala e escritura;
3 que, nessa medida, ela, primeiramente, ligou-se ao
conceito e  aventura da escritura fontica, valorizada como
o telos de toda escritura, enquanto o que sempre foi o mo-
delo exemplar da cientificidade - a matemtica - jamais
cessou de afastar-se de tal aventura;
4 que a idia mais rigorosa de uma cincia geral da
escritura nasceu, por razes no fortuitas, numa certa poca
da histria do mundo ( yue se evidencia por volta do sculo
XVIII) e num certo sistema determinado das relaes entre
a fala "viva" e a inscrio:
GRAMATOLOGIA
5 que a escritura no  somente um meio auxiliar a
servio da cincia - e eventualmente seu objeto - mas,
antes de mais nada, conforme lembrou particularmente Hus-
serl em A Origem da Geometria, a condio de possibilidade
dos objetos ideais e, portanto, da objetividade cientfica.
Antes de ser seu objeto, a escritura  a condio da episteme;
6 que a prpria historicidade est ligada  possibili-
dade da escritura:  possibilidade da escritura em geral, para
alm destas formas particulares de escritura em nome das
quais por muito tempo se falou de povos sem escritura e
sem histria. Antes de ser o objeto de uma histria - de
uma cincia histrica - a escritura abre o campo da hist-
ria - do devir histrico. E aquela (Historie, diramos em
alemo) supe este (Geschichte).
A cincia da escritura deveria, portanto, ir buscar seu
objeto na raiz da cientificidade. A histria da escritura
deveria voltar-se para a origem da historicidade. Cincia
da possibilidade da cincia? Cincia da cincia que no
mais teria a forma da lgica mas sim da gramtica? Histria
da possibilidade da histria que no mais seria uma arqueo-
logia, uma filosofia da histria ou uma histria da filosofia?
As cincias positivas e clssicas da escritura no podem
seno reprimir este tipo de questo. At certo ponto, esta
represso  at mesmo necessria para o progresso da inves-
tigao positiva. Alm do fato de que ainda estaria presa
 lgica filosofante, a questo onto-fenomenolgica relativa
 essncia, ou seja, relativa  origem da escritura, no pode-
ria, sozinha, seno paralisar ou esterilizar a pesquisa hist-
rica e tipolgica dos fatos.
Nossa inteno, assim, no  confrontar este problema
pr-judicial, esta seca necessria e, de certa facilidade, fcil
questo de direito, com o poder e eficcia das pesquisas
positivas a que hoje nos  dado assistir. Jamais a gnese e
o sistema das escrituras propiciaram exploraes to pro-
fundas, extensas e seguras. Muito menos, trata-se de con-
frontar a questo com o peso das descobertas, porquanto,
as questes so imponderveis. Se esta no o , completa-
mente, talvez seja porque seu recalcamento tem conseqncias
efetivas no prprio contedo de pesquisas que, no presente
caso e privilegiadamente, ordenam-se sempre ao redor de
problemas de definio e de comeo.
Menos que qualquer outro, o gramatlogo pode evitar
interrogar-se sobre a essncia de seu objeto sob a forma de
uma questo de origem: "O que  a escritura?" quer dzer
"onde e quando comea a escritura?" As respostas geral-
LINGUSTICA E GRAMATOLOGIA
35
mente aparecem muito rapidamente. Circulam em conceitos
realmente pouco criticados e movem-se em evidncias que
desde sempre parecem bvias. Ao redor destas respostas, de
cada vez ordenam-se uma tipologia e uma perspectiva do
devir das escrituras. Todas as obras que tratam da histria
da escritura so compostas da mesma forma: uma classifica-
o de tipo filosfico e teleolgico esgota os problemas cr-
ticos em algumas pginas, passando-se em seguida  exposio
dos fatos. Contraste entre a fragilidade terica das recons-
trues e a riqueza histrica, arqueolgica, etnolgica, filo-
lgica da informao.
Origem da escritura, origem da linguagem, as duas ques-
tes dificilmente se separam. Ora, os gramatlogos, que
em geral so, por formao, historiadores, epigrafistas, ar-
quelogos, raramente ligam suas pesquisas  cincia moderna
da linguagem. Surpreendemo-nos ainda mais sendo a lin-
gstica, entre as "cincias do homem", aquela a que  atri-
buda,  cientificidade como exemplo, com uma unanimidade
solicita e insistente.
Pode, pois, a gramatologia, de direito esperar da lin-
gstica um socorro essencial que quase nunca de fato pro-
curou? No se revela, ao contrrio, eficazmente agindo no
prprio movimento pelo qual a lingstica se instituiu como
cincia, um pressuposto metafsico quanto s relaes entre
fala e escritura? No obstaria a constituio de uma cincia
geral da escritura um tal pressuposto? Ao levantar este
pressuposto no se alteraria a paisagem em que, pacificamen-
te, estabeleceu-se a cincia da linguagem? Para melhor e
para pior? Para o cegamento e para a produtividade? Tal
 o segundo tipo de questo que gostaramos de esboar ago-
ra. Para precis-la, preferimos aproximarmo-nos, como de
um exemplo privilegiado, do projeto e textos de Ferdinand
de Saussure. Que a particularidade do exemplo no rompa
a generalidade de nosso propsito: procuremos aqui e ali,
fazer algo mais alm de sup-lo.
A lingstica pretende, pois, ser a cincia da linguagem.
Deixemos aqui de lado todas as decises implcitas que esta-
beleceram um tal projeto e todas as questes que a fecun-
didade desta cincia deixa adormecidas em relao  sua
prpria origem. Consideremos primeiro simplesmente, do
ponto de vista que nos interessa, que a cientificidade desta
cincia comumente  reconhecida devido a seu fundamento
fonnolgico. A fonologia, afirma-se hoje, freqentemente.
comunica sua cientificidade  lingstica que serve, ela mes-
ma, de modelo epistemolgico para todas as cincias huma-
36 GRAMATOLOGIA
nas. Visto que a orientao deliberada e sistematicamente
fonolgica da lingstica (Troubetzki, Jakobson, Martinet)
realiza uma inteno que foi de incio a de Saussure, diri-
gir-nos-emos, no essencial e pelo menos provisoriamente, a
esta ltima. O que dela diremos valer a fortiori para as
formas mais acusadas do fonologismo? O problema ser
pelo menos colocado.
A cincia lingstica determina a linguagem - seu cam-
po de objetividade - em ltima instncia e na simplicidade
irredutvel de sua essncia, como a unidade de phon, glossa
e logos. Esta determinao  anterior de direito a todas
as diferenciaes eventuais que puderam surgir nos sistemas
terminolgicos das diferentes escolas (lngua/fala; cdigo/
/mensagem; esquema/uso; lingstica/lgica; fonologia/fone-
mtica/fontica/glossemtica). E mesmo que queiramos con-
finar a sonoridade do lado do significante sensvel e contin-
gente (o que seria literalmente impossvel, uma vez que iden-
tidades formais recortadas numa massa sensvel j so idea-
lidades no puramente sensveis), ser necessrio admitir que
a unidade imediata e privilegiada que fundamenta a signifi-
cncia e o ato de linguagem  a unidade articulada do som
e do sentido na fonia. Em relao a esta unidade, a escritura
seria sempre derivada, inesperada, particular, exterior, dupli-
cando o significante: fontica. "Signo de signo", diziam Aris-
tteles, Rousseau e Hegel.
Entretanto, a inteno que institui a lingstica geral
como cincia permanece, sob este ponto de vista, na contra-
dio. Um propsito declarado confirma com efeito, dizendo
o que  aceito sem ser dito, a subordinao da gramatologia,
a reduo histrico-metafsica da escritura  categoria de ins-
trumento subordinado a uma linguagem plena e originaria-
mente falada. Mas um outro gesto (no dizemos um outro
propsito, pois, aqui, o que no segue sem dizer  feito sem
ser dito, escrito sem ser proferido) liberta o porvir de uma
gramatologia geral, de que a lingstica fonolgica seria so-
mente uma regio dependente e circunscrita. Sigamos em
Saussure esta tenso do gesto e do propsito.
O FORA, E O DENTRO
De um lado, segundo a tradio ocidental que rege no
s teoricamente mas na prtica (no princpio de sua prtica)
as relaes entre a fala e a escritura, Saussure reconhece a
esta no mais que uma funo estrita e derivada. Estrita por-
LINGfSTICA E GRAMATOLOGIA 3
que no  seno uma entre outras, modalidade dos eventos
que podem sobrevir a uma linguagem cuja essncia, confor-
me parecem ensinar os fatos, sempre pode permanecer pura
de qualquer relao com a escritura. "A lngua tem uma
tradio oral independente da escritura" (Curso de lings-
tica geral, p. 35 ) *. Derivada porque representativa: signi-
ficante do significante primeiro, representao da voz pre-
sente a si, da significao imediata, natural e direta do sen-
tido (do significado, do conceito, do objeto ideal ou como se
queira). Saussure retoma a definio tradicional da escri-
tura que j em Plato e em Aristteles se estretava ao redor
do modelo da escritura fontica e da linguagem de palavras.
Lembremos a definio aristotlica: "Os sons emitidos pela
voz so os smbolos dos estados da alma, e as palavras escri-
tas, os smbolos das palavras emitidas pela voz". Saussure:
"Lngua e escritura so dois sistemas distintos de signos; a
nica razo de ser do segundo  representar o primeiro"
(Curso de lingstica geral, p. 34. O grifo  nosso). Esta
determinao representativa, mais que relacionar-se sem d-
vida essencialmente com a idia de signo, no traduz uma
escolha ou uma avaliao, no trai um pressuposto psicol-
gico ou metafsico prprio a Saussure; descreve, ou melhor,
reflete a estrutura de um certo tipo de escritura: a escritura
fontica, aquela de que nos servimos e em cujo elemento a
episteme em geral (cincia e filosofia), a lingstica em par-
ticular, puderam instaurar-se. Seria necessrio, alis, dizer
modelo mais que estrutura: no se trata de um sistema cons-
trudo e funcionando perfeitamente, mas sim de um ideal di-
rigindo explicitamente um funcionamento que de fato nunca
, totalmente fontico. De fato, mas tambm por razes de
essncia s quais freqentemente voltaremos.
Este factum da escrtura fontica  macio,  verdade,
comanda toda nossa cultura e toda nossa cincia, e eerta-
mente no  um fato entre outros. No responde, contudo,
nenhuma Necessidade de essnca absoluta e universal, Ora,
 a partir dele que Saussure definiu o projeto e o objeto da
lingstica geral: "O objeto lingstico no se define pela
combinao da palavra escrita e da palavra falada; esta
ltima por si s constitui tal objeto" (p. 34. O grifo  nosso).
A forma da questo, a que ele assim respondeu, predes-
tinava a resposta. Tratava-se de saber que tipo de palavra
 objeto da lingstica e quais so as relaes entre estas
unidades atmicas que so a palavra escrita e a palavra fala-
* Traduo de Antonio Chelini, Jos Paulo Paes e Izidoro Blikstein, 2
ed., So Paulo, Editora Cultrix, 1970. (N. dos T.)
38 GRAMATOLOGIA
da Ora, a palavra (vox) j  uma unidade do sentido e do
som, do conceito e da voz, ou, para falar mais rigorosamente
a linguagem saussuriana, do significado e do significante.
Alis, esta ltima terminologia fora primeiramente proposta
somente no domnio da lngua falada, da lingstica no sen-
tido estrito e no da semiologia ("Propomo-nos a conservar
o termo signo para designar o total, e a substituir conceito
e imagem acstica respectivamente por signi f icado e signi f i-
cante" p. 81). A palavra j , pois, uma unidade consti-
tuda, um efeito "do fato, de certo modo misterioso, de o
`pensamento-som' implicar divises" ( p, 131 ) . Mesmo que
a palavra seja, por sua vez, articulada, mesmo que implique
outras divises, enquanto se colocar a questo das relaes
entre fala e escritura, considerando unidades indivisveis do
"pensamento-som", a resposta j estar pronta. A escritura
ser "fontica", ser o fora, a representao exterior da lin-
guagem e deste "pensamento-som". Dever necessariamente
operar a partir de unidades de significao j constitudas e
em cuja formao no tomou parte.
Objetaro, talvez, que, longe de contradiz-la, a escri-
tura nunca fez outra coisa seno confirmar a lingstica da
palavra. At aqui, com efeito, demos a impresso de consi
derar que, somente a fascinao por esta unidade a que se
chama palavra, tinha impedido conceder  escritura a consi-
derao que ela merecia. Com isso, parecramos supor que,
acaso se cessasse de conceder um privilgio absoluto  pa-
lavra, a lingstica moderna se tornaria muito mais atenta
 escritura e deixaria, enfim, de dela susgeitar. Andr Mar-
tinet chega  concluso inversa. Em seu estudo sobre A
palavral, descreve a Necessidade a que obedece a lings-
tica atual, sendo conduzida, se no a excluir completamente
o conceito de palavra, ao menos a tornar flexvel seu uso, a
associ-lo a conceitos de unidades menores ou maiores (mo-
nemas ou sintagmas ) . Ora, creditando e consolidando, no
interior de certas reas lingsticas, a diviso da linguagem
1. In Diogne, 51, 1%5 A. Martinet alude  "audcia" qus "teria sido
preciso" h pouco tempo para "pensar em afastar o termo 'palavra' l onde
a pesquisa tivesse mostrado no ser possvel dar deste termo uma definio
universalmente aplicvel" (p. 39) . , . "A semiologia ta1 como os recentes estudos
deixam entrever, no tem nenhuma necessidade da palavra" (p. 40)... "H
muito tempo que gramticos e lingistas se deram conta de que a anlise do
enunciado podia-se realizar para alm da palavra sem cair, por causa disso,
na fontica, isto , desembocar em segmentos do discurso, tais como a slaba
ou o fonema, que no tm mais nada a ver com o sentido" (p. 41). "Roamos
a no que torna a noo de palavra to suspeita para qualquer lingista verda-
deiro: no poderia ser questo para ele aceitar as grafias tradicionais sem
verificar, anteriormente, se reproduzem com fidelidade a estrutura verdadeira da
lngua de que supostamente elas fazem a notao" (p. 48). A. Martinet prope
para concluir substituir "na prtica lingstica" a noo de palavra pela de
"sintagma", "grupo de vrios signos mnma" que se denominar "monemas".
LINGSTICA E GRAMATOLOGIA 39
em palavras, a escritura teria assim encorajado a lingstica
clssica em seus preconceitos. A escritura teria construdo
ou ao menos condensado a "tela da palavra".
"O que um lingista contemporneo pode dizer da palavra ilus-
tra bem a que reviso geral dos conceitos tradicionais a pesquisa
funcionalista e estruturalista dos trinta e cinco ltimos anos teve de
proceder, visando dar uma base cientfica  obser'vao e  descrio
das lnguas. Certas aplicaes da lingstica, tais como as pesquisas
relativas  traduo mecnica pelo relevo que do  forma escrita
da linguagem, poderiam fazer acreditar na importncia fundamental
das divises do texto escrito e fazer esquecer que  do enunciado
oral que sempre  preciso partir para compreender a natureza real
da linguagem humana. Tambm, mais que nunca,  ndispensvel
insistir sobre a Necessidade de desenvolver o exame para alm das
aparncias imediatas e das estruturas mais familiares ao investigador.
 por trs da tela da palavra que aparecem mais freqentemente os
traos realmente fundamentais da linguagem humana."
No se pode seno subscrever estas advertncias. De-
ve-se, todavia, reconhecer que elas somente atraem a sus-
peio sobre um certo tipo de escritura: a escritura fon-
tica conformando-se s divises empiricamente determinadas
e praticadas da lngua oral comum. Os procedimentos de
traduo mecnica, a que se faz aluso, regem-se da mesma
maneira sobre esta prtica espontnea. Para alm deste mo-
delo e deste conceito d escritura, toda esta demonstrao
deve, ao que parece, ser reconsiderada. Pois permanece presa
 limitao saussuriana que procuramos reconhecer.
Saussure, com efeito, limita a dois o nmero de sistemas
de escritura, ambos definidos como sistemas de representao
da linguagem oral, ou porque representam palavras, de modo
sinttico e global, ou porque representam foneticamente ele-
mentos sonoros constituindo as palavras:
"Existem somente dois sistemas de escritura: 1) o sistema ideo-
grfico, em que a palavra  representada por um signo nico e es-
tranho aos sons de que ela se compe. Este signo se relaciona com o
conjunto da palavra, e por isso, indiretamente, com a idia que ex-
prime. O exemplo clssico deste sistema  a escritura chinesa.
2) o sistema dito comumente "fontico", que visa a reproduzir a
srie de sons que se sucedem na palavra. As escrituras fonticas so
ora silbicas, ora alfabticas, vale dizer, baseadas nos elementos irre-
dutveis da fala. Alm disso, as escrituras ideogrficas se tornam
facilmente mistas: certos ideogramas, distanciados de seu valor ini-
cial terminam por representar sons isolados" (p. 36).
Esta limitao, no fundo,  justificada, aos olhos de
Saussure, pela noo do arbitrrio do signo. A escritura sen-
do definida como "um sistema de signos", no h escritura
40 GRAMATOLOGIA
"simblica" (no sentido saussuriano), nem escritura figura-
tiva: no h escritura na medida em que o grafismo mantm
uma relao de figurao natural e de semelhana, qualquer
que seja esta, com o que  ento no significado mas repre-
sentado, desenhado, etc. O conceito de escritura pictogr-
fica ou de escritura natural seria, pois, contraditrio para
Saussure. Se pensamos na fragilidade agora reconhecida
das noes de pictograma, de ideograma, etc., na incerteza
das fronteiras entre as escrituras ditas pictogrficas, ideogr-
ficas, fonticas, medimos no s a imprudncia da limitao
saussuriana mas tambm a necessidade para a lingstica ge-
ral, de abandonar toda uma famlia de conceitos herdados
da metafsica - freqentemente por intermdio de uma psi-
cologia - e que se agrupam ao redor do conceito de arbitr-
rio. Tudo isso remete para alm da oposio natureza/cultu-
ra, a uma oposio que sobrevm entre physis e nomos, physis
e techrc cuja ltima fun,o , talvez, derivar a historicidade;
e, paradoxalmente, no reconhecer seus direitos  histria, 
produo,  instituio, etc., a no ser sob a forma do arbi-
trrio e sobre o fundo de naturalismo. Mas, deixemos pro-
visoriamente esta questo em aberto: talvez, este gesto que
preside, em verdade,  instituio da metafsica, tambm ele
esteja inscrito no conceito de histria e mesmo no conceito
de tempo.
Saussure introduz, em acrscimo, uma outra limitao
compacta:
"Limitaremos nosso estudo ao sistema fontico, e, especialmente
quele em uso hoje em dia, cujo prottipo  o alfabeto grego" (p. 36).
Estas duas limitaes so to mais tranqilizantes na
medida em que aparecem no momento exato para respon-
der  mais legtima das exigncias: a cientificidade da lin-
gstica tem, com efeito, como condio, que o campo lin-
gstico tenha fronteiras rigorosas, que este seja um sistema
regido por uma Necessidade interna e que, de uma certa
maneira, sua estrutura seja fechada. O conceito represen-
tativista da escritura facilita as coisas. Se a escritura no 
mais que a "figurao" (p. 33) da lngua, temos o direito
de exclu-la da interioridade do sistema (pois seria neces-
srio crer que existe aqui um dentro da lngua), assim como
a imagem deve poder se excluir, sem perda do sistema da
realidade. Ao se propor como tema "a representao da
lngua pela escritura", Saussure comea, assim, por colocar
que a escritura  "por si, estranha ao sistema interno" da
LINGUSTfCA E GRAMATOLOGIA 41
lngua (p. 33). Externo/interno, imagem/realidade, repre-
sentao/presena, tal  a velha grade a que est entregue o
desejo de desenhar o campo de uma cincia. E de qual
cincia. De uma cincia que no mais pode responder ao
conceito clssico de episteme porque seu campo tem como
originalidade - uma originalidade que ele inaugura - que
a abertura da "imagem", que nele se d, aparece como a
condio da "realidade": relao que no mais se deixa pensar
na diferena simples e na exterioridade sem compromisso da
"imagem" e da "realidade", do "fora" e do "dentro", da
"aparncia" e da "essncia", com todo o sistema das opo-
sies que a se encadeiam necessariamente. Plato, que no
fundo dizia o mesmo sobre as relaes entre a escritura, a
fala e o ser (ou a idia), tinha - pelo menos a respeito
da imagem, da pintura e da imitao - uma teoria mais
sutil, mais crtica e mais inquieta que aquela que preside ao
nascimento da lingstica saussuriana.
No  por acaso que a considerao exclusiva da escri-
tura fontica permite responder  exigncia do "sistema in-
terno". A escritura fontica tem justamente como princpio
funcional respeitar e proteger a integridade do "sistema inter-
no" da lngua, mesmo que no o consiga de fato. A limi-
tao saussuriana no satisfaz, por uma feliz comodidade, 
exigncia cientfica do "sistema interno". Esta exigncia mes-
ma  constituda, enquanto exigncia episremolgica em ge-
ral, pela prpria possibilidade da escritura fontica e pela
exterioridade da "notao"  lgica interna.
Mas no simplifiquemos: existe tambm, sobre este
ponto, uma inquietude de Saussure. Sem isso, por que daria
ele tanta ateno a este fenmeno externo, a esta figurao
exilada, a este fora, a este duplo? Por que julga ele "impos-
svel fazer abstrao" do que  entretanto designado como o
prprio abstrato em relao ao dentro da lngua?
"Conquanto a escritura seja, por si, estranha ao sistema interno,
 impossvel fazer abstrao de um processo atravs do qual a lngua
 ininterruptamente figurada; cumpre conhecer a utilidade, os defeitos
e os inconvenientes de tal processd' (p. 33).
A escritura teria pois a exterioridade que  atribuda aos
utenslios; sendo, alm disso, ferramenta imperfeita e tc-
nica perigosa, diramos quase que malfica. Compreendemos
melhor por que, em vez de tratar desta figurao exterior
num apndice ou nas margens, Saussure a ela consagra um
captulo to trabalhoso quase que na abertura do Curso. 
42 GRAMATOLOGIA
que se trata, mais do que delinear, de proteger e mesmo
restaurar o sistema interno da lngua na pureza de seu con-
ceito contra a contaminao mais grave, mais prfida, mais
permanente que no parou de amea-lo, at mesmo alte-
r-lo, no decorrer do que Saussure quer, de qualquer forma,
considerar como uma histra externa, como uma sre de
acidentes afetando a lngua, e lhe sobrevindo do fora, no
momento da "notao" ( p. 34 ) , como se a escritura come-
asse e terminasse com a notao. O mal da escritura vem
do fora (~~caBev), j dizia o Fedro (275 a). A contamina-
o pela escritura, seu feito ou sua ameaa, so denunciados
com acentos de moralista e de pregador pelo lingista gene-
brs. O acento conta: tudo se passa como se, no momento
em que a cincia moderna do logos quer aceder  sua auto-
nomia e  sua cientificidade, fosse ainda necessrio abrir o
processo de uma heresia. Este acento comeava a se deixar
entender assim que, no momento de atar j na mesma pos-
sibilidade, a episteme e o logos, o Fedro denunciava a escri-
tura como intruso da tcnica artificiosa, efratura* de uma
espcie totalmente original, violncia arquetpica: irrupo do
fora no dentro, encetando a interioridade da alma, a presena
viva da alma a s no verdadeiro logos, a assistncia que d
a s mesma a fala. Desta forma enfurecda, a veemente argu-
mentao de Saussure aponta mais que um erro terico, mais
que uma falta moral: uma espcie de ndoa e, antes de mais
nada, um pecado. O pecado foi definido freqentemente -
por Malebranche e por Kant, entre outros - como a inver-
so das relaes naturais entre a alma e o corpo na paixo.
Saussure acusa aqui a inverso de relaes naturais entre a
fala e a escritura. No  uma simples analogia: a escritura,
a letra, a inscrio sensvel, sempre foram consideradas pela
tradio ocidental como o corpo e a matria exteriores ao
esprito, ao sopro, ao verbo e ao logos. E o problema rela-
tivo  alma e ao corpo, sem dvida alguma, derivou-se do
problema da escritura a que parece - ao invs - empres-
tar as metforas.
A escritura, matria sensvel e exterioridade artificial:
uma "vestimenta". Por vezes, contestou-se que a fala fosse
uma vestimenta para o pensamento. Husserl, Saussure, La-
 Efratura, ou o mesmo a_ue "efrao" e "efrzco",  termo mdico para
indicar - segundo Laudelino Freire - o "arrombamento", e traduz aqui o
francs ejjracfion, que tem sentido jurdjco de arrombar uma porta. fknomina-
se "bris de clBture" a efratura cometida de Jora da casa, segundo o Roberr.
sendo que "clbture" (palavra fundamental neste livro, por ns traduzida clau-
sura) aui se refere precisamente ao conjunto de peas que fecham e trancam
uma porta. - Note-se que usamos "arrombamentd' para traduzir Perce. (N.
dos T.)
LINGiSfSTICA E GRAMATOLOGIA 43
velle no deixaranl de faz-lo. Mas, alguma vez duvidou-se
que a escritura fosse uma vestimenta da fala? Para Saussure
chega a ser uma vestimenta de perverso, de desarranjo, h-
bito de corrupo e de disfarce, mscara de festa que deve
ser exorcizada, ou seja, conjurada pela boa fala: "A escri-
tura vela a viso da lngua: ela no  uma vestimenta e sim
uma travestimenta" (p. 40). Estranha "imagem". J se lana
suspeio que, se a escritura  "imagem" e "figurao" exte-
rior, esta "representao" no  inocente. O fora mantm
com o dentro uma relao que, como sempre, no  nada
menos do que simples exterioridade. O sentido do fora sem-
pre foi no dentro, prisioneiro fora do fora, e reciprocamente.
Logo, uma cincia da linguagem deveria reencontrar re-
laes naturais, isto , simples e originais, entre a fala e a
escritura, isto , entre um dentro e um fora. Deveria res-
taurar sua juventude absoluta e sua pureza de origem, aqum,
de uma histria e de uma queda que teriam pervertido as
relaes entre o fora e o dentro. A haveria, pois, uma natu-
reza das relaes entre signos lingsticos e signos grficos,
e  o terico do arbitrrio do signo que dela nos lembra.
Segundo os pressupostos histrico-metafsicos que evocamos
mais acima, haveria a, primeiramente, um liame natural do
sentido aos sentidos e  o que passa do sentido ao som:
"liame natural, diz Saussure, o nico verdadeiro, o do som"
(p. 35). Este liame natural do significado (conceito ou sen-
tido) ao significante fnico condicionaria a relao natural
subordinando a escritura (imagem visvel, diz-se)  fala. 
esta relao natural que teria sido invertida pelo pecado ori-
ginal da escritura: "A imagem grfica acaba por se impor 
custa do som . . . e inverte-se a relao natural" (p. 35 ) .
Malebranche explicava o pecado original, pelo descuido, pela
tentao de facilidade e de preguia, por este nada que foi a
"distrao" de Ado, nico culpado diante da inocncia do
verbo divino: este no exerceu nenhuma fora, nenhuma efi-
ccia, pois no aconteceu nada. Aqui tambm, cedeu-se 
facilidade, que curiosamente, mas como sempre, est do lado
do artifcio tcnico e no na inclinao do movimento natu-
ral deste modo contrariado ou desviado:
"Primeiramente, a imagem grfica das palavras nos impressiona
como um objeto permanente e slido, mais apropriado que o som
para constituir a unidade da lngua atravs do tempo. Pouco importa
que esse liame seja superficial e crie uma unidade puramente fact-
cia;  muito mais fcil de aprender que o liame natural, o nico ver-
dadeiro, o do som" (p. 35. O grifo  nosso).
GRAMATOLOGIA
44
Que "a imagem grfica das palavras nos impressiona
como um objeto permanente e slido, mais apropriado que
o som para constituir a unidade da lngua atravs do tempo"
no , contudo, tambm um fenmeno natural?  que em
verdade, uma natureza m, "superficial", "factcia" e "fcil"

por embuste, apaga a natureza boa: a que liga o sentido ao
som, o "pensamento-som". Fidelidade  tradio que sem-
pre fez comunicar a escritura com a violncia fatal da insti-
tuio poltica. Tratar-se-ia, como para Rousseau por exem-
plo, de uma ruptura com a natureza, de uma usurpao que
acompanha o cegamento terico sobre a essncia natural da
linguagem, de qualquer forma sobre o liame natural entre
os "signos institudos" da voz e "a primeira linguagem do
homem", o "grito da natureza" (segundo Discurso). Saus-
sure: "Mas a palavra escrita se mistura to intimamente
com a palavra falada de que  a imagem que acaba por usur-
par-lhe o papel principal" (p. 34. O grifo  nosso). Rous-
seau: "A escritura no  seno a representao da fala; 
esquisito preocupar-se mais com a determinao da imagem
que do objeto". Saussure: "Quando se diz que cumpre pro-
nunciar uma letra desta ou daquela maneira, toma-se a ima-
gem por modelo . . . Para explicar esta esquisitice, acrescen-
ta-se que neste caso trata-se de uma pronncia excepcional"
(p. 40~). O que  insuportvel e fascinante,  exatamente
esta intimidade enredando a imagem  coisa, a grafia  fonia,
de tal forma que, por um efeito de espelho, de inverso e
de perverso, a fala parece, por sua vez, o especulum da escri-
tura que "usurpa, assim, o papel principal". A representao
ata-se ao que representa, de modo que se fala como se escre-
ve, pensa-se como se o representado no fosse mais que a
sombra ou o reflexo do representante. Promiscuidade peri-
gosa, nefasta cumplicidade entre o reflexo e o refletido que se
deixa seduzir de modo narcisista. Neste jogo da representa-
o, o ponto de origem torna-se inalcanvel. H coisas,
2. Estendamos nossa citao para a tornar sensveis o tom e o afeto
destas proposies tericas. Saussure ataca a escritura: "Outro resultado,  que
quanto menos a escritura representa o que deve representar, tanto mais se
esfora a tendncia a tom-la por base; os gramticos se obstinam em chamar
a ateno sobre a forma escrita. Psicologicamente, o fato se explica muito bem,
mas tem conseqncias deplorveis. O emprego que se costuma fazer das
palavras `pronunciar' e 'pronncia'  uma consagrao desse abuso e inverte a
relao legtima e real existente entre a escritura e a lngua. Quando se diz
que cumpre pronunciar uma letra desta ou daquela maneira, toma-se a imagem
por modelo. Para que se possa pronunciar oi como wa, seria mister que ele
existisse por si mesmo. Na realidade,  wa que se escreve oi". Em vez de
meditar esta estranha proposio, a possibilidade de tal xro (" o wa que se
escreve oi"), Saussure concatena: "Para explicar esta esquisitice, acrescenta-se
que, nesse caso, trata-se de uma pronncia excepcional do o e do i; mas uma
vez, uma expresso falsa, pois implica uma dependncia da lngua no tocante
 forma escrita. Dir-se-ia que se permite algo contra a escritura, como se o
signo grfico fosse a norma" (p. 40).
LINGSTICA E GRAMATOLOGIA 45
guas e imagens, uma remessa infinita de uns aos outros
mas sem nascente. No h mais uma origem simples. Pois
o que  refletido desdobra-se em si mesmo e no s como
adio a si de sua imagem. R reflexo, a imagem, o duplo
desdobra o que ele reduplica. A origem da especulao tor-
na-se uma diferena. O que se pode ver no  uno e a lei
da adio da origem  sua representao, da coisa  sua ima-
gem,  que um mais um fazem pelo menos trs. Ora, a usur-
pao histrica e a esquisitice terica que instalam a ima-
gem nos direitos da realidade so determinadas como esque-
cimento de uma origem simples. Por Russeau mas tambm
para Saussure. O deslocamento  somente anagramtico:
"acabamos por esquecer que aprendemos a falar antes de
aprender a escrever, e inverte-se a relao natural" (p. 35).
Violncia do esquecimento. A escritura, meio mnemotcnico,
suprimindo a boa memria, a memria espontnea, significa o
esquecimento.  bem precisamente isso que dizia Plato
em Fedro, comparando a escritura  fala como a hypomnesis
 mneme, o auxiliar lembrete  memria viva. Esquecimento
porque mediao e sada fora de si do logos. Sem a escri~
tura, este permaneceria em si. A escritura  a dissimulao
da presena natural, primeira e imediata do sentido  alma
no logos. Sua violncia sobrevm  alma como inconsin-
cia. Assim, desconstruir esta tradio no consistir em
invert-la, em inocentar a escritura. Antes, em mostrar por
que a violncia da escritura no sobrevm a uma linguagem
inocente. H uma violncia originria da escritura porque
a linguagem  primeiramente, num sentido que se desvelar
progressivamente, escrita. A "usurpao" comeou desde sem-
pre. O sentido do bom direito aparece num efeito mitolgico
de retorno.
"As cincias e as artes" escolheram domiciliar nesta
violncia, seu "progresso" consagrou o esquecimento e "cor-
rompeu os costumes". Saussure anagramatiza ainda Rous-
seau: "A lngua literria aumenta ainda mais a importncia
imerecida da escritura ( . . . ) A escritura se arroga, nesse
ponto uma importncia a que no tem direito" (pp. 35-36).
Quando os lingistas enredam-se num erro terico a este res-
peito, quando se deixam apanhar, eles so culpados, seu erro
 primeiramente moral: cederam  imaginao,  sensibili-
dade,  paixo, caram na "armadilha" (p. 34) da escritura,
deixaram-se fascinar pelo "prestgio da escritura" (ibidem),
deste costume, desta segunda natureza. "A lngua tem, pois
uma tradio oral independente da escritura, e bem diversa-
mente fixa; todavia, o prestgio da forma escrita nos impede
46 GRAMATOLOGIA
de v-lo". No seramos, pois, cegos ao visvel, mas sim,
cegados pelo visvel, ofuscados pela escritura. "Os primeiros
lingistas se enganaram nisso da mesma maneira que, antes
deles, os humanistas. O prprio Bopp . . . Seus sucessores
imediatos caram na mesma armadilha." Rousseau j diri-
gia a mesma crtica aos Gramticos: "Para os Gramticos,
a arte da palavra no  quase nada diversa da arte da escri-
tura".3 Como sempre, a "armadilha"  o artifcio dissimu-
lado na natureza. Isto explica que o Curso de lingstica
geral trate primeiramente deste estranho sistema externo
que  a escritura. Preliminar necessria. Para restituir o
natural a si mesmo  preciso primeiramente desmontar a
armadilha. Ler-se- um pouco alm:
"Ter-se-ia que substituir de imediato o artificial pelo natural, isso
porm,  impossvel enquanto no tenham sido estudados os sons da
lngua ainda; pois, separados de seus signos grficos, eles representam
apenas noes vagas, e prefere-se ento o apoio, ainda que enganoso,
da escritura. Assim, os primeiros lingistas que nada sabiam da fi-
siologia dos sons articulados, caam a todo instante, nestas armadi-
lhas: desapegar-se da letra era para eles, perder o p; para ns, cons-
titui o primeiro passo rumo  verdade" (p. 42; incio do captulo
sobre A fonologia).
Para Saussure, ceder ao "prestgio da escritura" , diza-
mos h pouco, ceder  paixo.  a paixo - e examinamos
com cuidado esta palavra - que Saussure analisa e critica
aqui, como maralista e psiclogo de velhssima tradio. Co-
mo se sabe, a paixo  tirnica e escravizante: "A crtica
filolgica  falha num particular: apega-se muito servilmente
 lngua escrita e esquece a lngua viva" ( p. 18 ) . "Tirania
da letra" afirma logo mais Saussure (p. 41 ). Esta tirania ,
no fundo, a dominao do corpo sobre a alma, a paixo
 uma passividade e uma doena da alma, a perverso mo-
ral  patolgica. A ao de volta da escritura sobre a fala
 "viciosa", afirma Saussure, "trata-se (propriamente) de um
fato patolgico" (pp. 40 e 41). A inverso das relaes
naturais teria assim engendrado o perverso culto da letra-
-imagem: pecado de idolatria, "superstio pela letra" diz
Saussure nos Anagramas 4, onde, alis, tem dificuldades para
provar a existncia de um "fonema anterior a toda escritura".
3. Marwscrito colhido na Pliade sob o ttulo Prononciaon (t, II, p. 1248).
Situa-se sua redao por votta de 1761 (ver a nota dos editores da Pliade).
A frase que acabamos de citar  a ltima do fragmento ta1 como est publi-
cado na Pliade. Ela no aparece na edio parcial do mesmo grupo de notas
por Streckeisen-Moultou, sob o ttulo de "Fragment d'un Essai sur 1es langues" e
"Notes dtaches sur le mme suiet", in Oeuvres indires de l.-J. Rouseau, 1861,
p. 295.
4. TexKo aptesentado por J. Starobinski no Mercure de France (fev. 1964).
LINGtrfSTICA E GRAMATOLOGIA
A perverso do artifcio engendra monstros. A escritura,
como todas as lnguas artificiais que se gostaria de fixar e
subtrair  histria viva da lngua natural, participa da mons-
truosidade.  um afastamento da natureza. A caracterstica
de tipo leibniziano e o esperanto estariam aqui no mesmo
caso. A irritao de Saussure diante de tais possibilidades
dita-Ihe comparaes triviais: "O homem que pretendesse
criar uma lngua imutvel, que a posteridade deveria aceitar
tal qual a percebesse, se assemelharia  galinha que chocou
um ovo de pata" ( p. 91 ) . E Saussure quer salvar no ape-
nas a vida natural da lngua mas tambm os hbitos naturais
da escritura.  preciso proteger a vida espontnea. Assim,
no interior da escritura fontica comum,  preciso no se
permitir a introduo da exigncia cientfica e do gosto da
exatido. A racionalidade seria aqui portadora de morte,
desolao e de. monstruosidade. Da por que manter a orto-
grafia comum protegida dos procedimentos de notao do
lingista e evitar a multiplicao dos signos diacrfticos:
"Haveria razes para substituir um alfabeto fonolgico  orto-
grafia atual? Esta questo to interessante pode apenas ser afloradda
aqui; para ns, a escritura fonolgica deve servir apenas aos lingis-
tas. Antes de tudo, como fazer os ingleses, alemes, franceses, etc.
adotarem um sistema uniforme. Alm disso, um alfabeto aplicvel
a todos os idiomas correria o risco de atravancar-se de signos diacr-
ticos; sem falar do aspecto desolador que apresentaria uma pgina de
um texto que tal,  evidente que, a fora de precisar, semelhante
escritura obscureceria o que quisesse esclarecer e atrapalharia o lei-
tor. Estes inconvenientes no sriam compensados por vantagens
suficientes. Fora da Cincia, a exatido fonolgica no  muito
desejvel" (p. 44).
Que no se confunda nossa inteno. Pensamos que so
boas as razes de Saussure, e no se trata de questionar, ao
nvel em que ele o diz, a verdade do que diz Saussure com tal
entonao. E na medida em que uma problemtica expl-
cita, uma crtica das relaes entre fala e escritura no  ela-
borada, o que ele denuncia como preconceito cego dos lin-
gistas clssicos ou da experincia comum continua realmen-
te um preconceito cego, sobre a base de um pressuposto
geral que  sem dvida, comum aos acusados e ao promotor.
Preferiramos colocar os limites e os pressupostos do
que aqui parece bvio e tem para ns as caractersticas e a
valdade da evidncia. Os limites j comearam a aparecer:
por que um projeto de lingstica geral, relativo ao sistema
interno em geral da lngua em geral, desenha os limites de
seu campo dele excluindo como exterioridade em geral, um
GRAMATOLOGIA
48
sistema particular de escritura, por importante que seja este,
e, ainda que fosse de fato universal? Sistema particular
que tem justamente por princpio ou ao menos por projeto
declarado ser exterior ao sistema da lngua falada. Declara-
o de princpio, voto piedoso e violncia histrica de uma
fala sonhando sua plena presena a si, vivendo a si mesma
como sua prpria reassuno: autodenominada linguagem,
autoproduo da fala dita viva, capaz, dizia Scrates, de se
dar assistncia a si mesma; logos que acredita ser para si
mesmo seu prprio pai, elevando-se assim acima do discurso
escrito, infans e enfermo por no poder responder quando
 interrogado e que, tendo `~sempre necessidade da assistncia
de seu pai" (Tov ~saTpr Ev E~i.'say (3orlBov - Fedro 275 d)
deve pois ter nascido de um corte de uma expatriao pri-
meiras, consagrando-o  errncia, ao cegamento, ao luto.
Autodenominada linguagem mas fala iludida ao se crer to-
talmente viva, e violenta por no ser "capaz de se defender"
(8vva~so! !~v ~,va~~Eav~cc) a no ser expulsando 0 outro
e primeiramente, o seu outro, precipitando-o fora e abaixo
sob o nome de escritura. Mas, por mais importante que seja
e nem que fosse de fato universal ou chamado a vir-a-ser
universal, este modelo particular, a escritura fontica, no
existe: nunca nenhuma prtica  puramente fiel a seu princ-
pio. Antes mesmo de falar, conforme faremos mais adiante,
de uma infidelidade radical e a priori necessria, pode-se j
notar os seus fenmenos compactos na escritura matemtica
ou na pontuao, no espaamento em geral, que dificilmente
podem ser considerados como simples acessrios da escritura.
Que ma fala dita viva possa prestar-se ao espaamento na
sua prpria escritura, eis o que originariamente a relaciona
com sua prpria morte.
A "usurpao" enfim de que fala Saussure, a violncia
pela qual a escritura se substituiria,  sua prpria origem, ao
yue deveria no somente t-la engendrado mas ser engen-
drado por si mesmo, uma tal inverso de poder no pode
ser uma aberrao acidental. A usurpao nos remete neces-
sariamente a uma profunda possibilidade de essncia. Esta
inscreve-se, no h dvida, na prpria fala e teria sido ne-
cessrio interrog-la, talvez mesmo de partida.
5. Aparentemente, Rousseau  mais prudente no fragmento sohre a Pro-
nonciarion: "A analise do pensamento se faz pela fala, e a anlise da fala
pela escritura; a fala representa o pensamnto por signos convencionais, e a
escritura representa da mesma forma a fala; assim, a arte de escrever  so-
mente uma representao mediata do pensamento, ao menos quaW o ds lngud.e
rocais, as nicos 9ue sejam usadas entre ns" (p. 1249) (O grifo  nosso).
arentemente pois se Rousseau no se permite aqui falar em 8eral
Apenas ap
de todo sistema, como Saussure, as noes de mediatez e de "lngua vocal"
deixam o enigma intato. Portanto. deveremos voltar a.
LINGiSTICA E GRAMATOLOGIA
49
Saussure confronta o sistema da lngua falada com o
sistema da escritura fontica (e mesmo alfabtica) como
com o telos da escritura. Esta teleologia leva a interpretar
como crise passageira e acidente de percurso toda irrupo
do no-fontico na escritura, e se teria o direito de conside-
r-la como um etnocentrismo ocidental, um primitivismo
prmatemtico e um intuicionismo pr-formalista. Mesmo
que esta teleologia responda a alguma Necessidade absoluta,
deve ser problematizada como tal. O escndalo da "usurpa-
o" a isto convidava expressamente e do interior. A arma-
dilha, a usurpao, como foram possveis? Na resposta a
esta questo, Saussure nunca vai alm de uma psicologia
das paixes ou da imaginao; e de um psicologia reduzida
a seus esquemas mais convencionais. Explica-se aqui, melhor
que em qualquer outra parte, por que toda a lingstica, setor
determinado no interior da semiologia, colocou-se sob a auto-
ridade e a vigilncia da psicologia: "Cabe ao psiclogo
determinar o lugar exato da semiologia" (p. 24). A afirma-
o do liame essencial, "natural", entre a phon e o sentido;
o privilgio atribudo a uma ordem de significante (que se
torna ento o significado maior de todos os outros signifi-
cantes) pertencem expressamente, e em contradio com
outros nveis do discurso saussuriano, a uma psicologia da
conscincia e da conscincia intuitiva. O que aqui no 
interrogado por Saussure,  a possibilidade essencial da no-
-intuio. Como Husserl, Saussure determina teleologicamen-
te esta no-intuio como crise. O simbolismo vazio da no-
tao escrita - na tcnica matemtica por exemplo - ,
tambm para o intuicionismo husserliano, o que nos exila para
longe da evidncia clara do sentido, isto , da presena plena
do significado na sua verdade, abrindo assim a possibilidade
da crise. Esta  verdadeiramente uma crise do logn.s. No
entanto, esta possibilidade permanece, para Husserl, ligada
ao prprio movimento da verdade e  produo da objeti-
vidade ideal: esta, com efeito, tem uma necessidade essencial
da escriturab. Por toda uma face de seu texto, Husserl nos
d a pensar que a negatividade da crise no  um simples
acidente. Mas, ento,  sobre o conceito de crise que seria
necessrio lanar suspeio, no que o liga a uma determina-
o dialtica e teleolgica da negatividade.
Por outro lado, para dar conta da "usurpao" e da
origem da "paixo" o argumento clssico e bastante super-
ficial da permanncia slida da coisa escrita, para no ser
6. Ci. A origem da geommria.
GRAMATOLOGIA
50
simglesmente falso, recorre a descries que, precisamente,
no so mais da alada da psicologia. Esta, no poder ja-
mais encontrar em seu espao aquilo pelo qual se constitui
a ausncia do signatrio, sem falar da ausncia de referente.
Ora, a escriturra  o nome destas duas ausncias. Explicar
a usurpao pelo poder de durao da escritura, pela virtude
de dureza da substncia de escritura, no ser contradizer.
alm do mais, do que em outro lugar  afirmado da tradio
oral da lngua que seria "independente da escritura e, bem
diversamente fixa"? (p. 35). Se estas duas "fixidezas" fossem
da mesma natureza e se a fixideza da lngua falada fosse supe-
rior e independente, a origem da escritura, seu "prestgio"
e sua pretensa nocividade permaneceriam um mistrio inex-
plicvel. Tudo ocorre, ento, como se Saussure quisesse ao
mesmo tempo demonstrar a alterao da fala pela escritura,
denunciar o mal que esta faz quela, e sublinhar a indepen-
dncia inaltervel e natural da lngua. "A lngua independe
da escritura" (p. 34), tal  a verdade da natureza. E, no
entanto, a natureza  afetada - de fora - por uma pertur-
bao que a modifica no seu dentro, que a desnatura e obri-
ga-a a afastar-se de si mesma. A natureza desnaturando-se a
si mesma, afastando-se de si mesma, acolhendo naturalmente
seu fora no seu dentro,  a catstrofe, evento natural que
perturba a natureza, ou a monstruosidade, afastamento na-
tural na natureza. A funo assumida no discurso rousseaus-
ta, conforme veremos, pela catstrofe,  aqui delegada 
monstruosidade. Citemos na sua totalidade, a concluso do
captulo VI do Curso ("Representao da lngua pela escri-
tura"), que deveria ser comparada com o texto de Rousseau
sobre a Pronncia:
"Todavia, a tirania da letra vai mais longe ainda;  fora cte
impor-se  massa, influi na lngua e a modifica. Isso s acontece
nos idiomas muito literrios em que o documento escrito desem-
penha papel considervel. Ento, a imagem visual alcana criar pro-
nncias viciosas; trata-se, propriamente, de um fato patolgico. Isso
se v amide em francs. Dessarte, para o nome de famlia Lefvre
(do latim faber) havia duas grafias, uma popul2r c simples Lefvre,
outra erudita e etimolgica, Lefbvrn. Graas  conFusao de v e n
na escrita antiga, Lefbvre foi lida Lefbnre, com um b que jamais
existiu realmente na palavra, e um u proveniente de um equvoco.
Ora, atualmente esta forma  de fato pronunciada' (p. 41).
Onde est o mal? Talvez se diga. E o que se investiu
na "fala viva" que torne insuportveis estas "agresses" da
escritura? Que comece mesmo por determinar a ao constan-
te da escritura como deformao e agresso? Qual proibi-
LINGiSTICA E GRAMATOLOGIA
51
o assim se transgrediu? Onde est o sacrilgio? Por que
a lngua maternal deveria ser subtrada  operao da escri-
tura? Por que determinar esta operao como uma violncia
e por que a transformao seria somente uma deformao?
Por que a lngua materna deveria no ter histria, ou, o que
d na mesma, produzir sua prpria histria de modo perfei-
tamente natural, autstico e domstico, sem nunca ser afetada
de nenhum fora? Por que querer punir a escritura por um
crime monstruoso, a ponto de pensar em reservar-lhe, no
prprio tratamento cientfico, um "compartimento especial"
mantendo-a  distncia? Pois,  exatamente numa espcie
de leprosrio intralingstico que Saussure quer conter e con-
centrar este problema das deformaes pela escritura. E,
por estar convencido de que ele receberia muito mal se ino-
centes questes que acabamos de colocar - uma vez que,
por fim, Lefbure no est mal e podemos gostar deste jogo
- leiamos o que se segue. Explica-nos que no h a um
"jogo natural" e seu acento  pessimista: "~ provvel que
estas deformaes se tornem sempre mais freqentes, e que
se pronunciem cada vez mais letras inteis". Como em Rous-
seau, e no mesmo contexto, a capital  acusada: "Em Paris
j se diz: sept femmes, fazendo soar o t". Estranho exemplo.
O afastamento histrico - pois  mesmo a histria que seria
necessria parar para proteger a lngua contra a escritura, so-
mente se prolongar:
"Darmester prev o dia em que se pronunciaro at mesmo as
duas letras finais de vin~r, verdadeira mon,sW uczsi`lade ortogrfica.
Essas deformaes fnicas pertencem verdadeiramente  lngua, ape-
nas no resultam de seu funcionamenlo rtatural; so devidas a um
fator que lhe  estranfio. A Lingstica deve p-las em observao
num compartimento especinl: so casos teratolgicos" (p. 41. O
grifo  nosso).
V-se que os conceitos de fixidez, de permanncia e de
durao, que servem aqui para pensar as relaes da fala e
da escritura so muito frouxos e abertos a todos os investi-
mentos* no-crticos. Exigiriam anlises mais atentas e mais
minuciosas. O mesmo se d com a explicao segundo a
qual "na maioria dos indivduos as impresses visuais so
mais ntidas e mais duradouras que as impresses acsticas"
(p. 35). Esta explicao da "usurpao" no  s emprica
* Segundo o Vocabulaire de la rsychanalyse (Presses Universitaires de
France, 1968), de Jean Laplanche e J.-B. Pontalis, o substantivo "investisse-
ment" (traduo do alemo Beser~ung) corresponde ao ingls "cathexis" e, em
portugus, aos termos invesfimenro (que adotamos) ou carga. Trata-se, em
Freud, de "conceito econdmico: faz que uma certa energia psquica se ache
ligada a uma representao ou a um grupo de representaes. a uma parte do
corpo, a um objeto, etc.' (N. dos T.)
52 GRAMATOLOGIA
em sua forma, ela  problemtica em seu contedo, refere-se
a uma metafsica e a uma velha fisiologia das faculdades sen-
sveis incessantemente desmentida pela cincia, assim como
pela experincia da linguagem e do corpo prprio como lin-
guagem. Faz imprudentemente da visibilidade o elemento
sensvel, simples e essencial da escritura. Sobretudo, ao con-
siderar o audvel como o meio rnatural em que a lngua deve
naturalmente recortar e articular seus signos institudos, a
exercendo desta forma seu arbitrrio. esta explicao exclui
qualquer possibilidade de alguma relao natural entre fala
e escritura no exato momento em que a afirma. Ela con-
funde, ento, as noes de natureza e de instituio de que
se serve constantemente, em vez de demiti-las deliberadamen-
te, o que, indubitavelmente deveria ser a primeira coisa a
fazer. Ela contradiz, por fim e sobretudo, a afirmao capi-
tal segundo a qual "o essencial da lngua  estranho ao car-
ter fnico do signo lingstico" (p. 14). Logo nos deteremos
nesta afirmao, nela transparece o avesso da assertiva saus-
suriana denunciando as "iluses da escritura".
O que significam estes limites e estes pressupostos? Pri-
meiramente, que uma lingstica no  geral enquanto definir
seu fora e seu dentro, a partir de modelos lingsticos deter-
minados; enquanto no distinguir rigorosamente a essncia e
o fato em seus graus respectivos de generalidade. O sistema
da escritura em geral no  exterior ao sistema da lngua em
geral, a no ser que se admita que a diviso entre o exterior
e o interior passe no interior do interior ou no exterior do
exterior, chegando a imanncia da lngua a ser essencialmente
exposta  interveno de foras aparentemente estranhas a
seu sistema. Pela mesma razo a escritura em geral no 
"imagem" ou "figurao" da lngua em geral, a no ser que
se reconsidere a natureza, a lgica e o funcionamento da ima-
gem no sistema de que se quereria exclu-la. A escritura no
 signo do signo, a no ser que o afirmemos, o que seria mais
profundamente verdadeiro, de todo signo. Se todo signo
remete a um signo, e se "signo de signo" significa escritura
,
tornar-se-o inevitveis algumas concluses, que considerare-
mos no momento oportuno. O que Saussure via sem v-lo,
sabia sem poder lev-lo em conta, seguindo nisto toda a tra-
dio da metafsica,  que um certo modelo de escritura
imps-se necessria mas provisoriamente, (quase  infide-
lidade de princpio,  insuficincia de fato e  usurpao p~r-
mamente) como instrumento e tcnica de representao de
um sistem de lngua. E que este movimento, nico em seu
estilo, foi mesmo to profundo que permitiu pensar, na lngua,
LINGfSTICA E GRAMATOLOGIA
3
conceitos tais como os de signo, tcnica, representao, ln-
gua.  no sistema de lngua associado  escritura fontico-
-alfabtica que se produziu a metafsica logocntrica deter-
minando o sentido do ser como presena. Este logoce.ntrismo,
esta poca da plena fala sempre colocou entre parnteses,
suspendeu, reprimiu, por razes essenciais, toda reflexo livre
sobre a origem e o estatuto da escritura, toda cincia da
esclitura que no fosse tecnologia e histria cle uma tcnica
apoiadas numa mitologia e numa metafrica da escritura na-
tural.  este logocentrismo que, ao limitar atravs de uma
m abstrao o sistema interno de lngua em geral, impede
a Saussure e  maior parte de seus sucessores' a determinao
plena e explcita do que tem como nome "o objeto integral e
concreto da lingstica" ( p. 16 ) .
Mas, inversamente, conforme anunciamos mais acima
,
 justamente quando no lida expressamente com a escritura,
justamente quando acreditou fechar o parntese relativo a
este problema, que Saussure libera o campo de uma gramato-
logia geral. Que no somente no mais seria excluda da
lingstica geral, como tambm domin-la-ia e nela a com-
preenderia. Ento percebe-se que o que havia sido dester-
rado, o errante proscrito da lingstica, nunca deixou de per-
seguir a linguagem como sua primeira e mais ntima possibi-
lidade. Ento, algo se escreve no discurso saussuriano, que
nunca foi dito e que no  seno a prpria escritura~ como
origem da linguagem. Ento, da usurpao e das armadilhas
condenadas no captulo VI,  esboada uma explicao pro-
funda mas indireta, que alterar at mesmo a forma da ques-
to a que ele respondeu muito precocemente.
O FORA ~ O DENTRO
A tese do arbitrrio do signo (to mal denominado, e
no s pelas razes que mesmo Saussure reconhecia 8) deve-
ria proibir a distino radical entre signo lingstico e signo
7. "A face signifiante da lfngua somente pode consistir em regras segundo
as quais  ordenada a face fnica do ato de fala." Troubetzki, Princfpios de
Jonologta, tr. fr. p. 2. E em Fonologia e lontica de Jakobson e Halle (pri-
meira parte de Fundamentals oJ language, recolhida e traduzida in Essais de
linguistique gnrale, p. 103) que a linha fonologista do projeto saussuriano se
encontra a que parece, mais sistemtica e rigorosamente defendida, especial-
mente aontra o ponto de vista "algbrico" de Hjelmslev.
8. P. 101. Para alm dos escrpulos formulados pelo prprio Saussure todo
um sistema de crticas intralingsticas pode ser oposto  tese do "arbitrrio do
signo". Cf. Jakobson "A procura da essncia da linguagem", in Lingstica e
Comunicao Ed. Cultrix e Martinet, A lingls~ica sincrnica, Ed. Tempo
Brasileiro. Mas estas crticas no ferem - e no o pretendem alis - a inteno
profunda de Saussure visando a descontinuidade e a imotivao prprias 
estrutura, se no a origem do signo.
GRAMATOLOGIA
54
grfico. Sem dvida, esta tese se refere somente, no interior
de uma relao pretensamente natural entre a voz e o sentido
em geral, entre a ordem dos significantes fnicos e o conte-
do dos significados ("o liame natural, o nico verdadeiro
o do som"),  Necessidade das relaes entre significantes
e significados determinados. Somente estas ltimas relaes
seriam regidas pelo arbitrrio. No interior da relao "na-
tural" entre os significantes fnicos e seus significados em
geral, a relao entre cada significante determinado e cada
significado determinado seria "arbitrria".
Ora, a partir do momento em que se considera a tota-
lidade dos signos determinados, falados e a f ortiori escritos,
como instituies imotivadas, dever-se-ia excluir toda relao
de subordinao natural, toda hierarquia natural entre sig-
nificantes ou ordens de significantes. Se "escritura" significa
inscrio e primeiramente instituio durvel de um signo
(e  este o nico ncleo irredutvel do conceito de escritura),
a escritura em geral abrange todo o campo dos signos lin-
gsticos. Neste campo pode aparecer a seguir uma certa
espcie de significantes institudos, "grficos" no sentido estri-
to e derivado desta palavra, regidos por uma certa relao
a outros significantes insti.tudos, portanto "escritos" mesmo
que sejam "fnicos". A idia mesma de instituio - logo,
do arbitrrio do signo -  impensvel antes da possibilidade
da escritura e fora de seu horizonte. Isto , simplesmente
fora do prprio horizonte, fora do mundo como espao de
inscrio, abertura para a emisso e distribuio espacial dos
signos, para o jogo regrado de suas diferenas, mesmo que
fossem "fnicas".
Continuemos por algum tempo a utilizar esta oposio
da natureza e da instituio, de physis e de nomos (que tam-
bm significa, no esqueamos, distribuio e diviso regida
precisamente pela lei) que uma meditao da escritura deve-
ria abalar uma vez que funciona em toda parte como bvia
particularmente no discurso da lingstica. Assim,  neces-
srio concluirmos que somente os signos ditos naturais, aque-
les que Hegel e Saussure chamam de "smbolos", escapam 
semiologia como gramatologia. Mas caem, a f ortiori, fora do
campo da lingstica como regio da semiologia geral. A
tese do arbitrrio do signo contesta, pois indiretamente, mas,
sem apelo, o propsito declarado de Saussure, quando ele
expulsa a escritura para as trevas exteriores da linguagem.
Esta tese justifica uma relao convencional entre o fonema
e o grafema (na escritura fontica, entre o fonema, signifi-
cante-significado, e o grafema, puro significante) mas probe,
LINGtSTICA E GRAMATOLOGIA 55
por isso mesmo, que este seja uma "imagem" daquele. Ora,
seria indispensvel para a excluso da escritura como "sis-
tema externo" que esta estampasse uma "imagem", uma "re-
presentao" ou uma "figurao", um reflexo exterior da
realidade da lngua.
Pouco importa, pelo menos aqui, que haja, de fato, uma
filiao ideogrfica do alfabeto, Esta importante questo 
muito debatida pelos historiadores da escritura, O que conta
aqui,  que na estrutura sincrnica e no princpio sistemtico
da escritura alfabtica - e fontica em geral - nenhuma
relao de representao "natural" esteja implicada, nenhuma
relao de semelhana ou de participao, nenhuma relao
"simblica" no sentido hegeliano-saussuriano, nenhuma re-
lao "iconogrfica" no sentido de Peirce.
Portanto, deve-se recusar, em nome do arbitrrio do
Signo, a definio saussuriana da escritura como "imagem"
- logo, como smbolo natural - da lngua. Sem pensar
que o fonema  o prprio inimaginvel, e que nenhuma visi-
bilidade a ele pode se assemelhar, basta considerar o que
diz Saussure da diferena entre o smbolo e o signo (p. 82)
para que no mais compreendamos como pode ao mesmo
tempo dizer que a escritura  "imagem" ou "figurao" da
lngua e, em outro lugar, definir a lngua e a escritura como
"dois sistemas distintos de signos" (p. 34). Pois, o prprio
do signo  no ser imagem. Atravs de um movimento que,
sabe-se, deu tanto a pensar a Freud na Traumdeutung*, Saus-
sure acumula desta forma os argumentos contraditrios para
conseguir a deciso satisfatria: a excluso da escritura. Na
verdade, mesmo na escritura dita fontica, o significante
"grfico" remete ao fonema atravs de uma rede com vrias
dimenses que o liga, como todo significante, a outros signi-
ficantes escritos e orais, no interior de um sistema "total",
ou seja, aberto a todas as cargas de sentidos possveis.  da
possibilidade deste sistema total que  preciso partir.
Portanto, Saussure nunca pde pensar que a escritura
fosse verdadeiramente uma "imagem", urna "figurao", uma
"representao" da lngua falada, um smbolo Se conside-
rarmos que ele precisou, contudo, destas noes inadequadas
para decretar a exterioridade da escritura, devemos concluir
que todo um estrato de seu discurso, a )nteno do captulo
VI ("Representao da lngua pela escritura") no era em
nada cientfica. Ao afirmar isto, no visamos, inicialmente, a
inteno ou a motivao de Ferdinand de Saussure, mas toda
" Referncia  obra de Freud. A Interpretao dos Sonhos. (~'. dos T.i
56 GRAMATOLOGIA
a tradio no-crtica de que aqui  ele o herdeiro. A que
zona do discurso pertence este funcionamento estranho da
argumentao, esta coerncia do desejo produzindo-se de mo-
do quase que onrico - mas, mais esclarecendo o sonho que
se deixando esclarecer por ele - atravs de uma lgica con-
traditria? Como se articula este funcionamento com o con-
junto do discurso terico atravs de toda a histria da cincia?
Ou melhor, como, a partir do interior, trabalha ele o prprio
conceito de cincia? Somente quando esta questo estiver
elaborada - se estiver algum dia -, quando se tiver deter-
minado fora de qualquer psicologia ( assim como de qualquer
cincia do homem), fora da metafsica (que hoje pode ser
"marxista" ou "estruturalista"), os conceitos requeridos por
este funcionamento, quando se for capaz de respeitar todos
os seus nveis de generalidade e de enquadramento, somente
ento poder ser colocado rigorosamente o problema da per-
tencena articulada de um texto (terico ou qualquer outro)
a um conjunto: aqui, por exemplo, a situao do texto saus-
suriano, de que por enquanto no tratamos,  evidente, como
um ndice muito claro numa situao dada, sem ainda pre-
tender colocar os conceitos requeridos pelo funcionamento
de que acabamos de falar. Nossa justificativa seria a seguinte:
este ndice e alguns outros (de modo geral, o tratamento do
conceito de escritura) j nos do o meio seguro para encetar
a desconstruo da totalidade maior - o conceito de episteme
e a metafsica logocntrica - em que se produziram sem
jamais colocar a questo radical da escritura, todos os m-
todos ocidentais de anlise, de explicao, de leitura ou de
interpretao.
 preciso agora pensar a escritura como ao mesmo tem-
po mais exterior  fala, no sendo sua "imagem" ou seu
"smbolo" e, mais interior  fala que j  em si mesma uma
escritura. Antes mesmo de ser ligado  inciso,  gravura,
ao desenho ou  letra, a um significante remQtendo, em geral,
a um significante por ele significado, o conceito de grafia
implica, como a possibilidade comum a todos os sistemas de
significao, a instncia do rastro institudo. Daqui para
frente nosso esforo visar arrancar lentamente estes dois
conceitos ao discurso clssico de que necessariamente so
emprestados. Este esforo ser trabalhoso e sabemos a priori
que sua eficcia nunca ser pura e absoluta.
O rastro institudo  "imotivado" mas no  caprichoso.
Como a palavra "arbitrrio", segundo Saussure, ele "no deve
dar a idia de que o significante dependa da livre escolha do
que fala" (p. 83). Simplesmente, no tem nenhuma "amar-
LINGISTICA E GRAMATOLOGIA
ra natural" com o sgnificado na realidade. A ruptura desta
"amarra natural" vem-nos recolocar em questo muito mais
a idia de naturalidade que a de amarra. ~ por isso que a
palavra "instituio" no deve ser apressadamente interpre-
tada no sistema das oposies clssicas.
No se pode pensar o rastro institudo sem pensar a
reteno da diferena numa estrutura de remessa onde a di-
ferena aparece como tal e permite desta forma uma certa
liberdade de variao entre os termos plenos. A ausncia de
um outro aqui-agora, de um outro presente transcendental,
de uma outra origem do mundo manifestando-se como tal,
apresentando-se como ausncia irredutvel na presena do
rastro, no  uma frmula metafsica que substituda por um
conceito cientfico da escritura. Esta frmula, mais que a
contestao da metafsica, descreve a estrutura implicada pelo
"arbitrrio do signo", desde que se pense a sua possibilidade
aqum da oposio derivada entre natureza e conveno, sm-
bolo e signo, etc. Estas oposies somente tm sentido a
partir da possibilidade do rastro. A "imotivao" do signo
requer uma sntese em que o totalmente outro anuncia-se
como tal - sem nenhuma simplicidade, nenhuma identidade,
nenhuma semelhana ou continuidade - no que no  ele.
Anuncia-se como tal: a est toda a histria, desde o que a
metafsica determinou como o "no-vivo" at a "conscincia"
passando por todos os nveis da organizao animal. O ras-
tro, onde se imprime a relao ao outro, articula sua possibi-
lidade sobre todo o campo do ente, que a metafsica deter-
minou como ente-presente a partir do movimento escondido
do rastro.  preciso pensar o rastro antes do ente. Mas o
movimento do rastro  necessariamente ocultado, produz-se
como ocultao de si. Quando o outro anuncia-se como tal,
apresenta-se na dissimulao de si. Esta formulao no 
teolgica, como se poderia crer com alguma precipitao.
O "teolgico"  um momento determinado no movimento
total do rastro. O campo do ente, antes de ser determinado
como campo de presena, estrutura-se conforme as diversas
possibilidades - genticas e estruturais - do rastro. A apre-
sentao do outro como tal, isto , a dissimulao de seu
"como-tal", comeou desde sempre e nenhuma estrutura do
ente dela escapa.
 por isso que o movimento da "imotivao" passa de
uma estrutura a outra quando o "signo" atravessa a etapa
do "smbolo".  num certo sentido e segundo uma certa
estrutura determinada do "como-tal" que somos autorizados a
$g GRAMATOLOGIA
dizer que ainda no h imotivao no que Saussure chama
de "smbolo" e quc no interessa - pelo menos provisoria-
mente, diz ele -  semiologia. A estrutura geral do rastro
imotivado faz comunicar na mesma possibilidade e sem que
possamos separ-los a no ser por abstrao, a estrutura da
relao com o outro, o movimento da temporalizao e a
linguagem como escritura. Sem remeter a uma "natureza",
a imotivao do rastro sempre veio-a-ser. Para dizer a ver-
dade, no existe rastro imotivado: o rastro  indefinidamente
seu prprio vir-a-ser-imotivado. Em linguagem saussuriana,
seria necessrio dizer, o que Saussure no faz: no h sm-
bolo e signo e sim um vir-a-ser-signo do smbolo.
Assim, no seria preciso diz-lo, o rastro de que fala-
mos no  mais natural (no  a marca, o signo natural, ou
o ndice no sentido husserliano) que cultural, no mais fsico
que psquico, biolgico que espiritual.  aquilo a partir do
qual um vir-a-ser-imotivado do signo  possvel e com ele,
todas as oposies ulteriores entre a physis e seu outro.
Em seu projeto de semitica. Peirce parece ter estado
mais atento que Saussure  irreduribilidade deste vir-a-ser-
-imotivado. Em sua terminologia,  de um vir-a-ser-imotivado
que  necessrio falar, a noo de smbolo tendo aqui um
papel anlogo quele do signo que Saussure ope precisa-
mente ao smbolo:
"Symbols grow. They come into being by development out of
other signs, particulary from icons, or from mixed signs partaking
of the nature of icons and symbols. We think only in signs. These
mental signs are of mixed nature; the symbols parts of them are
called concepts. If a man mankes a new symbol, it is by thoughts
involving concepts. So it is only out of symbols that a new symbol
can grow. Omne symbolum de symbolo9.*
Peirce faz justia a duas exigncias aparentemente in-
compatveis. A falha aqui seria sacrificar uma pela outra.
~ preciso reconhecer o enraizamento do simblico (no sen-
tido de Peiree: do "arbitrrio do signo") no no-simblico,
numa ordem de significao anterior e ligada: "Symbols grow.
They come into being by development out of other signs,
particularly from icons, or from mixed signs . . . " Mas este
enraizamento no deve comprometer a originalidade estru-
9. Elements oJ Lagic, Iiv. II, P. 302.
' "Smbolos crescem. Passam a ser, brotando de outros signos, particular-
mente de icones ou de signos mistos que partilham da natureza de fcones ou
smbolos. Pensamos somente em signos. Estes signos mentais so de
natureza
mista; as suas partes-smbolos so denominadas conceitos. Se um homem pro-
duz um novo smbolo,  atravEs de pensamentos envolvendo conceitos. Portanto,
 s  a partir de smbolos que um novo smbolo pode surgir. Omne sy,mbolum.
de symbolo." (N. dos T.)
LINGufSTICA E GRAMATOLOGIA
59
tural do campo simblico, a autonomia de um domnio, de
uma produo e de um jogo: "So it is only out of symbols
that a new symbol can grow. Omne symbolum de symbolo".
Mas nos dois casos o enraizamento gentico remete de
signa a signo. Nenhum solo de no-significao - entendido
como insignificncia ou como intuio de uma verdade pre-
sente - estende-se, para firm-lo, sob o jogo e o devir dos
signos. A semitica no depende mais de uma lgica. A
lgica, segundo Peirce, no  seno uma semitica: "A lgica,
em seu sentido geral, no , conforme creio ter mostrado,
seno um outro nome para a semitica (o~~p.~c,a~s~Xr~), a
doutrina quase necessria, ou formal dos signos". E a lgica
no sentido clssico, a lgica "propriamente dita", a lgica
no-formal dirigida pelo valor de verdade, no ocupa nesta
semitica mais que um nvel determinado e no fundamental.
Como em Husserl (mas a analogia, apesar de dar muito que
pensar, pararia por a e cumpre manipul-la prudentemente ) ,
o nvel mais baixo, a fundao de possibilidade da lgica (ou
semitica) corresponde ao projeto da Grammatica speculativa
de Thomas d'Erfurt, abusivamente atribuda a Duns Scot.
Como Husserl, Peirce a isto se refere expressamente. Trata-se
de elaborar, nos dois casos, uma doutrina formal das condi-
es a que um discurso deve satisfazer para ter um sentido,
para "querer dizer", mesmo sendo falso ou contraditrio.
A morfologia geral deste querer dizer' (Bedeutung, meaning)
 independente de qualquer lgica da verdade.
"A cincia da semitica tem trs ramos. Duns Scot chamou ao
primeiro de grammatica speculativa. Poderamos cham-lo gram-
tica pura. Tem como tarefa determinar o que deve ser verda-
deiro do representamen utilizado por todo esprito cientfico para
que ele possa exprimir um sentido qualquer (any meaning). O
segundo  a lgica propriamente dita.  a cincia do que  quase
necessariamente verdadeiro dos representamina de qualquer inteli-
gncia cientfica para que ela possa ter um objeto qualquer, ou seja,
ser verdadeira. Em outras palavras, a lgica propriamente dita 
a cincia formal das condies da verdade das representaes. Ao
terceiro ramo, chamarei, imitando o modo de Kant ao restaurar
velhas associaes de palavras assim instituindo uma nomenclatura
para concepes novas, retrica pura. Tem como tarefa determinar
as leis segundo as quais, em toda inteligncia cientfica, um signo
gera um outro signo, e mais particularmente segundo as quais um
pensamento engendra um outro"11.
Peirce vai muito longe em direo ao que chamamos
mais acima a desconstruo do significado transcendental,
10. Ns justificamos esta traduo de Bedeuten por querer-dizer em La
voix et le Phnomne.
11. Philosophical wridnRs, cap. 7, p. 99.
GftAMATOLOGIA
60
que, num ou outro instante, daria um final tranqilizante 
remessa de signo a signo. Identificamos o logocentrismo e
a metafsica da presena como o desejo exigente, potente,
sistemtico e irreprimvel, de um tal significado. Ora, Peirce
considera a indefinidade da remessa como o critrio que per-
mite reconhecer que se lida efetivamente com um sstema
de signos. O que enceta o movimento da significao  o
que torna impossvel a sua interrupo. A prpria coisa 
um signo. Proposio inaceitvel para Hsserl cuja fenome-
nologia permanece, por isso - isto , em seu "princpio dos
princpios" - a restaurao mais radical e mais crtica da
metafsica da presena. A diferena entre a fenomenologia
de Husserl e a de Peirce  fundamental pos refere-se aos
conceitos de signo e de manifestao da presena, s relaes
entre a re-presentao e a apresentao originria da pr-
pria coisa ( a verdade ) . Peirce aqui, indubitavelmente, est
mais prximo do inventor da palavra fenomenologia: Lam-
bert propunha-se com efeito "reduzir a teoria das coisas 
teoria dos signos". Segundo a "faneroscopia" ou "fenome-
nologia" de Peirce, a manifestao ela mesma no revela
uma presena, ela faz signo. Pode-se ler nos Princpios da
fenomenologia que "a idia de manifestao  a idia de
um signo"1z. Portanto, no h uma fenomenalidade que re-
duza o signo ou o represente para enfim deixar a coisa sig-
nificada brilhar no claro de sua presena. A tal "prpria
coisa"  desde sempre um representamen subtrado  sim-
plicidade da evidncia intuitiva. O representamen funciona
somente suscitando um interpretante que torna-se ele mesmo
signo e assim ao infinito. A identidade a si do significado
~e esquiva e se desloca incessantemente. O prprio do re-
presentamen  ser si e um outro, de se produzir como uma
estrutura de remessa, de se distrair de si. O prprio do
representamen  no ser prprio, isto , absolutamente pr-
ximo de si (prope, proprius). Ora, o representado  desde
sempre um representamen. Definio de signo:
"Anything which determines something else (its interpretant)
to refer to an object to which itself refers (its object) in the same
way, the interpretant becoming in turn a sign, and so on ad infini-
tum . . . If the series of successive interpretants comes to an end, the
sign is thereby rendered imperfect, at least".1 i"
12. P. 93. Lembremos que Lambert opunha a fenomenologia  aleteologia.
13. Elements o) Logic, liv. It, p. 302.
"Qual9uer coisa que determina algo gue no e!a (o seu interpretantel
para referir-se a um objeto ao qual eta mesma se refere (o seu objeto) da
mesma forma, o interpretante tornando-se por sua vez am signo, e da par
diante ad infinitum... Se a srie de interpretantes sucessivos chega a um fim.
o signo torna-se ento, pelo menos, imperfeito." (N. dos T.)
LINGtSTIC A E GRAMATOLOGIA 61
Portanto, s h signv,s havendo sentido. We think only
in signs. O que vem arruinar a noo de signo no momento
mesmo em que, como em I~lietzsche, sua exigncia  reconhe-
cida no absoluto de s~u direito. Poderamos denominar jogo
a ausncia do significado transcendental como ilimitao do
jogo, isto , como abalamento da onto-teologia e da metafsica
da presena. No surpreende que a comoo deste abala-
mento, trabalhando a metafsica desde sua origem, deixe-se
charrlar como ral na poca em que, recusando-se a ligar a
lingstica  semntica (o que ainda fazem todos os lingis-
tas europeus, de Saussure a Hjelmslev), expulsando o proble-
ma do meanin~ para fala de suas pesquisas, alguns lingistas
americanos referem-se incessantemente ao modelo do jogo.
LINGOSTICA E GRAMATOLOGIA 6 1
Portanto, s h signos havendo sentido. We think only
in signs. O que vem arruinar a noo de signo no momento
mesmo em que, como em Nietzsche, sua exigncia  reconhe-
cida no absoluto de seu direito. Poderamos denominar jogo
a ausncia do significado transcendental como ilimitao do
jogo, isto , como abalamento da onto-teologia e da metafsica
da presena. No surpreende que a comoo deste abala-
mento, trabalhando a metafsica desde sua origem, deixe-se
chamar como tal na poca em que, recusando-se a ligar a
lingstica  semntica (o que ainda fazem todos os lingis-
tas europeus, de Saussure a Hjelmslev), expulsando o proble-
ma do meaning para fora de suas pesquisas, alguns lingistas
americanos referem-se incessantemente ao modelo do jogo.
Aqui, ser necessrio pensar que a escritura  o jogo na lin-
guagem. (O Fedro (277 e) condenava exatamente a escri-
tura como jogo - paidia - opunha esta criancice  sria e
adulta gravidade (spoud) da fala). Este jogo, pensado co-
mo a ausncia do significado transcendental, no  um jogo
no mundo, como sempre o definiu para o conter, a tradio
filosfica e como o pensam tambm os tericos do jogo (ou
aqueles que, .a seguir e alm de Bloomfield, remetem a se-
mntica  psicologia ou a alguma outra disciplina regional).
Para pensar radicalmente o jogo, , pois, preciso primeira-
mente esgotar seriamente a problemtica ontolgica e trans-
cendental, atravessar paciente e rigorosamente a questo do
sentido do ser, do ser do ente e da origem transcendntal
do mundo - da mundanidade do mundo - seguir efetiva-'
mente e at o fim o movimento crtico das questes hus-
serliana e heideggeriana, conservar-lhes sua eficcia e sua legi-
bilidade. Que seja sob rasura e sem o que os conceitos de
jogo e de escritura a que se ter recorrido permanecero
presos nos limites regionais e num discurso empirista, posi-
tivista ou metafsico. O alarde que os defensores de um tal
discurso oporiam ento  tradio pr-crtica e  especulao
metafsica no seria seno r representao mundana de sua
prpria operao.  pois o jogo do mundo que  preciso
pensar primeiramente: antes de tentar compreender todas as
formas de jogo no mundo'4.
Estamos pois, desde que entramos no jogo, no vir-a-ser-
-imotivado do smbolo. Em relao a este devir, a oposio
do diacrnico e do sincrnico tambm  derivada. Ela no
14.  bem evidentemente a Nictzsche que nos remetem mais uma vez estes
temas presentes no pensamento de Heidegger (cf. "La chose", 1950, traduo
francesa in Essais et conjrence.r, p. 214 e ss. Le principe de raison, 1955-1956,
traduo francesa, p, 240 e ss.), de Fink (Le jeu comme symbole du monde,
1960) e, na Frana, de K. Axelos (Vers la pense plan~aire, 1964 e
Einjhrurrg in ein knJriges Denken, 1966).
62 GRAMATOLOGIA
saberia dirigir com pertinncia uma gramatologia. A imoti-
vao do rastro deve agora ser entendida como uma opera-
o e no como um estado, como um movimento ativo, uma
desmotivao e no como uma estrutura dada. Cincia do
"arbitrrio do signo", cincia da imotivao do rastro, cincia
da escritura antes da fala e na fala, a gramatologia desta
forma abrangeria o mais vasto campo em cujo interior a
lingstica desenharia por abstrao seu espao prprio, com
os limites que Saussure prescreve a seu sistema interno e que
seria preciso reexaminar prudentemente em cada sistema
fala/escritura atravs do mundo e da histria.
Por uma substituio que no seria s verbal, dever-se-ia,
ento, substituir semiologia por gramatologia no programa do
Curso de lingstica geral.
"Cham-la-emos (gramatologia) ... Como tal cincia no exis-
te ainda, no se pode dizr o que ser; ela tem direito porm, 
existncia, seu lugar est determinado de antemo. A lingstica
no  seno uma parte desta cincia geral, as leis que a (gramatolo-
gia) descobrir sero aplicveis  lingstica" (p. 24).
O interesse desta substituio no ser somente dar 
teoria da escritura a envergadura necessria contra a repres-
so logocntrica e a subordinao  lingstica. Libertar o
projeto semiolgico mesmo daquilo que, apesar de sua maior
extenso terica, permanecia dirigido pela lingstica, orde-
nava-se com relao a ela como ao mesmo tempo seu centro
e seu telos. Embora a semiologia seja na verdade, mais geral
e mais compreensiva que a lingstica, ela continuava a re-
gular-se sobre o privilgio de uma de suas regies. O signo
lingstico permanecia exemplar para a semiologia, domi-
nava-a como signo-mestre e como o modelo gerador: o "pa-
dro" ("patro").
"Pode-se, pois, dizer, escreveu Saussure, que os signos inteira-
mente arbitrrios realizam melhor que os outros o ideal do procedi-
mento semiolgico; eis por que a lngua, o mais complexo e o mais
difuso dos sistemas de expresso,  tambm a mais caracterstica de
todos; nesse sentido a lingstica pode erigir-se em padro geral de
toda semilogia, se bem a lngua no seja seno um sistema particular"
(p. 52. O grifo  nosso).
Desta forma, ao reconsiderar a ordem de dependncia
prescrita por Saussure, invertendo aparentemente a relao
da parte, ao tdo, Barthes completa na verdade a mais pro-
funda inteno do Curso:
LINGtiSTICA E GRAMATOLOGIA 63
"Em suma,  necessrio admitir desde agora a possibilidade de
inverter algum dia a proposio de Saussure: a lingstica no 
uma parte, mesmo que privilegiada, da cincia geral dos signos,  a
semiologia que  uma parte da lingstica"15.
Essa inverso coerente, submetendo a semiologia a uma
"translingstica" leva uma lingstica historicamente domi-
nada pela metafsica logocntrica  sua plena explicitao,
para a qual, com efeito, no h nem deveria haver, "um sen-
tido seno nomeado" (ibidem). Dominada pela pretensa
"civilizao da escritura" que habitamos, civilizao da escri-
tura pretensamente fontica, isto , do logos onde o sentido do
ser, em seu telos, est determinado como parusia. Para des-
crever o fato e a vocao da significao na clausura desta
poca e desta civilizao em vias de desaparecimento na sua
prpria mundializao, a inverso barthesiana  fecunda e
indispensvel.
Agora, procuremos ir alm destas consideraes formais
e arquitetnicas. Perguntemo-nos, de forma mais interior e
mais concreta, em que a lngua no  somente uma espcie
de escritura, "comparvel  escritura" - curiosamente diz
Saussure (p. 24) - mas sim uma espcie da escritura. Ou
antes, uma vez que as relaes no so mais aqui de exten-
so e de fronteira, uma possibilidade fundamentada na pos-
sibilidade geral da escritura. Ao mostr-lo, ao mesmo tem-
po explicar-se-ia, a pretensa "usurpao" que no pde ser
um acidente infeliz. Ela, ao contrrio, supe uma raiz co-
mum e exclui por isso mesmo a semelhana da "imagem", a
derivao ou reflexo representativa. E se reconduziria assim,
ao seu verdadeiro sentido,  sua primeira possibilidade, 
analogia aparentemente inocente e didtica que faz com que
Saussure diga:
"A lngua  um sistema de signos exprimindo idias, e, compar-
vel, por isso,  escritura, ao alfabeto dos surdos-mudos, aos ritos sim-
blicos, s formas de polidez, aos sinais militares etc. Ela  apenas
o principal destes sistemas" (p. 24. O grifo  nosso).
Tambm no  por acaso que, noventa e duas pginas
mais adiante, ao explicar a diferena fnica como condio
do valor lingstico ("considerado em seu aspecto mate-
rial"'6) ele deve tomar ao exemplo da escritura todo seu re-
curso pedaggico:
15. Communications, 4, p. 2.
16. "Se a parte conceitual do valor  constituda unicamente por relaes e
diferenas com os outros termos da lngua., pode-se dizer o mesmo de sua
parte material. O que importa na palavra no  o som em si, mas as dife-
renas fnicas que permitem distinguir essa palavra de todas as outras, pois
64 GRAMAIOLOGIA
"Como se comprova existir idntico estado de coisas nesse outro
sistema de signos que  a escritura, ns o tomaremos como termo de
comparao para esclarecer toda esta questo" (p. 138).
Seguem quatro rubricas demonstrativas tomando todos
seus esquemas e todo seu contedo  escritural'.
Portanto,  a ele mesmo que, decididamente,  preciso
opor Saussure. Antes de ser ou de no ser "notado", "re-
presentado", "figurado" numa "grafia", o signo lingstico
implica uma escritura originria. Daqui para frente, no 
mais  tese do arbitrrio do signo a que apelaremos direta-
mente, mas sim quela que Ihe  associada por Saussure como
um correlato indispensvel e que nos parece fundament-la:
a tese da diferena como fonte de valor lingsticotR.
Quais so, do ponto de vista gramatolgico, as conse-
qncias deste tema agora to bem conhecido (e ao qual,
alm do mais, j Plato, no Sofista, consagrara algumas re-
flexes. . . )?
No sendo jamais a diferena, em si mesma e por defi-
nio, uma plenitude sensvel, sua Necessidade contradiz a
alegao de uma essncia naturalmente fnica da lngua. Con-
testa ao mesmo tempo a pretensa dependncia natural do
significante grfico. A est uma conseqncia a que chega
mesmo Saussure, contra as premissas definindo o sistema in-
terno da lngua. Ele deve agora excluir aquilo mesmo que
lhe permitira, no entanto, excluir a escritura: o som e seu
"liame natural" com o sentido. Por exemplo:
"O essencial da lngua, conforme veremos,  estranho ao carter
fnico do signo lingstico" (p. 14).
so elas que levam a significao ... nunca um fragmento de lngua poder
basear-se, em ltima anlise, noutra coisa que no seja sua no-coincidncia
com o resto" (p. 137).
17. "Como se comprova existir idntico estado de coisas nesse outro sistema
de signos que  a escritura ns o tomaremos como termo de comparao para
esclarecer toda a questo. De fato:
1. os signos da escritura so arbitrrios; n^nhuma relao, por exemplo,
entre a letra r e o som que ela designa;
2. o valor das letras  puramente negativo e diferencial; assim, a mesma
pessoa pode escrever r com as variantes tais como r fl~ t. A nica coisa essencial
 que este signo no se confunda em sua escritura com o de l, de d, etc;
3. os valores da escritura s funcionam pela sua oposio recproca dentro
de um sistema definido, composto de um nmero determinado de letras. Esce
carater, sem ser idntico ao segundo, est estreitamente ligado com ele, pois
ambos ciependem do pnmeiro. Como o signo grfico  arbitrrio, sua forma
importa pouco ou melhor s tem importncia dentro dos limites impostos pelo
sistema;
4. o meio de produo do signo  totalmente indiferente, pois no importa
ao sistema (isto decorre tambm da primeira caracterstica). Quer eu escreva
as letras em branco ou preto em baixo ou alto relevo, com uma pena ou um
cinzel, isto no tem importncia para sua significao" (p. 139).
18. "Arbitrrio e diferencial so duas qualidades correlativas" (p. 137~.
LINGtSTICA E GRAMATOLOGIA 65
E num pargrafo consagrado  diferena:
"Ademais  impossvel que o som, elemento material, pertena
por si  lngua. Ele no  para ela mais que uma coisa secundria,
matria que pe em jogo, Todos os valores convencionais apresentam
esse carter de no se confundir com o elemento tangvel que lhe
serve de suporte. . . "Em sua essncia, ele/o significante lingstico/
este no  de modo algum fnico, ele  incorpreo, constitudo, no
por sua substncia material, mas somente pelas diferenas que se-
param sua imagem acstica de todas as outras" (pp. 137-138).
"O que haja de idia ou de matria fnica num signo importa
menos do que o que existe ao redor deles nos outros signos'' (p. 139).
Sem esta reduo da matria fnica, a distino, decisiva
para Saussure, entre lngua e fala, no teria nenhum rigor.
O mesmo se daria para as oposies desta decorrentes, entre
cdigo e mensagem, esquema e uso, etc. Concluso: "A
fonologia - cumpre repetir - no passa de disciplina auxi-
liar [da cincia da lngua] e s se refere  fala" (p. 43).
A fala, portanto, se extrai deste fundo de escritura, notada ou
no, que  a lngua, e  aqui que se deve meditar a coni-
vncia entre as duas "fixidades". A reduo da phon revela
esta conivncia. O que Saussure afirma, por exemplo, do
signo em geral e que "confirma" pela escritura, vale tambm
para a lngua: "A continuidade do signo no tempo, ligada
 alterao no tempo,  um princpio da semiologia geral; sua
confirmao se encontra nos sistemas de escritura, a lingua-
gem dos surdos-mudos, etc." (p. 91).
Portanto, a reduo da substncia fnica no permite
somente distinguir entre a fontica de um lado (e a fortiori
a acstica ou a fisiologia dos rgos fonadores) e a fonolo-
gia de outro. Faz tambm da prpria fonologia uma "disci-
plina auxiliar". Aqui a direo indicada por Saussure conduz
para alm do fonologismo dos que se declaram seus seguido-
res neste ponto: Jakobson julga verdadeiramente impossvel
e ilegtima a indiferena para com a substncia fnica da ex-
presso. Ele critica desta forma a glossemtica de Hjelmslev
que requer e pratica a neutralizao da substncia sonora. E
no texto citado mais acima, Jakobson e Halle defendem que
a "exigncia terica" de uma pesquisa dos invariantes colo-
cando entre parnteses a substncia sonora (como um con-
tedo emprico e contingente) :
1. impraticvel uma vez que, conforme "nota Eli Fs-
cher-Jorgensen", "leva-se em conta a substncia sonora. em
cada etapa da anlise". Mas,  isto "uma preocupante con-
tradio" conforme querem Jakobson e Halle? No se pode
lev-la em conta como um fato servindo de exemplo, como
66 GRAMAtOLOGIA
fazem os fenomenlogos, que sempre necessitam, conservan
do-o presente .sob suas vistas, de um contedo emprico exem
plar na leitura de uma essncia que  de direito indepen
dente?
2. inadmissvel de direito uma vez que no se pode
considerar que "na linguagem, a forma se ope  substnci~a
como uma constante a uma varivel". ~ durante esta segunda
da demonstrao que frmulas literalmente saussurianas rea
parecem com referncia s relaes entre fala e escritura; a
ordem da escritura  a ordem da exterioridade, do "ocasio
nal", do "acessrio", do "auxiliar", do "parasitrio" (p
116-117. O grifo  nosso). A argumentao de Jakobsol
e de Halle recorre  gnese factual e invoca a secundariedadc
da escritura no sentido corrente: "Somente depois de domi.
nar a linguagem falada aprende-se a ler e a escrever". Su
pondo-se que esta proposio do senso comum esteja rigo
rosamente provada, o que no acreditamos (cada um de seus
conceitos trazendo consigo um problema imenso), ainda seria
necessrio assegurar-se da sua pertinncia na argumentao,
Mesmo que o "depois" fosse aqui uma reprPsentao fcil.
que se soubesse bem aquilo que se pensa e diz ao assegural
que se aprende a escrever depois de ter aprendido a falar

seria suficiente isto para concluir pelo carter parasitrio da-
quilo que desta forma vem "depois"? E o que  um parasita?
E se a escritura fosse precisamente o que nos obriga a recon-
siderar nossa lgica do parasita?
Num outro momento da crtica, Jakobson e Halle lem-
bram a imperfeio da representao grfica; esta imper-
feio apia-se nas "estruturas fundamentalmente disseme-
lhantes das letras e dos fonemas":
"As letras nunca reproduzem completamente os diferentes tra-
os distintivos nos quais repousa o sistema fonemtico, e negligenciam
infalivelmente as relaes estruturais entre estes traos'' (p. 116).
Sugerimos mais acima: a divergncia radical entre os
dois elementos - grfico e fnico - no exclui a derivao?
A inadequao da representao grfica no diz respeito so-
mente  escritura alfabtica comum,  qual o formalismo
glossemtico no se refere essencialmente? Por fim, se se
aceita toda argumentao fonologista, assim apresentada, 
preciso ainda reconhecer que ela ope um conceito "cient-
fico" da fala a um conceito vulgar da escritura. O que de-
sejaramos mostrar  que no se pode excluir a escritura da
experincia geral das "relaes estruturais entre os traos".
LINGUfSTICA e GRAMATOLOGIA
67
O que vem, bem entendido, a re-formar o conceito da escri-
tura.
Enfim, se a anlise jakobsoniana neste ponto  fiel a
Saussure, no o  ela sobretudo ao Saussure do captulo VI?
At que ponto Saussure teria defendido a inseparabilidade da
matria e da forma que permanece como o argumento mais
importante de Jakobson e Halle (p. 117)? Poder-se-ia re-
petir esta questo a propsito da posio de A. Martinet
que, neste debate, segue ao p da letra o captulo VI do
Curso I9. E, somente o captulo VI, de que A. Martinet disso-
cia expressamente a doutrina da que, no Curso, apaga o
privilgio da substncia fnica. Depois de explicar por que
"uma lngua morta com ideografia perfeita" ou seja, uma
comunicao passando pelo sistema -de uma escritura genera-
lizada "no poderia ter nenhuma autonomia real", e por que
todavia "um tal sistema seria algo de to particular que se
pode muito bem compreender que os lingistas desejem ex-
clu-lo do domnio de sua cincia" (A lingstica sincr-
nica *, p. 18. O grifo  nosso), A. Martinet critica os que,
seguindo um certo Saussure, questionam o carter essencial-
mente fnico do signo lingstico:
"Muitos sero tentados a dar razo a Saussure que enuncia que
`o essencial da lngua...  estranho ao carter fnico do signo
lingstico' e vo alm do ensinamento do mestre ao declarar que
o signo lingstico no tem necessariamente este carter fnico".
19. Esta fidelidade literal se exprime:
1. na exposio crftica da tentativa de Hjelmslev (Au sujet des Jondemenrs
de Ia :harte lingulsrtque de L. Hjelmslev in Bullerin de la Societ de Linguisri-
que de Paris, t. 42, p. 40): "Hjelmslev  perfeitamente lgico consigo mesmo
quando declara que um texto escrito tem para o lingista exatamente o mesmo
valor que um texto falado, pois a escolha da substncia no importa. Recusa-se
mesmo a admitir que a substncia falada seja primitiva e a substncia escrita
derivada. Parece que seria suficiente fazer-Ihe notar que, com alBumas exce-
es patolgicas, todos os homens falam, mas poucos sabem escrever, ou ainda,
que as crianas sabem falar muito antes de aprenderem a escritura.
Portanto,
no insisriremos" (O grifo  nosso).
2. nos Elemenr.e de linRul.srtque Rnrale em que todo o captulo sobre
o carter vocal da linguagem retoma os argumentos e as palavras do Captulo
VI do Curso; "Aprende-se a falar antes de aprender a ler: a leitur'a vem dobrar
a fala, nunca o inverso (O grifo  nosso. Esta proposio nos partce total-
mente contestvel, e j ao nvel da experincia comum que tem nesta argumen-
tao fora de lei). A. Martinet conclui: "O estudo da escritura representa
uma disciplina distinta da lingstica, embora, praticamente, uma de suas anexas.
A lingstica faz, pois, abstrao dos fatos de grafia" (p. I1). V-se como
funcionam estes conceitos de anexo e de abstrao; a escritura e sua cincia
so estranhas mas no independentes, o que no as impede de serem inversa-
mente, imanentes mas no essenciais. Apenas o bastante ")ora" para no afetar
a integridade da lfngua mesma, na sua pura e original identidade a si, em sua
propriedade; apenas o bastante "dentro" para no ter direito a nenhuma inde-
pendencia pratiCa ou epistemolgica. E reciprocamente.
3. em Lr mor (j citado.: "E do enunciado oral qce sempre  preciso
partir para compreender a natureza real da linguagem humana" (p. 53).
4. enfim, e sobretudo, em A dupla arttculao da linguagem, in A Itngs-
rlco slncr8nlca.
 H traduo brasileira: A Lingstica SIncnca, traduo de Lilian
Arantes, Rio, Ed. Tempo Brasileiro, 1971. (N. dos T. )
GRAMATOLOGIA
Neste ponto preciso no se trata de "ir alm" do ensi-
namento do mestre, mas de segui-lo e prolong-lo. No fa-
z-lo no seria agarrar-se ao que, no captulo VI, limita
maciamente a pesquisa formal ou estrutural e contradiz as
aquisies mais incontestveis da doutrina saussuriana? Para
evitar ultrapassar no se corre o risco de voltar aqum?
Acreditamos que a escritura generalizada no  somente
a idia de um sistema por inventar, de uma caracterstica
hipottica ou de uma possibilidade futura. Pensamos, pelo
contrrio, que a lngua oral pertence j a esta escritura. Mas
isto supe uma modificao do conceito de escritura que,
por enquanto, somente antecipamos. Supondo-se mesmo que
no se d este conceito modificado, supondo-se que se consi-
dere um sistema de escritura pura como uma hiptese de
futuro ou como uma hiptese de trabalho, deve um lingis-
ta recusar diante desta hiptese os meios de pens-la e de
integrar a sua formulao em seu discurso terico? O fato
de que a maior parte o recuse cria um direito terico? 
o que parece pensar A. Martinet. Depois de elaborar uma
hiptese de linguagem puramente "datilolgica", escreve:
"Deve-se reconhecer que o paralelismo entre esta `datilologia'
e a fonologia  completa tanto em matria sincrnica quanto dia-
crnica, e que se podia utilizar para a primeira a terminologia usual
para a segunda, a nn ser, bem entendido, quando os termos com-
portem uma referncia  substncia fnica. ~ claro que se no
desejamos excluir do domnio lingstico os sistemas do tipo destQ
que acabamos de imaginar,  muito importante modificar a termi-
nologia tradicional relativa  articulao dos significantes de modo
a dela eliminar toda referncia  substncia fnica como faz Luis
Hjelmslev quando emprega `cenema' e `cenemtica' em lugar de
`fonema' e `fonologia'. Todavia, compreender-se- que a maior
parte dos lingistas hesitem em modificar inteiramente o edifcio
terminolgico tradicional pela nica vantagem terica de poder in-
cluir no domnio de sua cincia os sistemas puramente hipottico,s.
Para que consintam considerar uma tal revoluo, seria necessrio
convenc-los que, nos sistemas lingsticos confirmados, no h ne-
nhum interesse para eles em considerar a substncia fnica das uni-
dades de expresso como lhes interessando diretamente" (pp. 20-21.
O grifo  nosso).
Mais uma vez, no duvidamos do valor destes argumen-
tos fonologistas cujos pressupostos tentamos, mais acima, fa-
zer aparecer. Uma vez assumidos estes pressupostos, seria
absurdo reintroduzir, por confuso, a escritura derivada no
campo da linguagem oral e no interior do sistema desta deri-
vao. Sem escapar ao etnocentrismo, embaralhar-se-iam,
ento, todas as fronteiras mo interior de sua esfera de legiti-
midade. No se trata pois de aqui reabilitar a escritura no
LINGtifSTICA E GRAMATOLOGIA 68
sentido estrito, nem de inverter a ordem de dependncia
quando evidente. O fonologismo no sofre nenhuma objeo
enquanto se conservam os conceitos correntes de fala e de
escritura que formam o tecido slido de sua argumentao.
Conceitos correntes, cotidianos e, alm do mais, o que no
 contraditrio, habitados por uma velha histria, limitados
por fronteiras pouco visveis, mas tanto mais rigorosas.
Desejaramos, antes, sugerir que a pretensa derivao da
escritura, por mais real e slida que seja, s fora possvel
sob uma condio: que a linguagem "original", "natural" etc..
nunca tivesse existido, nunca tivesse sido intacta, intocada
pela escritura, que sempre tivesse sido ela mesma uma escri-
tura. Arquiescritura cuja Necessidade aqui queremos indicar
e cujo novo conceito pretendemos desenhar; e que continua-
mos a denominar escritura somente porque ela se comunica
essencialmente com o conceito vulgar da escritura. Este, s
pde, historicamente, impor-se pela dissimulao da arquies-
critura, pelo desejo de uma fala expelindo seu outro e seu
duplo e trabalhando para reduzir sua diferena. Se persis-
timos nomeando escritura esta diferena,  porque, no tra-
balho de represso histrica, a escritura era, situacionalmente,
destinada a significar o mais temvel da diferena. Ela era
aquilo que, mais de perto, ameaava o desejo da fala viva,
daquilo que do dentro e desde seu comeo, encetava-a. E
a diferena, ns o experimentaremos progressivamente, no
 pensada sem o rastro.
Esta arquiescritura, embora seu conceito seja requerido
pelos temas do "arbitrrio do signo" e da diferena, no
pode, nunca poder ser reconhecida como objeto de uma
cincia. Ela  aquilo mesmo que no se pode deixar reduzir
 forma da presena. Ora, esta comanda toda objetividade
do objeto e toda, relao de saber. Da, o que seramos ten-
tados a considerar na seqncia do Curso como um "pro-
gresso" retroabalando as posies no-crticas do captulo
VI, nunca d lugar a um novo conceito "cientfico" da escri-
tura.
Pode-se afirmar o mesmo do algebrismo de Hjelmslev
que, no h dvida, extraiu as conseqncias mais rigorosas
deste progresso?
Os Princpios de gramtica geral ( 1928 ) dissoiavam na
doutrina do Curso o princpio fonologista e o princpio da
diferena. Eles extraam um conceito de forma que permitia
distinguir entre a diferena formal e a diferena fnica e isto
no interior mesmo da lngua "falada" (p. 117). A gram-
tica  independente da semntica e da fonologia (p. 118).
GRAMATOLOGIA
Esta independncia  o prprio princpio da glossemtica
como cinca formal da lngua. Sua formaldade supe que
"no h nehuma conexo necessria entre os sons e a lingua-
gem"~. Esta formalidade  ela mesma a condio de uma
anlse puramente funcional. A idia de funo lingstica e
de unidade puramente lingstica - o glossema - no
exclui, portanto, somente a considerao da substncia de ex-
presso (substncia material) mas tambm da substncia de
contedo (substncia imaterial). "Uma vez que a lngua 
uma forma e no uma substncia (F. de Saussure), os glosse-
mas so, por definio, ndependentes da substncia, ima-
terial (semntica, psicolgica e lgica) e material (fnica,
grfica ete. ) "2'. O estudo do funcionamento da lngua, de seu
jogo, supe que se coloque entr~ parnteses a substncia do
sentido e,. entre outras substncias possveis, a do som. A
unidade do som e do sentido  exatamente aqui, conforme
propnhamos mais acima, o fechamento tranqilizante do
jogo. Hjelmslev situa seu conceito de esquema ou jogo da
lngua, na descendncia de Saussure, de seu formalismo e de
sua teoria do valor. Embora prefira comparar o valor lin-
gstico ao "valor de troca das cincias econmicas" mais
que ao "valor puramente lgico-matemtico", determina um
limite a esta analogia:
"Um valor econmico 6 por definio um valor de dupla face:
no s tem o papel de constante frente s unidades concretas do
dinheiro como tem tambm ela mesma o papel das variveis frente
a uma quantidade fixada da mercadoria que lhe serve de padro.
Em lingstica, ao contrrio, no h nada que corresponda ao padro.
Da que o xadrez e no o fato econmico permanea para F. de
Saussure a mais fiel imagem de uma gramtica. O esquema da lngua
, em ltima anlise um jogo e nada mais"22.
Nos Prolegmenos a uma teoria da linguagem ( 1943 ) ,
fazendo agir a oposio expresso/contedo que substitui a
diferena significante/significado, podendo cada um destes
termos serem considerados segundo os pontos de vista da
forma ou da substncia, Hjelmslev critica a idia de uma lin-
guagem naturalmente ligada  substncia de expresso fnca.
 sem razo que at aqui se "sups que a substncia-de-
-expresso de uma linguagem falada deveria ser constituda
exclusivamente por sons".
20. On rHe Princlples oJ PAonematles, 1935, Proceedin8s oJ fhe Second In-
ternartonal Congress oj Phonetle Scienccs, p. 51.
21. L. Hjelmslev e H. J. Uldall Frudes de ltngulstlque srructurale organ!-
ses au sein du Cercle llngulsNque de CopenMage (Hulletln" 11, 35, pp. 13 e ss.).
22. "Lan&ue et parole" (1943) in Essais llngulsNques, p. 77.
LINGUitSTICA E GRAMATOLOGIA 1
"Desta forma, como particularmente fizeram notar E. e K.
Zwirner, no se levou em conta o fato de que o discurso  acom-
panhado, de que certos componentes do discurso podem ser substi-
tudos pelo gesto e que em realidade, como o afirmam E. e K. Zwirner,
no so somente os pretensos rgos da fala (garganta, boca e nariz)
que participam da atividade da linguagem `natural', mas quase todo
conjunto dos msculos estriados. Alm do mais,  possvel substituir
a substncia habitual de gestos-e-sons por qualquer outra substncia
apropriada em outras circunstncias exteriores. Assim a mesma forma
lingstica pode tambm ser manifestada na escritura, como se d
na notao fontica ou fonemtica e nas ortografias ditas fonticas,
como por exemplo o dinamarqus. Eis uma substncia `grfica' que
se dirige exclusivamente ao olho e que no exige ser transposta em
substncia' fontica para ser aprendida ou compreendida. E esta
`substncia' grfica pode ser, precisamente do ponto de vista da subs-
tncia, de diferentes espcies"z;.
Recusando pressupor uma "derivao" das substncias a
partir da substncia de expresso fnica, Hjelmslev remete
este problema para fora do campo da anlise estrutural e pro-
priamente lingstica:
"Alm do mais, nunca se sabe com certeza total o que  deri-
vado e o que no o ; no devemos esquecer que a descoberta da
escritura alfabtica est escondida na pr-histria (B. Russel tem
toda razo ao chamar nossa ateno para o fato de que no temos
nenhum meio de decidir se a mais antiga forma de expresso hu-
mana  escritura ou fala), embora a afirmao de que ela repousa
sobre uma anlise fontica constitui somente uma das hipteses
diacrnicas; ela poderia da mesma forma repousar sobre uma anlise
formal da estrutura lingstica. Mas, de qualquer forma, conforme
o reconhece a lingstica moderna, as consideraes diacrnicas no
so pertinentes para a descrio sincrnica" (pp. 104-105).
Que esta crtica glossemtica seja operada ao mesmo
tempo graas a Saussure e contra ele; que, conforme suge-
ramos mais acima, o espao prprio de uma gramatologia
seja ao mesmo tempo aberto e fechado pelo Curso de lin-
gstica geral,  o que H. J. Uldall formula notavelmente.
Para mostrar que Saussure no desenvolveu "todas as conse-
qncias tericas de sua descoberta", escreve:
"Isto  tanto mais curioso quando consideramos que as suas
conseqncias prticas foram largamente extradas, foram extradas
23. Omkring sProgteoriens grundlaeggelse, pp. 91-93 (trad. ingl.: ProleRo-
mena to a theory oJ language, pp. 103-104).
Cf. tambm "La stratification du langage" (1954) in Essais linguistiques
(Travaux du cercle linguisfique de Copenhague, XII, 19S9). O projeto e a termi-
nologia de uma graJemJica, cincia da substnttcia de expresso grfica a so
prccisados (p. 41). A complexidade da lgebra proposta tem por objetivo re-
mediar o fato de que do ponto de vista da distino entrc forma e substncia
"a terminologia saussuriana pode-se prestar a confuso" (p. 48). Ajelmslev a
demonstra como "uma nica e mesma forma da expresso pode ser manifestada
por substncias diversas: f8nica, grfica, sinais com bandeiras, etc." (p. 49).
GRAMATOLOGIA
72
mesmo milhares de anos antes de Saussure, pois,  somente graas
ao conceito da diferena entre forma e substncia que podemos
explicar a possiblidade para a linguagem e a escritura, de existirem
ao mesmo tempo como expresses de uma nica e mesma linguagem.
Se uma destas duas substncias, o fluxo do ar ou o fluxo da tinta
(the stream of air or the stream of ink) fosse uma parte integrante
da prpria linguagem, no seria possvel passar de uma a outra sem
mudar a linguagem"z4.
Indubitavelmente a Escola de Copenhague libera, desta
forma, um campo de pesquisas: a ateno torna-se dispon-
vel no s para a pureza de uma forma desligada de qualquer
liame "natural" a uma substncia, mas tambm para tudo o
que, na estratificao da linguagem, depende da substncia
de expresso grfica. Uma descrio original e rigorosamente
delimitada pode assim ser prometida. Hjelmslev reconhece
que uma "anlise da escritura sem considerar o som ainda
no foi empreendida" (p. 105). Lamentando tambm que
"a substncia da tinta no tenha merecido, da parte dos
lingistas, a ateno que dedicaram  substncia do ar"
H. J. Uldall delimita esta problemtica e sublinha a inde-
pendncia mtua das substncias de expresso. Ilustra-o par-
ticularmente pelo fato de que, na ortografia, nenhum grafema
corresponde aos acentos da pronunciao (esta era para Rous-
seau a misria e a ameaa da escritura), e que, reciproca-
mente, na pronncia, nenhum fonema corresponde ao espa-
amento (spacing) entre as palavras escritas (pp. 13-14).
Ao reconhecer a especificidade da escritura, a glossem-
tica no se dava somente os meios de descrever o elemento
grfico. Ela designava o acesso ao elemento literrio, quilo
que na literatura passa por um texto irredutivelmente grfico,
atando o jogo da forma a uma substncia de expresso de-
terminada. Se existe na literatura algo que no se deixa
reduzir  voz, ao epos ou  poesia, s se pode recuper-lo
com a condio de isolar com rigor este liame do jogo da
forma e da substncia de expresso grfica. (Reconhecer-se-
ao mesmo tempo que a "pura literatura" assim respeitada no
que tem d.e irredutvel, trs tambm o risco de limitar o jogo,
a at-lo. O desejo de atar o jogo , alm do mais, irrepri-
mvel. ) Este interesse pela literatura manifestou-se efetiva-
24. "Speech and writing", 1938, in Acta linguisticn, IV, 1944, pp. 11 e ss.
Uldall remete tambm a um estudo do Dr. Joseph Vachek, "Zum Problem der
geschriebenen Sprache" (Tr'avaux du cercle tinguisfique de Prague, VIII, 1939)
para indicar "a diferena entr'e os pontos de vista fonolgico e glossemtico".
Cf. tambm Eli Fischsr-Jorgensen, "Remarques sur les principes de 1'analyse
phonmique", in Recherches SW ucturales, 1949 (Travaux du cercle linguistique
de Prague, vol. V, I~P 231 e ss.); B Siertsema, A study oj glossematics, 1955
(e principalmente o cap. VI), e Hennings Spang-Hanssen, "Glossematics", in
Trends in Eurapean and Amerkan linguistics, 1930-1960, 1%3, pp. 147 e ss.
LINGSTlCA ~ GRAMATOLOGIA
mente na Escola de Copenhague z5. Ele suprime assim a des-
confiana rousseausta e saussuriana em relao s artes lite-
rrias. Radicaliza o esforo dos formalistas russos, precisa-
mente do Opoiaz, que talvez privilegiasse, na sua ateno ao
ser-literrio da literatura, a instncia fonolgica e os modelos
literrios que ela domina. Principalmente a poesia. Aquilo
que, na histria da literatura e na estrutura de um texto lite-
rrio em geral, escapa a esta instncia, merece, portanto um
tipo de descrio cujas normas e condies de possibilidade
a glossemtica talvez tenha melhor extrado. Ela talvez
tenha-se preparado melhor para estudar desta forma o extrato
puramente grfico na estrutura do texto literrio e na histria
do vir-a-ser-literrio da literalidade, principalmente na sua
"modernidade".
Sem dvida, um novo domnio  desta forma aberto a
pesquisas inditas e fecundas. E, no entanto, no  este pa-
ralelismo ou esta paridade reencontrada das substncias de
expresso que nos interessa aqui acima de tudo. Vimos bem
que, caso a substncia fnica perdesse seu privilgio, no
seria em proveito da substncia grfica que se presta s mes-
mas substituies. No que ela pode ter de liberador e de
irrefutvel, a glossemtica opera ainda aqui com um conceito
corrente da escritura. Por mais original e por mais irredu-
tvel que seja, a "forma de expresso" ligada por correlao
 "substncia de expresso" grfica permanece muito deter-
minada.  muito dependente e muito derivada em relao
 arquiescritura de que falamos aqui. Esta agiria no s na
forma e suhstncia da expresso grfica, mas tambm nas da
expresso no-grfica. Constituiria no s o esquema unindo
a forma a toda substncia, grfica ou outra, mas o movimen-
to da sign-f unction ligando um contedo a uma expresso,
seja ela grfica ou no. Este tema no podia ter nenhum
lugar na sistemtica de Hjelmslev.
 que a arquiescritura, movimento da diferncia, arqui-
-sntese irredutvel abrindo ao mesmo tempo uma nica e
mesma possibilidade a temporalizao, a relao ao outro e
a linguagem, no pode, enquanto condio de todo sistema
lingstico, fazer parte do sistema lingstico ele-mesmo, ser
situado como um objeto em seu campo. (O que no quer
dizer que ela tenha um lugar real alhures, num outro stio
determinvel). Seu conceito no saberia enriquecer em nada
25. E j, de maneira bastante programtica nos Prolegomena (traduo
inglesa pp. 114-115). Cf. tambm Ad. Stender-Petersen, "esquisse d'une thorie
structurale. de la littrature"; e Svend Johansen, "La notion de signe dans la glos-
smatique et dans 1'esthtique", in Travaux du cercle linguiaNque de Copenhague,
vol. V, 1949.
GRAMATOLOGIA
74
a descrio cientfica, positiva e "imanente" (no sentido que
Hjelmslev d a esta palavra) do prprio sistema. Desta for-
ma, o fundador da glossemtica teria, no h dvida, contes-
tado a sua Necessidade, assim como rejeita, em bloco e
legitimamente, todas as teorias extralingsticas que no par-
tam da imanncia irredutvel do sistema lingstico~. Ele
teria visto nesta noo um destes apelos  experincia de
que uma teoria deve dispensar-se2'. Ele no teria compreen-
dido por que o nome de escritura permanecia neste X que
se torna to diferente do que sempre se denominou "escri-
tura".
J comeamos a justificar esta palavra, e antes de mais
nada, a necessidade desta comunicao entre o conceito de
arquiescritura e o conceito vulgar de escritura por ele sub-
metido  desconstruo. Continuaremos a faz-lo mais adian-
te. Quanto ao conceito de experincia, ele  aqui bastante
embaraoso. Como todas as noes de que aqui nos servi-
mos, ele pertence  histria da metafsica e ns s podemos
utiliz-lo sob rasura. "Experincia" sempre designou a rela-
o a uma presena, tenha ou no esta relao a forma da
conscincia. Devemos, todavia, de acordo com esta espcie
de contoro e de conteno  qual o discurso  aqui obri-
gado esgotar os recursos do conceito de experincia antes e
com o fim de alcan-la, por desconstruo, em sua ltima
profundeza.  a nica condio para escapar ao mesmo
tempo ao "empirismo" e s crticas "ingnuas" da experin-
cia. Assim, por exemplo, a experincia, da qual "a teoria,
diz Hjelmslev, deve ser independente" no  o todo da expe-
rincia. Corresponde sempre a um certo tipo de experincia
factual ou regional (histrica, psicolgica, fisiolgica, socio-
lgica etc.), dando lugar a uma cincia ela mesma regional e,
enquanto tal, rigorosamente exterior  lingstica. No se
d nada disso no caso da experincia como arquiescritura.
A colocao entre parnteses das regies da experincia ou
da totalidade da experincia natural deve descobrir um campo
de experincia transcendental. Esta s  acessvel na me-
dida em que, depois de ter extrado, como o fez Hjelmslev,
26. Omkring, p. 9, (trad. ingl. PTotegomena, p. 8).
27. P. 14. O que no impede Hjelmslev de "aventurar-se a denominar" seu
princpio diretor um "princpio emprico" (p. 12, traduo inglesa p. 11).
"Mas, acrescenta, estamos prontos a abandonar este nome se a investigao
epistemolgica mostrar que ele  imprprio. De nosso ponto de vista,  uma
simples questo de terminologia que no afeta a manuteno do princpio."
A no est seno um exemplo do convencionalismo terminolgico de um sistema
que, tomando de emprstico todos seus conceitos  histria da metafsica que
ele quer manter  distncia (forma/substncia, contedo/expresso etc.) acfe-
dita poder neutralizar toda a sua carga histrica por alguma declarao de
inteno, um prefcio ou aspas.
LINGfSTICA E GRAMATOLOGIA
75
a especificidade do sistema lingstico e colocado fora de jogo
todas as cincias extrnsecas e as especulaes metafsicas,
coloca-se a questo da origem transcendental do prprio sis-
tema, como sistema dos objetos de uma cincia, e, correlata-
mente, do sistema terico que o estuda: aqui, do sistema
objetivo e "dedutivo" que quer ser a glossemtica. Sem isto,
o progresso decisivo realizado por um formalismo respeitador
da originalidade de seu objeto, do "sistema imanente de seus
objetos",  espreitado pelo objetivismo cientista, isto , por
uma outra metafsica desapercebida ou inconfessada. Ao
que se reconhece freqentemente na Escola de Copenhague.
 para evitar recair neste objetivismo ingnuo que ns nos
referimos aqui a uma transcendentalidade que, em outro lugar,
colocamos em questo.  que h, acreditamos, um aqum e
um alm da crtica transcendental. Fazer de forma que o
alm no volte a aqum,  reconhecer na contoro a Ne-
cessidade de um percurso. Este percurso deve deixar no
texto um sulco. Sem este sulco, abandonado ao simples con-
tedo de suas concluses, o texto ultratranscendental parece-
r sempre a ponto de se confundir com o texto pr-crtico.
Ns devemos formar e meditar hoje a lei desta semelhana.
O que denominamos aqui rasura dos conceitos deve marcar
os lugares desta meditao por vir. Por exemplo, o valor
de arquia transcendental deve fazer sentir sua Necessidade
antes de ele mesmo se deixar rasurar. O conceito de arqui-
-rastro deve fazer justia tanto a esta Necessidade quanto
a esta rasura. Ele  com efeito, contraditrio e inadmissvel
na lgica da identidade. O rastro no  somente a desapari-
o da origem, ele quer dizer aqui - no discurso que pro-
ferimos  segundo o percurso que seguimos - que a origem
no desapareceu sequer, que ela jamais foi retroconstituda a
no ser por uma no-origem, o rastro, que se torna, assim,
a origem da origem. Desde ento, para arrancar o conceito
de rastro ao esquema clssico que o faria derivar de uma
presena ou de um no-rastro originrio e que dele faria uma
marca emprica,  mais do que necessrio falar de rastro
originrio ou de arqui-rastro. E, no entanto, sabemos que
este conceito destri seu nome e que, se tudo comea pelo
rastro acima de tudo no h rastro originrio28. Devemos
ento situar, como um simples momento do discurso, a redu-
o fenomenolgica e a referncia de estilo husserliano a uma
experincia transcendental. Na medida em que o conceito
28. Quanto a esta crtica do conceito de origem em geral (emprica e/ou
transcendental) tentamos em outro lugar indicar o esquema de uma argumenta-
Co (Introduo  L'origine de ln Gommie de Husserl, I%2, p. 60, traduo
francesa de G. Derrida)
GRAMATOLOGIA
76
de experincia em geral - e de experincia transcendental,
em Husserl, particularmente - permanece dirigido pelo tema
da presena, ele participa no movimento de reduo do rastro.
O Presente Vivo (lebendige Gegenwart)  a forma universal
e absoluta da experincia transcendental a que nos remete
Husserl. Nas descries do movimento da temporalizao
tudo o que no atormenta a simplicidade e a dominao desta
forma parece-nos assinalar a pertencena da fenomenologia
transcendental  metafsica. Mas isto deve compor com as
foras de ruptura. Na temporalizao originria e no movi-
mento da relao ao outro, como Husserl os descreve efeti-
vamente, a no-apresentao ou a des-apresentao  to
"originria" como a apresentao.  por isso que um pen-
samento do rastro no pode romper com uma fenomenologia
transcendental nem  ela se reduz~r. Aqui, como em outros
lugares, colocar o problema em termos de escolha, obrigar
ou se acreditar, inicialmente, obrigado a responder-lhe por
um sim ou um no, conceber a pertencena como uma sub-
misso ou a no-pertencena como um falar com franqueza,
 confundir alturas, caminhos e estilos bem diferentes. Na
desconstruo da arquia, no se procede a uma eleio.
Admitimos, pois, a necessidade de passar pelo conceito
de arqui-rastro. Como esta necessidade nos conduz desde
o dentro do sistema lingstico? Em que o caminho que vai
de Saussure a Hjelmslev nos probe contornar o rastro ori-
ginrio?
Em que sua passagem pela forma  uma passagem pela
imnrenso 'k. E o sentido da diferncia em geral nos seria
mais acessvel se a unidade desta dupla passagem nos apare-
cesse mais claramente.
Nos dois casos,  preciso partir da possibilidade de neu-
tralizar a substncia fnica.
De um lado, o elemento fnico, o termo, a plenitude
que se denomina sensvel, no apareceriam como tais sem a
diferena ou a oposio que lhes do jorma. Tal  o alcance
mais evidente do apelo  diferena como reduo da subs-
tncia fnica. Ora, aqui, o aparecer e o funcionamento da
diferena supem uma sntese originria que nenhuma sim-
plicidade absoluta precede. Tal seria, pois, o rastro origi-
nrio. Sem uma reteno na unidade minimal da experincia
temporal, sem um rastro retendo o outro como outro no mes-
mo, nenhuma diferena faria sua obra e nenhum sentido
 O termo francs empreinie tem o sentido de marca por sulcos em baixo-
-relevo, deixadas por um corpo que  pressionado sobre uma superfcie (imprcn-
sado). Ou seja, impresso deixada por uma prensa: imprenso. (N. dos 'f.l
LINGUifSTICA E GRAMATOLOGIA
apareceria. Portanto, no se trata aqui de uma diferena
constituda mas, antes de toda determinao de contedo, do
movimento puro que produz a diferena. O rastro (puro) 
a diferncia. Ela no depende de nenhuma plenitude sensvel,
 audvel ou visvel, fnica ou grfica. ~, ao contrrio, a con-
dio destas. Embora no exista, embora no seja nunca um
ente-presente fora de toda plenitude, sua possibilidade  an-
terior, de direito, a tudo que se denomina signo (significado/
significante, contedo/expresso, etc. ), conceito ou operao,
motriz ou sensvel. Esta diferncia, portanto, no  mais
sensvel que inteligvel, e ela permite a articulao dos signos
entre si na interior de uma mesma ordem abstrata - de um
texto fnico ou grfico por exemplo - ou entre duas ordens
 de expresso. Ela permite a articulao da fala e da escri-
 tura - no sentido corrente - assim como ela funda a opo-
sio metafsica entre o sensvel e o inteligvel, em seguida
entre significante e significado, expresso e contedo etc. Se
a lngua j no fosse, neste sentido, uma escritura, nenhuma
"notao" derivada seria possvel; e o problema clssico das
relaes entre fala e escritura no poderiam surgir. As cin-
cias positivas da significao, bem entendido, podem descre-
ver somente a obra e o fato da diferncia, as diferenas de-
terminadas e as presenas determinadas s quais elas do
lugar. No pode haver cincia da diferncia ela mesma em
sua operao, nem tampouco da origem da presena ela mes-
ma, isto , de uma certa no-origem.
A diferncia  portanto a formao da forma. Mas ela
, por outro lado, o ser impresso da imprenso. Sabe-se que
Saussure distingue entre a "imagem acstica" e o som obje-
tivo (p. 80). Ele assim se d o direito de "reduzir", no
sentido fenomenolgico da palavra, as cincias da acstica
e da fisiologia no momento em que institui a cincia da lin-
guagem. A imagem acstica,  a estrutura do aparecer do
som que no  nada menos que o som aparecendo.   ima-
gem acstica que ele denomina signif icante, reservando o no-
me de significado no  coisa, bem entendido (ela  reduzida
 pelo ato e pela prpria idealidade da linguagem), mas ao
"conceito", noo sem dvida infeliz aqui: digamos,  idea-
lidade do sentido. "Propomo-nos a conservar o termo signo
para designar o total, e substituir conceito e imagem acstica
respectivamente por significado e significante". A imagem
acstica  o entendido: no o som entendido mas o ser-en-
tendido do som. O ser-entendido  estruturalmente fenome-
nal e pertence a uma ordem radicalmente heterognea  do
8 GRAMATOLOGIA
som real no mundo *. No se pode recortar esta heterogenei-
dade sutil mas absolutamente decisiva, a no ser por uma
reduo fenomenolgica. Esta , portanto, indispensvel a
qualquer anlise do ser-entendido, seja ela inspirada por preo-
cupaes lingsticas, psicanalticas ou outras.
Qra, a "imagem acstica", o aparecer estruturado do som,
a "matria sensvel" vivida e informada pela diferncia, o que
Husserl denominaria a estrutura hyl/morph, distinta de to-
da realidade mundana, Saussure a nomeia "imagem psquica":
"Esta (a imagem acstica) no  o som material, coisa pura-
mente fsica, mas a imprenso psquica deste som, a repre-
sentao que dele nos d o testemunho de nossos sentidos;
tal imagem  sensorial, e se chegamos a cham-la "material"
 somente neste sentido e por oposio ao outro termo da
associao, o conceito, geralmente mais abstrato" (p. 80).
Embora a palavra "psquico" talvez no convenha - a no
ser que se tome, em relao a ela uma precauo fenomeno-
lgica - a originalidade de um certo lugar est bem marcada.
Antes de precis-lo notemos que no se trata aqui neces-
sariamente do que Jakobson e outros lingistas puderam cri-
ticar sob o ttulo de "ponto de vista mentalista":
"Segundo a mais antiga destas concepes, que remonta a Bau-
douin de Courtenay mas ainda no est morta, o fonema  um som
imaginado ou intencional que se ope ao som efetivamente emitido
como um fenmeno `psicofontico' ao fato `fisiofontico'.  o
equivalente psquico de um som interiorizado"~''.
Embora a noo de "imagem psquica" assim definida
(ou seja, seguindo uma psicologia pr-fenomenolgica da ima-
ginao) tenha de fato esta inspirao mentalista, poder-se-ia
defend-la contra a crtica de Jakobson sob condio de es-
' Ver nota 5, no captulo I da Primeira Part.
29. Op. cit., p. 111. Hjelmslev formula as mesmas rescrvas: "Coisa curiosa,
a lingstica, que se colocara em Ruarda por tanto tempo contra toda tinwrn
de `psicologismo', parece aqui, ainda que fosse numa certa medida e em
propores bem guardadas, estar de velta  'imagem acstica' de F. de Saussure
e igualmente ao `conceito', sob condio de interpretar esta Palavra em estrite
conformidade com a doutrina que acabamos de expor; enfim, reconhecer,
embora com as reservas necessrias, que dos dois lados do signo lingstico
se est em presena de um 'fenmeno inicialmente psquico' (Curso de
Lingustica geral
 p. 19). Mas isto  antes uma parcial coincidncia de nomenclatura
que uma analogia real. Os termos introduzidos Por F. de Saussure, e as
inter-
pretaes dadas no Curso, foram abandonadas porque se prestam a equvoco.
e convm no refazer os erros. Alm do mais, hesitamos de nossa parte.
diante da questo relativa a saber em que medida as pesquisas quc aqui Prc
conizamos podem ser consideradas como sendo de ordem psicolgica: a razo
 que a psicologia parece ser uma disciplina cuja definio ainda deixa muito
a desejar" ("La stratificaton du langage", 1954, in E.ssa linKn~ti9"e.s, p- 5(,).
Em LanKue et parole (1943) Hjelmslev, colocando o mesmo Problema, j evo-
cava estas "numerosas nuanas de que o mestre de Genebra pode plenamente
ter conscincia mas sobre as quais no julgou til insitir; os motivos que puderam
determinar esta atitude naturalmente nos escapam" (p. 76).
Lingustica e Gramatologia
clarecer: I) que se pode conserv-la sem que seja necessrio
afirmar que "a linguagem interior se reduz aos traos dis-
tintivos com excluso dos traos configurativos ou redundan-
tes"; 2) que no se retenha a qualificao de ps9uica se
esta designa exclusivamente uma outra realidade natural, in-
terna e no externa.  aqui que a correo husserliana 
indispensvel e transforma at as premissas do debate. Com-
ponente real (reell e no real* ) do vivido, e estrutura hyl/
morph no  uma realidade (Realit~it). Quanto ao objeto
intencional, por exemplo o contedo da imagem, ele no per-
tence realmente (reell) nem ao mundo nem ao vivido: com-
ponente no-real do vivido. A imagem psquica de que fala
Saussure no deve ser uma realidade interna copiando uma
realidade externa. Husserl, que critica nas Idias I este con-
ceito do "retrato", mostra tambm na Krisis (pp. 63 e ss.)
como a fenomenologia deve superar a oposio naturalista
de que vivem a psicologia e as cincias do homem, entre a
"experincia interna" e a "experincia externa". Portanto, 
indispensvel salvar a distino entre o som aparecendo e o
aparecer do som para evitar a pior, porm mais corrente das
confuses; e  em princpio possvel faz-lo sem "querer
superar a antinomia entre invarincia e variabilidade, ao atri-
buir a primeira  experincia interna e a segunda,  expe-
rincia externa" (Jakobson, op. cit., p. 112). A diferena
entre a invarincia e a variabilidade no separa os dois do-
mnios entre si, ela os divide a um e a outro neles mesmos.
Isto indica claramente que a essncia da phon no poderia
ser lida diretamente e de incio no texto de uma cincia mun-
dana, de ma psico-fisio-fontica.
Tomadas estas precaues, deve-se reconhecer que  na
zona especfica desta imprenso e deste rastro, na temporali-
zao de um vivido que no  nem no mundo nem num
"outro mundo", que no  mais sonoro que luminoso, no
mais no tempo que no espao, que as diferenas aparecem
entre os elementos ou, melhor, produzem-nos, fazem-nos sur-
gir como tais e constituem textos, cadeias e sistemas de ras-
tros. Estas cadeias e estes sistemas podem-se desenhar
somente no tecido deste rastro ou imprenso. A diferena
inaudita entre o aparecendo e o aparecer (entre o "mundo"
e o "vivido")  a condio de todas as outras diferenas, de
todos os outros rastros, e ela j  um rastro. Assim, este
ltimo conceito  absolutamente e de direito "anterior" a
toda problemtica fisiolgica sobre a natureza do engrama ou
metafsica sobre o sentido da presena de que o rastro se d,
desta forma, a decifrar. O rastro  verdadeiramente a origem
GRAMATOLOGIA
80
absoluta do sentido em geral. O que verrr afirmar mais uma
vez, que no h origem absoluta do sentido em geral. O ras-
tro  a diferncia que abre o aparecer e a significao. Arti-
culando o vivo sobre o no-vivo em geral, origem de toda
repetio, origem da idealidade, ele no  mais ideal que real,
no mais inteligvel que sensvel, no mais uma significao
transparente que uma energia opaca e nenhum conceito da
metaf sica pode descrev-lo. E como ele  a f ortiori anterior
 distino entre as regies da sensibilidade, ao som tanto
quanto  luz, h um sentido em estabelecer uma hierarquia
"natural" entre a imprenso acstica, por exemplo, e a im-
prenso visual (grfica)? A imagem grfica no  vista;
e a imagem acstica no  ouvida (entendida). A diferena
entre as unidades plenas da voz permanece inaudita. Invisvel
tambm a diferena no corpo da inscrio.
A BRISURA*
Vs sonhastes, suponho, encontrar uma
nica palavra para designar a diferena e a
articulao. Folheando ao acaso o Roberr,
qui eu a encontrei, desde que se jogue sobre
a palavra, ou antes, que se indique o seu
duplo sentido. Esta palavra  rotura: '- Parte
fragmentada, quebrada. Cf. brecha, fratura.
fenda, fragmento. - Articulao por charneira
de duas partes de uma obra de carpintaria.
de serraria. A rotura de uma veneziana. Cf.
Junta."
ROGER LAPORTE (CarfG).
Origem da experincia do espao e do tempo, esta escri-
tura da diferena, este tecido do rastro permite  diferena
entre o espao e o tempo articular-se, aparecer como tal na
unidade de uma experincia (de um "mesmo" vivido a par-
tir de um "mesmo" corpo prprio ) . Portanto, esta articula-
o permite a uma cadeia grfica ("visual" ou "ttil", "espa-
cial") adaptar-se, eventualmente de forma linear, sobre uma
cadeia falada ("fnica", "temporal").  da possibilidade
primeira desta articulao que cumpre partir. A diferena 
a articulao.
 exatamente o que diz Saussure em contradio com o
captulo VI:
' Como se v da definio transcrita em epgrafe pelo Autor, esta palavra
possui um duplo sentido, de que nem rorura nem junrura (alternativas estudadas,
entre outras) conseguem dar conta. Por isso preferimos aportuguesar a palavra
francesa brisure. (N. dos T.)
LINGUifSTICA E GRAMATOLOGIA 8 1
"A questo do aparelho vocal se revela, pois, secundria no
problema da linguagem. Certa definio do que se chama linguagem
articulada poderia confirmar esta idia. Em latim, articulus significa
`membro, partes, subdiviso numa srie de coisas'; em matria de
linguagem, a articulao pode designar no s a diviso da cadeia
falada em slabas, como a subdviso das cadeias das significaes
em unidades significativas. . . Apegando-se a esta segunda definio,
poder-se-ia dizer que no  a linguagem falada que  nalural ao
homem, mas a faculdade de constituir uma lngu, isto , um sistema
de signos distintos correspondentes a idias distintas" (p. 18. O grifo
 nosso).
A idia de "imprenso psquica" comunica, pois, essen-
calmente, com a idia de articulao. Sem a dferena entre
o sensvel aparecendo e seu aparecer vivido ("imprenso ps-
quica"), a sntese temporalizadora, permitindo s diferenas
aparecer numa cadeia de significaes, no poderia fazer sua
obra. Que a "imprenso" seja irredutvel, quer tambm dizer
que a fala  originariamente passiva, mas num sentido da
passividade que toda metfora intramundana s poderia trair.
Esta passividade  tambm a relao a um passado, a um
desde-sempre-l que nenhuma reativao da origem poderia
plenamente dominar e despertar  presena. Esta impos-
sibilidade de reanimar absolutamente a evidncia de uma
presena originria, remete-nos, pois, a um passado absoluto.
 isto que nos autorizou a denominar rastro o que no se
deixa resumir na simplicidade de um presente. Na verdade,
seria possvel objetar-nos que, na sntese indecomponvel da
temporalizao, a protenso  tg indispensvel quanto a
tetenso. E suas duas dmenses no se acrescentam mas se
implicam uma e outra de um estranho modo. O que se ante-
cipa na protenso no desune o presente de sua identidade a
si menos do que o faz o que se retm no rastro. Certamente.
Mas, a privilegiar a antecipao, corria-se o risco, ento, de
apagar a irredutibilidade do desde-sempre-l e a passividade
fundamental que se denomina tempo. Por outro lado, se o
rastro remete a um passado absoluto  porque obriga-nos a
pensar um passado que no se pode mais compreender, na
forma da presena modificada, como um presente-passado.
Ora, como passado sempre significou presente-passado, o pas-
sado absoluto que se retm no rastro no merece mais rigo-
rosamente o nome de "passado". Outro nome a rasurar,
tanto mais que o estranho movimento do rastro anuncia tanto
quanto recorda: a diferncia difere. Com a mesma precau-
o e sob a mesma rasura, pode-se dizer que sua passividade
 tambm sua relao ao "futuro". Os conceitos de presente,
de passado e de futuro, tudo o que nos conceitos de tempo e
GRAMATOLOGIA
de histria deles supe a evidncia clssica - o conceito
metafsico de tempo em geral - no pode descrever ade-
quadamente a estrutura do rastro. E desconstruir a simpli-
cidade da presena no acarreta somente levar em conta os
horizontes de presena potencial, e mesmo de uma "dialtica"
da protenso e da retenso que se instalaria no corao do
presente em vez de contorn-lo. Portanto, no se trata de
complicar a estrutura do tempo, conservando-lhe a sua homo-
geneidade e sucessividade fundamentais, mostrando, por exem-
plo, que o presente passado e o presente futuro constituem
originariamente, dividindo-a, a forma do presente vivo. Uma
tal complicao, que em suma  aquela mesma que Husserl
descreveu, atm-se, apesar de uma audaciosa reduo feno-
menolgica,  evidncia,  presena de um modelo linear,
objetivo e mundano. O agora B seria enquanto tal, consti-
tudo pela reteno do agora A e pela protenso do agora G;
apesar de todo o jogo que se seguiria, do fato de que cada
um dos trs agora reproduz nele mesmo esta estrutura, este
modelo da sucessividade proibiria que um agora X tomasse
o lugar do agora A, por exemplo, e que, por um efeito de
retardamento nadmissvel para a conscincia, uma experin-
cia seja determinada em seu prprio presente, por um pre-
sente que no a teria precedido imediatamente mas ser-lhe-ia
amplamente "anterior".  o problema do efeito retardado
(nachtrglich)* de que fala Freud. A temporalidade a que
se refere no pode ser a que se presta a uma fenomenologia
da conscincia ou da presena e, no h'a dvida, pode-se, en-
to, contestar o direito de ainda denominar tempo, agora,
presente anterior, retardo, ete., tudo que aqui est em ques-
to.
Na sua maior formalidade, este imenso problema se
enunciaria deste modo:  a temporalidade descrita por uma
fenomenologia transcendental, to "dialtica" quanto possvel,
um solo o qual somente viriam modificar estruturas, digamos
inconscientes, da temporalidade? Ou ento o modelo feno-
menolgico  ele mesmo constitudo como uma trama de lin-
guagem, de lgica, de evidncia, de segurana fundamental,
sobre uma cadeia que no  a sua? E que tal  a dificuldade
mais aguda, no tem mais nada de mundano? Pois, no 
 Nachtrglich: termo psicanaltico geralmente traduzido em francs como
"aprs coup", e que pode equivaler ao portugus "posterior". Segundo o
Vocabulaire de La Psychanalyse, j citado: "Termo freqentemente empregado
por rreud em relao com sua concepo de temporalidade e de causalidade
psquicas: experincias, impresses, rastros mnsicos so remanejados ulterior-
mente em funo de experincias novas, do acesso a um outro grau de desen-
volvimento. Pode ser-lhes ento conferida, juntamente com um novo sentido,
uma eficcia psquica." (N. dos T.)
LINGSTICA E GRAMATOLOGIA 83
por acaso que a fenomenologia transcendental da conscincia
interna do tempo, to preocupada, no entanto, em colocar
entre parnteses o tempo csmico, deve, enquanto conscincia
e mesmo enquanto conscincia interna, viver um tempo cm-
plice do tempo do mundo. Entre a conscincia, a percepo
(interna ou externa) e o "mundo", a ruptura no , talvez
possvel, ainda que sob a forma sutil da reduo.
Portanto,  num certo sentido inaudito que a fala  no
mundo, enraizada nesta passividade que a metafsica deno-
mina sensibilidade em geral. Como no h linguagem no-
-metafrica aqui a opor s metforas,  necessrio, como que-
ria Bergson, multiplicar as metforas antagonistas. "Querer
sensibilizado",  assim que Maine de Biran por exemplo, com
uma inteno um pouco diferente, nomeava a fala vogal. Que
o logos seja primeiramente imprenso e que esta imprenso
seja o recurso escritural da linguagem, isto significa, certa-
mente, que o logos no  uma atividade criad.ora, o elemento
contnuo e pleno da fala divina, ete. Mas, no se teria dado
um passo alm da metafsica, se dela se conservasse sequer
um novo motivo da "volta  finidade", da "morte de Deus"
etc.  esta conceitualidade e esta problemtica que  neces-
srio desconstruir. Elas pertencem  onto-teologia que con-
testam. A diferncia , tambm, outra que a finidade.
Segundo Saussure, a pasividade da fala , antes de mais
nada, sua relao  lngua. A relao entre a passividade e
a diferena no se distingue da relao entre a conscincia
fundamental da linguagem (como enraizamento na lngua) e
o espaamento (pausa, branco, pontuao, intervalo em geral
etc. ) que constitui a origem da significao.  porque "a
lngua  uma forma e no uma substncia" (p. 141 ) que,
paradoxalmente, a atividade da fala pode e sempre deve nela
se munir. Mas, se ela  uma forma,  porque "na lngua s
existem diferenas" (p. 139). O espaamento (notar-se-
que esta palavra afirma articulao do espao e do tempo, o
vir-a-ser-espao do tempo e o vir-a-ser-tempo do espao) 
sempre o no-percebido, o no-presente e o no-consciente.
Como tais, se ainda se pode empregar esta expresso de ma-
neira no fenomenolgica: pois, passamos aqui mesmo o
limite da fenomenologia. A arquiescritura como espaamento
no pode-se dar como tal, na experincia fenomenolgica de
uma presena. Ela marca o tempo morto na presena do
presente vivo, na forma geral de toda presena. O tempo
morto age. Da por que, uma vez mais, apesar de todos os
recursos discursivos que lhe deve tomar de emprstimo, o
84 GRAMATOLOGIA
pensmento do rastro no se confundir jamais com uma
fenomenologia da escritura. . Como uma fenomenologia do
signo em geral, uma fenomeilologia da escritura  impossvel.
Nenhuma intuio pode-se dar l onde "os `brancos' na ver-
dade assumem a importncia" (Prefcio ao Coup de ds).
Talvez compreenda-se melhor por que Freud disse, do
trabalho do sonho, que  mais comparvel a uma escritura
que a uma linguagem, e a uma escritura hieroglfica que a
uma escritura fontica3. E por que Saussure disse a respeito
da lngua que ela "no constitui, pois, uma funo do sujeito
falante" (p. 22). Proposies estas que  necessrio enten-
der, com ou sem a cumplicidade de sFus autores, alm das
simples inverses de uma metafsica da presena ou da sub-
jetividade consciente. Constituindo-o e descolocando-o ao
mesmo tempo, a escritura  outra que o sujeito, em qualquer
sentido em que seja entendida. Ela no poder jamais ser
pensada sob sua categoria; de qualquer maneira que ela seja
modificada, afetada de conscincia ou inconscincia, esta re-
meter, por todo o fio de sua histria,  substancialidad.e de
uma presena impassvel sob os acidentes ou  identidade do
prprio na presena da relao a si. E sabe-se que o fio
desta histria no corria nas orlas da metafsica. Determinar
um X como sujeito no  jamais uma operao de pura con-
veno, no  jamais quanto  escritura um gesto indifrente.
Ora, o espaamento como escritura  o vir-a-ser-ausente
e o vir-a-ser-inconsciente do sujeito. Pelo movimento de sua
deriva, a emancipao do signo retro-constitui, o desejo
da presena. Este devir - ou esta deriva - no sobrevm
ao sujeito que o escolheria ou nele se deixaria passivamente
arrebatar. Como relao do sujeito  sua morte, este devir
 a prpria constituio da subjetividade. Em todos os nveis
de organizao da vida, isto , da economia da morte. Todo
grafema  por essncia testamentrio3'. E a ausncia original
do sujeito da escritura  tambm a da coisa ou do referente.
30. Tentamos dsste ponto de vista uma leitura de Freud ("Freud e a cena
da escritura" in A esritura e a di/erena). Ela coloca em evidncia a comu-
nicao entre o conceito de rastro e a estrutura do "de-retardamento" de que
falamos mais acima.
31. Mais de um sistema mitolgico  habitado por este tema. Entre muitos
outros exemplos, Tote, o deus egpcio da escritura evocado no Fedro, o inventor
da astcia tcnica, o anlogo a Hermes, exercia tambm funes essenciais no
rito funerrio. Era na ocasio, barqueiro de mortos. Inscrevia as contas antes
do juzo final. Ocupava tambm a funo de secretrio suplente que usurpava
o primeiro lugar: do rei, do pai, do sol de seu olho. Por exemplo: "De regra
geral, o olho de Hrus tornou-se o olho lunar. A lua como tudo que diz
respeito ao mundo astral, muito intrigou os egpcios. Segundo uma lenda, a
lua teria sido criada pelo deus-sol para substitu-lo durante a noite: era Tote
que R designara para exercer esta alta funo de suplncia. Um outro mito
procurava explicar as vicissitudes da lua por um combate peridico cujos pro-
tagonistas eram Hrus e Sti. No curso da luta, o olho de Hrus Ihe foi arran-
LINGVfSTICA E GRAMATOLOGIA g
5
Na horizontalidade do espaamento, que no  outra
dimenso seno a de que falamos at aqui e que no se lhe
ope como a superfcie  profundidade, no cabe sequer dizer
que o espaamento corta, cai e faz cair no inconsciente: este
no  nada sem esta cadncia e antes desta cesura. A sgni-
ficao, assim, no se forma seno no oco da diferncia: da
descontinuidade e da discrio, do rapto e da reserva do que
no aparece. Esta brisura da linguagem como escritura, esta
descontinuidade pde, num momento dado, na lingstica, ir
de encontro a um precioso preconceito continusta. Renun-
ciando a ele, a fonologia deve renunciar claramente a toda
distino radical entre a fala e a escritura, renunciar assim
no a si mesma,  fonologia, mas ao fonologismo. O que
reconhece Jakobson a este respeito, nos  muito importante
aqui:
"O fluxo da linguagem falada, fisicamente contnua, confrontou
na origem a teoria da comunicao com uma situao consideravel-
mente mais complicada" (Shannon e Weaver) do que o conjunto
finito de elementos discretos que apresentava a linguagem escrita.
A anlise lingstica, todavia, conseguiu resolver o discurso oral numa
srie finita de informaes elementares. Estas unidades discretas,
ltimas, ditas `traos distintivos' so agrupadas em `feixes' simul-
tneos, denominados fonemas, que, por sua vez, encadeiam-se para
formar seqncias. Assim, pois, a forma na linguagem, tem uma
estrutura manifestamente granular e  suscetvel de uma descrio
quntic'~'r
A brisura marca a impossibilidade para um signo, para
a unidade de um significante e de um significado, de produ-
zir-se na plenitude de um presente e de uma presena abso-
luta. Da por que no h fala plena, quer se queira restaur-
-la por ou contra a psicanlise. Antes de pensar em reduzir
ou em restaurar o sentido da fala plena que afirma ser a
cado, mas Sti, finalmente vencido, foi obrigado a devolver a seu vencedor o
olho que lhe havia tomado; segundo outras verses o olho teria retornado sozinho
ou ainda teria sido trazido por Tote. Seja o que for Hrus reencontra com alegria
seu olho e o repe em seu lugar depois de o ter purificado. Os egpcios deno-
minaram este olho o oudjal "aquele que est com boa sade". Veremos que o
papel do olho oudjar foi considervel na religio funerria, na lenda osiriana
e na cerimnia da oferenda. Esta lenda teve mais tarde uma contrapartida solar:
contava-se que o senhor universal, na origem do mundo, viu-se, no se sabe
por qual razo, privado de seu olho. Encarregou Sltou e Tefnout de olho
reconduzir. A ausncia dos dois mensageiros foi to longa que R foi obrigado
a substituir o infiel. O olho, assim que foi por fim reconduzido Por Shou e
por Tefnout, foi tomado de clera (a) ao ver que seu lugar havia sido tomado.
R, para apazigu-lo, transformou-o em serpente-uraeus e o colocou sobre sua
fronte como stmbolo de seu poder; alm disso, encarregou-o de defend-lo contra
seus inimigos." (a) O olho verteu lgrimas (rmyr) de onde nasceram os
homens (rmet); a origem mtica dos homens repousa, como se v, num simples
jogo de palavras (Jacques Vandier, La religion gyprienne, PUF, pp. 39-40).
Aproximar-se- este mito de suplncia da histria do olho em Rousseau (cf.
mais adiante p. 182).
32. Linguistique et rhorie de la cornmanicarion (op. cit., pp. B7-88).
GRAMATOLOGIA
verdade,  preciso colocar a questo do sentido de sua origem
na diferena. Tal  o lugar de uma problemtica do rastro.
Por que do rastro? O que nos guiou na escolha desta
palavra? Comeamos a responder a esta questo. Mas esta
questo  tal, e tal a natureza de nossa resposta, que os lu-
gares de uma e de outra devem deslocar-se constantemente.
Se as palavras e os conceitos s adquirem sentido nos enca-
deamentos de diferenas, no se pode justificar sua lingua-
gem, e a escolha dos termos, seno no interior de uma tpica
e de uma estratgia histrica. Portanto, a justificao no
pode jamais ser absoluta e definitiva. Ela responde a um es-
tado das foras e traduz um clculo histrico. Assim, alm
das que j definimos, um certo nmero de dados, pertencendo
ao discurso da poca, progressivamente nos impuseram esta
escolha. A palavra rastro deve fazer por si mesma referncia
a um certo nmero de discursos contemporneos com cuja
fora entendemos contar. No que os aceitemos em sua to-
talidade. Mas a palavra rastro estabelece com eles a comu-
nicao que nos parece a mais certa e permite-nos fazer a
economia dos desenvolvimentos que neles demonstraram sua
eficcia. Assim, aproximamos este conceito de rastro daquele
que est no centro dos ltimos escritos de E. Levinas e de
sua crtica da ontologia33: relao  illidade como  alteridade
de um passado que nunca foi e no pode nunca ser vivido
na forma, originria ou modificada, da presena. Colocada
aqui, e no no pensamento de Levinas, de acordo com uma
inteno heideggeriana, esta noo significa, por vezes para
alm do discurso heideggeriano, o abalamento de uma onto-
logia que, em seu curso mais interior, determinou o sentido
do ser como presena e o sentido da linguagem como con-
tinuidade plena da fala. Tornar enigmtico o que se cr
entender sob os nomes de proximidade, de imediatez, de pre-
sena ~(o prximo, o prprio e o pre- de presena), tal seria,
pois, a inteno ltima do presente ensaio. Esta desconstru-
o da presena passa pela da conscincia, logo, pela noo
irredutvel do rastro (Spur), tal qual aparece no discurso
nietzschiano assim como no discurso freudiano. Por fim, em
todos os campos cientficos e notadamente no da biologia,
esta noo parece hoje dominante e irredutvel.
Se o rastro, arquifenmeno da "memria" que  preciso
pensar antes da oposio entre natureza e cultura, animali-
33 Cf. principalmente "La trace de 1'atre" in Tijdschrijt voor jilosojie,
set. 1963 e nosso ensaio, "Violence et mtaphysique, essai sur 1a pense d'Em
manuel Lavinas". Revue de miaohvsique et de morale, 1%4, 3 e 4. Este
artigo foi tambm publicado na edio francesa de A Escrirura e a Dijerena,
muito embota no faa parte da edio brasileira.
LINGfSTICA E GRAMATOLOGIA
dade e humanidade etc., pertence ao prprio movimento da
significao, esta est a priori escrita, que se a inscreva ou
no, sob uma forma ou outra, num elemento "sensvel" e
"espacial" que se denomina "exterior". Arquiescritura, pos-
sibilidade primeira da fala, e em seguida da "grafia" no sen-
tido estrito, lugar natal de "usurpao" denunclada desde Pla-
to at Saussure, este rastro  a abertura da primeira exte-
rioridade em geral, a enigmtica relao do vivo com seu
outro e de um dentro com um fora: o espaamento. O fora,
exterioridade "espacial" e "objetiva" de que acreditamos sa-
ber o que  como a coisa mais familiar do mundo, como a
prpria familiaridade, no apareceria sem o grama, sem a
diferncia como temporalizao, sem a no-prsena do outro
inscrita no sentido do presente, sem  relao com a morte
como estrutura concreta do presente vivo. A metfora seria
proibida. A presena-ausncia do rastro, o que no se deve-
ria sequer chamar sua ambigidade mas sim seu jogo (pois a
palavra "ambigtdade" requer a lgica da presena, mesmo
quando comea a desobedecer-lhe), traz em si os problemas
da letra e do esprito do corpo e da alma e de todos os
problemas cuja afinidade primeira lembramos. Todos os dua-
lismos, todas as teorias da imortalidade da alma ou do esp-
rito, tanto quanto os monismos, espiritualistas ou materia-
listas, dialticos ou vulgares, so o tema nico de uma metaf-
sica cuja histria inteira teve que tender em direo  redu-
o do rastro. A subordinao do rastro  presena plena
resumida no logos, o rebaixamento da escritura abaixo de
uma fala sonhando sua plenitude, tais so os gestos reque-
ridos por uma onto-teologia determinando o sentido arqueo-
lgico e escatolgico do ser como presena, como parusia,
como vida sem diferncia: outro nome da morte, historial
metonmia onde o nome de Deus mantm a morte em respeito.
Da por que, se este movimento abre sua poca sob a forma
do platonismo, ele se realiza no momento da metafsica infi-
nitista. Somente o ser infinito pode reduzir a diferena na
presena. Neste sentido, o nome de Deus, ao menos tal como
se pronuncia nos racionalismos clssicos  o nome da prpria
indiferena. S o infinito positivo pode suspender o rastro,
"sublim-lo" (props-se recentemente traduzir a Aufhebung
hegeliana por sublimao; esta traduo vale o que vale en-
quanto traduo, mas esta aproximao interessa-nos aqui ) .
Portanto, no se deve falar de "preconceito teolgico", fun-
cionando aqui ou l, quando est em causa a plenitude do
logos: o logos como sublimao do rastro  teolgico. As teo-
logias infinitistas so sempre logocentrismos, quer sejam ou
GRAMATOLOGIA
***88
no criacionismos. Spinoza mesmo dizia do entendimento
ou logos - que este era o modo infinito imediato da sub
cia divina, chamando-o mesmo seu filho eterno no ~
Tratado. ~ ainda a esta poca, concluindo-se com H
com uma teologia do conceito absoluto como logos, que
tencem todos os conceitos no-crticos, creditados pela
lingstica, ao menos na medida em que ela deve confirma
e como a isso escaparia uma cincia? - o decreto sai
riano recortando o "sistema interno da lngua".
Estes conceitos so precisamente os que permitiram
a excluso da escritura: imagem ou representao, sensv
bilidade inteligvel, natureza e cultura, natureza e tcnica, etc.
solidrios com toda a conceitualidade metafsica e em p~
cular com uma determinao naturalista, objetivista e c
vada da diferena entre o fora e o dentro.
E, sobretudo, com um "conceito vulgar do tempo".
mamos de emprstimo a Heidegger esta expresso. Ela
signa, ao fim de Sein und Zeit *, um conceito de tempo p
sado a partir do movimento espacial ou do agora, e que
mina toda a filosofia da Physica de Aristteles  Lgica
Hegel~. Este conceito, que determina toda a ontologia c
sica, no nasceu de um erro de filsofo ou de uma fa
terica: E interior  totalidade da histria do Ocidente,
que une sua metafsica  sua tcnica. E ns o veren
mais adiante comunicar com a linearizao da escritura c
conceito linearista da fala. Este linearismo  indubitav
mente inseparvel do fonologismo: ele pode elevar a voz
medida mesma em que um escritura linear pode pare~
submeter-se a ele. Toda a teoria saussuriana da "linearida
do significante" poderia ser interpretada deste ponto de vis
"Os significantes acsticos dispem apenas da linha do tem~
seus elementos se apresentam um aps o outro; formam uma cad~
Este carter aparece imediatamente quando os representamos p
escritura... "O.significante, sendo de natureza auditiva, desem
ve-se no tempo, unicamente e tem as caractersticas que toma
tempo: a) represent ma extenso, e, b) esta extenso  mensur
numa s dimenso:  uma linha"35. ,
Este  um ponto em que Jakobson se separa de Sa~
sure de forma decisiva, ao substituir a homogeneidade da lin
pela estrutura da pauta musical, "o acorde em msica"'~.
' Obra de Martin Heidegger O Ser e o Tempo. (N, dos T.)
34. Permitimo-nos aqui remeter ,a um ensaio (a sair), Ousia et Gram
note sur une note de Sefn und Zeit.
35. P. 84. Ver tambm tudo que concerne ao "tsmpo homogneo",
e ss.
36. Op. cit., p. 165. Ct. tambm argo de Diogne j citado.
LINGfSTICA E GRAMATOLOGIA
89
que aqui est em questo, no  a afirmao, por Saussure
da essncia temporal do discurso, mas sim, o conceito de 
tempo que conduz esta afirmao e esta anlise: tempo con-
cebido como sucessividade linear, como "consecutividade".
Este modelo funciona s e em todo o Curso, ' mas Saussure
dele est menos seguro, ao que parece, nos Anagramas. Seu
valor parece-lhe; em todo caso, problemtico e um precioso
pargrafo elabora uma questo deixada em suspenso:
"Que os elementos que formam uma palavra se sigam, a est
uma verdade que mais valeria no considerar em lingstica como
algo sem interesse porque evidente, mas sim como algo que d
de antemo o princpio central de toda reflexo til sobre as palavras.
Num domnio infinitamente especial como esse com que temos a lidar,
 sempre em virtude da lei fundamental da palavra humana em geral
que pode-se colocar uma questo como a da consecutividade ou
no-consecutividade"3~.
Este conceito linearista do tempo , portanto, uma das
mais profundas aderncias do conceito moderno de signo 
sua histria. Pois, no limite  o prprio conceito de signo
que permanece inserido na histria da ontologia clssica e na
distino, por mais tnue que seja, entre a face significante e
a face significada. O paralelismo, a correspondncia das fa-
ces ou dos planos, a no muda nada. Que esta distino,
aparecida primeiramente na lgica estica, tenha sido neces-
sria  coerncia de uma temtica escolstica dominada pela
teologia infinitista, eis o que nos impede tratar como uma
contingncia ou uma comodidade o emprstimo que dela se
faz hoje. Ns o havamos sugerido no comeo, talvez suas
razes apaream melhor agora. O signatum remetia sempre,
como a seu referente, a uma res, a um ente criado ou, de
qualquer forma, primeiramente pensado e dito, pensvel e
dizvel no presente eterno no logos divino e precisamente
no seu sopro. Se ele vinha a ter relao com a fala de um
esprito finito (criado ou no; de qualquer forma de um ente
intracsmico) pelo intermedirio de um signans, o signatum
tinha uma relao imediata com o logos divino que o pen-
sava na presena e para o qual ele no era um rastro. E
para a lingstica moderna, se o significante  rastro, o sig-
nificado  um sentido pensvel em princpio na presena plena
de uma conscincia intuitiva. A face significada na medida
em que ainda  distinguida originariamente da face signifi-
37. Mercure de france, fev. 1964, p. 2S4. Apresentando este texto, J.
Starobinski evoca o modelo musical e conclui: "Esta leitura desenvolve-se
segundo um outro lempo (e num outro tempo): no limite se sai do tempo
da 'consecutividade' prpria  linguagem habitual". Poder-se-ia, sem dvida,
dizer prprio ao conceito habitual de tempo e de linguagem.
GRAMATOLOGIA
cante no  considerada como um rastro: de direito, no tem
necessidade do significante para ser o que .  na profundi-
dade desta afirmao que  necessrio colocar o problema das
relaes entre a lingstica e a semntica. Esta referncia ao
sentido de um significado pensvel e possvel fora de qual-
quer significante, permanece na dependncia da onto-teo-te-
leologia que acabamos de evocar. Portanto,  a idia de signo
que seria necessrio desconstruir por uma meditao sobre a
escritura que se confundiria, conforme deve faz-lo, com uma
solicitao da onto-teologia, repetindo-a fielmente na sua to-
talidade e abalando-a nas suas evidncias mais seguras38. A
se  conduzido com toda Necessidade uma vez que o rastro
afeta a totalidade do signo sob suas duas faces. Que o sig-
nificado seja originrio e sssencialmente (e no somente para
um esprito finito e criado) rastro, que ele seja desde sempre
em posio de significante, tal  a proposio aparentemente
inocente em gue a metafsica do logos, da presena e da cons-
cincia deve refletir a escritura como sua morte e seu recurso.
38. Ss escolhemos demonstrar a necessidade desta desconstruo privile-
giando as referncias saus-urianas, no  somente porque Saussure ainda domina
a lingstica e a semiologia contemporneas:  porque ele nos parece tambem
se manter nos limites: ao mesmo tempo na metafsica que  preciso descons-
truir e alm do conceito de signo (significante/significado) do que ainda se
serve. Mas, com que escrpulos, que hesitao interminveis, principalmente
quando se trata da diferena entre as duas "faces" do signo e do "arbitrrio",
melhor o compreendemos ao ler R. Goedel, Les sources manuscrires du Cours de
linguistquC gnrale, 1957, P 190 e ss. Notemos de passagem: no est excludo
que a literalidade do Curso,  qual muito tivemos que nos referir, aparea um
dia muito suspeita,  luz dos inditos cuja publicao se prepara atualmente
Pensamos em particular nos Anagrummes- At c~ue ponto Saussure  responsvel
pelo Curso tal como foi redigido e dado para ler depois de sua morte? A
questo no  nova. Seria necessrio precisar que, ao menos aqui, no podemos
lhes dar nenhuma pertinncia? A no ser que se confunda profundamente a
natureza de nosso projeto, ter-se- percebido que, preocupando-nos muito pouco
com o prprio pensamento de Ferdinand de Saussure ele mesmo, interessamo-
-nos por um fexto cuja literalidade deve o papel que se sabe depois de 1915,
funcionando num sistema de leituras, influncias, des-conhecimentos, emprstimos,
refutaes etc- O que a se pde ler - e tambm o que no se pde a ler
- sob o ttulo de Cours de linguistique gnrale importava-nos com excluso de
qualquer inteno escondida e "verdadeira" de Ferdinand de Saussure. Se se
descobrisse que este texto nele ocultou um outro - e nunca teremos que nos
defrontar seno com textos - e o ocultou num sentido determinado, a leitura
que acabamos de propor no seria, ao menos por esta nica razo, enfra-
quecida. Muito ao contrrio. Esta situao, alm do mais, fora prevista pelos
editores do Curso, bem ao fim do seu primeiro Prefcio.
3. Da Gramatologia como
Cincia Positiva
Em que condies uma gramatologia  possvel? Sua
condio fundamental , certamente, a solicitao do logo-
centrismo. Mas esta condio de possibilidades transforma-se
em condio de impossibilidade. Com efeito, ela corre o
risco de abalar tambem o conceito da cincia. A grafemtica
ou a gramatografia deveriam deixar de apresentar-se como
cincias; a sua mira deveria ser exorbitante com respeito a um
saber gramato-lgico.
Sem nos aventurarmos aqui at esta Necessidade peri-
gosa, e no interior das normas tradicionais da cientificidade
em direo das quais fazemos um recuo provisrio, repetimos
a questo: em que condies a gramatologia  possvel?
Sob a condio de saber o que  a escritura e como se
regula a plurivocidade deste conceito. Onde comea a escri-
tura? Quando comea a escritura? Onde e quando o rastro,
escritura em geral, raiz comum da fala e da escritura, se com-
prime como "escritura" no sentido corrente? Onde e quando
se passa de uma escritura a outra, da escritura em geral 
escritura em sentido estrito, do rastro  grafia, depois, de um
sistema grfico a outro, e, no campo de um cdigo grfico.
de um discurso grfico a outro, etc.?
Onde e quando comea. . .? Questo de origem. Ora,
yue no haja origem, isto , origem simples; que as questes
de origem conduzem com ela uma metafsica da presena, eis
o que uma meditao do rastro deveria, sem dvida, ensinar-
-nos. Sem nos aventurarmos aqui at esta Necessidade peri-
GRAMATOLOGIA
9
gosa, continuando a colocar questes de origem, devemos
nestas reconhecer duas alturas. "Onde" e "quando" podem
abrir questes empricas: quais so os lugares e os momentos
determinados dos primeiros fenmenos de escritura, na hist-
ria e no mundo? A estas questes devem responder o levan-
tamento e a pesquisa dos fatos: histria no sentido corrente, a
que foi praticada at hoje por quase todos os arquelogos,
epigrafistas e pr-historiadores que interrogaram as escrituras
no mundo.
Mas a questo de origem confunde-se inicialmente com
a questo da essncia. Pode-se igualmente dizer que ela pres-
supe uma questo ontofenomenolgica, no sentido rigoroso
do termo. Deve-se saber o que  a escritura, para poder-se
perguntar, sabendo-se de que se fala e de que  questo, onde
e quando comea a escritura. Que  a escritura? Pelo que
ela se reconhece? Qual certeza de essncia deve guiar o levan-
tamento emprico? Gui-lo de direito, pois  uma Necessidade
de fato que o levantamento emprico fecunde, por precipita-
o, a reflexo sobre a essncial. Esta deve operar sobre
"exemplos", e poder-se-ia mostrar em que esta impossibilidade
de comear pelo comeo de direito, tal como  designado pela
lgica da reflexo transcendental, remete  originariedade (sob
rasura) do rastro, isto ,  raiz da escritura. O que j nos
ensinou o pensamnto do rastro,  que ele no podia simples-
mente ser submetido  questo ontotenomenolgica da essn-
cia. O rastro no  nada, no  um ente, excede a questo
o que  e eventualmente a possibilita. Aqui no se pode nem
mesmo confiar na oposio do fato e do direito, que nunca
funcionou a no ser no sistema da questo a que , sob todas
as suas formas metafsicas, ontolgicas e transcendentais. Sem
nos aventurarmos at a Necessidade perigosa da questo sobre
a arquiquesto "o que ", abriguemo-nos ainda no campo
do saber gramatolgico.
A escritura sendo totalmente histrica,  ao mesmo tempo
natural e surpreendente que o interesse cientfico pela escri-
tura tenha sempre tomado a forma de uma histria da escri-
tura. Mas a cincia exigia tambm que uma teoria da escritura
viesse orientar a pura descrio dos fatos - supondo-se que
esta ltima expresso tenha um sentido.
1. Sobre as dificuldades empricas de uma pesquisa das origens empricas,
cf. M. Cohen, La grande invensron de L'crieure, 1958, tomo I, pp. 3 e ss. Com
a Hisroire de l'crirure, de J. G. Fvrier (1948-1959~, trata-se da obra mais
importante, na Frana, sobre a histria da escritura. M. V: David consagrou
a ambos um estudo em Critique, junho de 1960.
DA GRAMATOLOGIA COMO CIENCIA POSITIVA 93
A LGEBRA: ARCANO E TRANSPARENCIA
A que ponto o sculo XVIII, marcando aqui um corte,
tentou fazer justia a estas duas exigncias, eis o que  muito
freqentemente ignorado ou subestimado. Se, por razes pro-
fundas e sistemticas, o sculo XIX nos deixou uma pesada
herana de iluses ou de des-conhecimentos, tudo o que se
refere  teoria do signo escrito no final do sculo XVII e no
decorrer do sculo XVIII foi a sua vtima privilegiada2.
Devemos, portanto, aprender a reler o que est assim
embaralhado para ns. Madeleine V.-David, um dos espri-
tos que, na Frana, animaram incessantemente o levantamento
histrico da escritura pela vigilncia da quisto filosfica3,
acaba de reunir numa preciosa obra as peas essenciais de um
relatrio: o de um debate apaixonando todos os espritos euro-
peus no final do sculo XVII e durante todo o sculo XVIII.
Sintoma cegante e des-conhecido da crise da conscincia euro-
pia. Os primeiros projetos de uma "histria geral da escri-
tura" (a expresso  de Warburton e data de 17424) nasceram
num meio de pensamento em que o trabalho propriamente
cientfico devia incessantemente sobrepujar aquilo mesmo que
lhe dava seu movimento: o preconceito especulativo e a pre-
suno ideolgica. O trabalho crtico progride por etapas e
pode-se reconstituir posteriormente a sua estratgia. Vence
inicialmente o preconceito "teolgico":  assim que Frret
qualifica o mito de uma escritura primitiva e natural dada por
Deus, tal como a escritura hebraica para Blaise de Vigenre;
em seu Trait des chif fres ou secrtes manires d'escrire
(1586), diz que tais caracteres so "os mais antigos de todos,
e mesmo formados pelo prprio dedo do Soberano Deus". Sob
todas as suas formas, quer sejam manifestas ou sorrateiras,
esse teologismo, que na verdade no  um preconceito e 
mais do que isto, constituiu o obstculo maior a toda gramato-
2. M. V.-David prope uma explicao particular para este acontecimento.
" certo que, no pensamento do sculo XIX, se produziu um vazio depois
da apologia, demasiado exclusiva, dos fatos de lngua Lcomeada com Herder).
Paradoxalmente, o sculo das grandes decifraes fcz tbua rasa da tonga
preparao destas decifraes, ostentando sua desafeio fac ao prohlema dus
signos... Assim fica um vazio a ser preenchido, uma continuidade a ser resta-
helecida... O melhof a fazer neste sentido seria assinalar... os textos dc
Leibniz quc tratam. mnitas vezes conjuntamente, dos fatos chineses c dos
projetos de escritura universal, e das mltiplas posies Possveis do escrito
e do falado... Mas talvez no padeamos somente dos cegamentos do cuto
XIX face aos signos. Sem dmida, nossa qualidade de escrevedores 'alfahticos'
tambm contribui poderosamente para dissimular-nos tais asPectos essenciais da
aLividade escritural" (Interveno em EP, pp. 352-353).
3. Ela o fez em particular em Les dieux et le de.crin en Bahytonie (P.U.F.,
1945) (ef. principalmente o ltimo captulo, sobre Le rxne de t'crirure); c
em numerosos artigos da Revue Philosophique, do BulleNn de la .socio linguis-
tique de Pari.s, de Criique, do lournal de psychologie e do Journal a.siatique.
M. V.-David foi discpula e tradutora de B. Hrozny.
4. DE, pP. 34 e ss.
94 GRAMATOLOGIA
logia. Nenhuma histria da escritura podia conciliar-se com
ele. E inicialmente nenhuma histria da escritura-mesma
daqueles que cegava: o alfabeto, quer seja hebreu ou grego.
O elemento da cincia da escritura devia permanecer invisvel
em sua histria, e, privilegiadamente, queles que podiam per-
ceber a histria das outras escrituras. Assim, no  surpreen-
dente que o descentramento necessrio siga o vir-a-ser-legvel
das escrituras no-ocidentais. No se aceita a histria do alfa-
beto antes de se reconhecer a multiplicidade dos sistemas de
escritura e de se lhes designar uma histria, quer se esteja ou
no capacitado a determin-la cientificamente.
Este primeiro descentramento limita-se a si mesmo. Re-
-centra-se num solo a-histrico, que, de maneira anloga,
concilia o ponto de vista lgico-filosfico (cegamento sobre
a condio do lgico-filosfico: a escritura fontica) e o ponto
de vista teolgico5. ~ o preconceito "chins": todos os pro-
jetos filosficos de escritura e de linguagem universais, pasi-
lalia, poligrafia, pasigrafia, chamados por Descartes, esboados
pelo Padre Kircher, Wilkins, Leibniz, etc., encorajaram a vor
na escritura chinesa, que ento era descoberta, um modelo
de lngua filosfica assim subtrado  histria. Tal , em todo
caso, a funo do modelo chins nos projetos de Leibniz. O
que, a seus olhos, liberta da voz a escritura chinesa  tambm
o que, arbitrariamente e por artifcio de inveno, arranca-a
 histria e torna-a prpria  filosofia.
A exigncia filosfica que guia Leibniz j fora formulada
vrias vezes antes dele. Dentre todos em que se inspira, h
inicialmente o prprio Descartes. Respondendo a Mersenne,
que lhe havia comunicado um panfleto, cuja origem ns igno-
ramos, exaltando um sistema de seis proposies para uma
lngua universal, Descartes comea por dizer toda a sua des-
confiana'. Considera com desdm certas proposies, des-
tinadas, segundo ele, apenas a "valorizar a droga" e a "louvar
a mercadoria". E tem "m opinio" da palavra "arcano":
"assim que eu vejo apenas a palavra arcano em alguma pro-
posio, comeo a ter m opinio desta". Ope a este projeto
argumentos que so, como se recordar8, os de Saussure:
5. Aqueles que eram denominados os "Jesutas de Canto" obstinavam-se
em descobrir a presena das influncias ocidentais (judaico-crists e egpcias)
na escritura chinesa. Cf. V. Pinot, La Chine et la Jormarlon de 1'esprit philoso-
pbigue en France (1640-1740), 1932, e DE, pp. 59 e ss.
6. Athanase Kircher, Polygraphia nova et universalis er cambinatoria arte
detecta. John Wilkins, An essay towards a real clunracter and a philosophlcal
language, 1668.
7. Carta a Mersenne, 20 de novembro de 1629. Cf. tambm L. Couturat
e L. Lau, Histoire de Ia langue universelle, p. 10 e ss.
8. Supra, p. 57.
A GRAMATOLOGIA COMO CINCIA POSITIVA 9
5
. . . o mau encontro das letras, que produziriam freqentemente
sons desagradveis e insuportveis  audio: pois toda a diferena
das inflexes das palavras fez-se, pelo uso, apenas para evitar este
defeito, e  impossvel que vosso autor tenha podido remediar este
inconveniente, fazendo sua gramtica universal para todas as espcies
de naes; pois  que  fcil e agradvel em nossa lngua  rude
e insuportvel para os alemes, e assim por diante."
Esta lngua exigiria ademais que se aprendessem as "pa-
lavras primitivas" de todas as lnguas, "o que  por demais
enfadonho".
A no ser comunicando-as "por escrito". E esta  uma
vantagem que Descartes no deixa de reconhecer:
"Pois se para as palavras primitivas cada um se servir das de
sua lngua,  verdade que no ter muito trabalho, mas em com-
pensao ser entendido apenas por seus conterrneos, a no ser que
o faa por escrito, quando quem desejar entend-lo ter o trabalho
de procurar todas as palavras no dicionrio, o que  por demais
enfadonho para se esperar que se torne usual... Portanto, toda a
utilidade que vejo poder sair desta inveno  para a escritura: a
saber, que ele fizesse imprimir um grosso dicionrio em todas as
lnguas em que desejasse ser entendido, e para cada palavra primitiva
pusesse caracteres comuns, que respondessem ao sentido e no s
slabas, como um mesmo carter para amar, amare e cpvev; e quem
tivesse este dicionrio e soubesse a sua gramtica poderia, procurando
um por um todos estes caracteres, interpretar em sua lngua o que
estaria escrito. Mas isto seria bom apenas para ler mistrios e reve-
laes; pois, para outras coisas, seria necessrio que no se tivesse
quase o que fazer, para se dar o trabalho de procurar todas as
palavras num dicionrio, e assim no vejo muito uso para isto. Mas
pode ser que me engane".
E com uma ironia profunda, talvez mais profunda do que
irnica, Descartes designa ao erro possvel uma outra causa
eventual, alm da no-evidncia, da falta de ateno ou da
precipitao da vontade: uma falha de leitura. O valor de um
sistema de lngua ou de escritura no se mede segundo a intui-
o, a clareza ou a distino da idia, segundo a presena do
objeto na evidncia. O prprio sistema deve ser decifrado.
"Mas pode ser que me engane; apenas vos desejei escrever tudo
o que podia conjeturar sobre estas seis proposies que me enviastes,
para que, quando virdes a inveno, possais dizer se bem a decifrei."
A profundeza arrasta a ironia para mais longe do que,
seguinda o seu autor, ela desejaria ir. Talvez mais longe do
que o fundamento da certeza cartesiana.
Depois do que, em forma de adio e de post-scriptum,
Descartes define muito simplesmente o projeto leibniziano.
96 GRAMATOLOGIA
 verdade que v nele o romance da filosofia: apenas a filo-
sofia pode escrev-lo, e portanto ela depende inteiramente
dele, mas por isso mesmo ela no poder esperar nunca "v-lo
em uso".
. . . a inveno desta lngua depende da verdadeira filosofia; pois
de outra maneira  impossvel enumerar todos os pensamentos dos
homens, e coloc-los em ordem, e mesmo apenas distingui-los de
modo a serem claros e simples, o que , a meu ver, o maior segredo
que se possa ter para adquirir a boa cincia... Ora, eu mantenho
que esta lngua  possvel, e que se pode achar a cincia de que ela
depende, pelo meio da qual os camponeses poderiam julgar da ver-
dade das coisas melhor do que o fazem hoje os filsofos. Mas no
espereis v-la jamais em uso; isto pressupe grandes mudanas na
ordem das coisas, e seria necessrio que o mundo inteiro no fosse
seno um paraso terrestre, o que s  bom de propor-se no pas
dos romances"9.
Leibniz refere-se expressamente a esta carta e ao princ-
pio analtico que nela se formula. Todo o projeto implica a
decomposio em idias simples.  a nica via para substituir
o raciocnio pelo clculo. Neste sentido, a caracterstica uni-
versal depende em seu princpio da filosofia, mas pode-se
empreend-la sem esperar o acabamento da filosofia:
"Entretanto, embora esta lngua dependa da verdadeira filosofia,
no depende da sua perfeio. Isto , esta lngua pode ser estabe-
lecida, embora a filosofia no seja perfeita: e,  medida que crescer
a cincia dos homens, esta lngua tambm crescer. Aguardando isso,
ela ser um auxlio maravilhoso, tanto para empregar o que sabemos,
9. Julgamos preferfvel restituir o contexto desta citao: "De resto, acho
que se poderia acrescentar a isto uma inveno, tanto para compor as palavras
primitivas desta lfngua quanto para seus caracteres; de modo que ela poderia
ser ensinada em muito pouco tempo, e isto por meio da ordem, isto , estabe-
lecendo uma ordem entre todos os pensamentos que podem entrar no esprito
humano, assim como h uma naturalmente estabelecida entre os nmeros;
e assim como se pode aprender em um dia a nomear todos os nmeros at o
infinito e a escrev-los numa lngua desconhecida, embora sejam uma infinidade
de palavras diferentes, que se pudesse fazer o mesmo com respeito a todas
as outras palavras necessrias para exprimir todas as outras coisas que caem
no esprito dos homens. Se isto se encontrasse, no duvido que esta lngua
logo tivesse curso pelo mundo; pois h muitas pessoas que de bom grado
empregariam cinco ou seis dias de tempo, para se poderem fazer entender por
todos os homens. Mas no acredito que vosso autor tenha pensado nisto, tanto
porque nada o testemunha em todas as suas proposies, quanto porque a
inveno desta lngua depende da verdadeira filosofia; pois de outra maneira
 impossvel enumerar todos os pensamentos dos homens, e coloc-los em ordem,
e mesmo apenas distingui-los de modo a serem claros e simples, o que , a
meu ver, o maior segredo que se possa ter para adquirir a boa cincia. E se
algum tivesse explicado bem quais so as idias simples que esio na imagi-
nao dos homens, das quais se compe tudo o que eles pensam, e isto fosse
aceito por todos, eu ousaria esperar a seguir uma lngua universal muito cmoda
de se aprender, de se pronunciar e de se escrever e, o que  o principal, que
auxiliaria o juzo, representando-1he to distintamente todas as coisas que lhe
seria quase impossvel enganar-se; enquanto, de uma maneira totalmente
oposta,
as palavras que temos possuem quase apenas significaes confusas, pelas quais
tendo-se o esprito dos homens acostumado a elas de longa data, por isso
mesmo no entende quase nada perfeitamente. Ora, eu mantenho que estsa
lngua  possvel...
DA GRAMATOLOGIA COMO CINCIAPOSITIVA 96
como para ver o que nos falta e ainda para inventar os meios de
alcan-lo, mas acima de tudo para exterminar as controvrsias nas
matrias que dependem do raciocnio. Pois ento ser a mesma coisa
raciocinar e calcular"1.
Sabe-se que estas no so as nicas correes da tradio
cartesiana. O analitismo de Descartes  intuicionista, o de
Leibniz remete para alm da evidncia, para a ordem, a rela-
o, o ponto de vistall.

A caracterstica "poupa o esprito e a imaginao, cujo uso deve
ser acima de tudo parcimonioso. Este  o principal objetivo desta
grande cincia que me acostumei a denominar Caracterstica, da
qual o que denominamos lgebra ou Anlis~  apenas um ramo
muito pequeno: uma vez que  ela que d as palavras s lnguas.
as letras s palavras, os algarismos  Aritmtica, as notas  Msica;
 ela que nos ensina o segredo de fixar o raciocnio e de obrig-lo
a deixar como rastros visveis em pequeno volume sobre o papel,
para ser examinado  vontade:  ela, enfim, que nos faz raciocinar
com poucas despesas, pondo caracteres em lugar das coisas, para
desembaraar a imaginao''t=.
Apesar de todas as diferenas que separam os projetos de
lngua ou de escritura universais nesta poca (em especial
quanto  histria e  linguageml'), o conceito do simples ab-
soluto neles sempre est, necessria e indispensavelmente,
agindo. Ora, seria fcil mostrar que ele remete sempre a uma
teoria infinitista e ao logos ou entendimento infinito de Deusf4.
 por isso que, apesar da aparncia, e apesar de toda a sedu-
o que pode legitimamente exercer sobre a nossa poca, o
projeto leibniziano de uma caracterstica universal que no
10' Opuscules et Jragments indits de Leibniz, Couturat, pp. 27-28.
It. Cf. r. Eelaval, Leibniz critique de Descartes, especialmente pp. 181 e ss.
12. Opuscules et J!agments indits de Leibniz, Couturat, pp. 98-99.
13. Cf. Histoire de la langue universelle, Couturat, pp. 1-28. r. Helava),
op. cit" pp. 181 e ss., e DE, cap. IV.
t4. Cf. por exemplo, entre tantos outros textos, Monadologie 1 a 3 e 51.
Aqoi no entra, nem em nosso propsito nem em nossas possibilidades, fazer
a demonstrao internn do liame entre a caracterstica e a teologia infinitista
de Leibniz. Para tanto seria necessrio atravessar e esgotar o contedo mesmo
do projeto. Remetemos, neste ponto s obras j citadas. Como Leibniz, quando
deseja lembrar - numa carta - o liame entre a existncia de Deus e a possi-
bilidade da escritura universal, diremos aqui que "esta  uma proposio cuja
demonstrao (no saberamos) dar bem, sem explicar em seu curso os funda-
mentos da caracterstica": "Mas, por hora, basta-me notar que o que  o
fundamento de minha caracterstica tambm o  da demonstrao da existncia
de Deus; Dois os pensamentos simples so os elementos da caracterstica, e as
formas simples so a fonte das coisas. Ora, sustento que todas as formas
simples so compatveis entre si. Esta  uma proposio cuja
demonstrao
eu no saberia dar bem, sem explicar em seu curso os fundamentos da carac-
terstica. Mas, se  concedida tal demonstrao, segue-se que a natureza de
Deus, que encerra todas as formas simples tomadas absolutamente,  possvet.
Ora, provamos acima que Deus , desde que seja possvel. Portanto ele existe.
Como queramos demonstrar." (Lettre  la princesse Elisaberh, 1678). H uma
ligao essencial entre a possibilidade do argumento ontolgico e a da Carac-
teristica.
GRAMATOLOGIA
98
seja essencialmente fontica no interrompe em nada o logo-
centrismo. Ao contrrio, ela o confirma produz-se nele e gra-
as a ele, assim como a crtica hegeliana a que ser subme-
tida.  a cumplicidade destes dois movimentos contraditrios
que visamos aqui. H uma unidade profunda, no interior de
uma certa poca histrica, entre a teologia infinitista, o logo-
centrismo e um certo tecnicismo. A escritura originria e pr-
ou metafontica, que tentamos pensar aqui, no conduz a
nada menos do que um "ultrapassamento" da fala pela m-
quina.
O logocentrismo  uma metafsica etnocntrica, num sen-
tido original e no "relativista". Est ligado  histria do
Ocidente. O modelo chins interrompe-o apenas aparente-
mente quando Leibniz se refere a ele para ensinar a Carac-
terstica. No apenas este modelo permanece uma represen-
tao domstical5, mas apenas se faz o seu elogio para nele
designar uma carncia e definir correes necessrias. O que
Leibniz se empenha em atribuir  escritura chinesa  seu
arbitrrio e portanto a sua independncia face  histria. Este
arbitrrio tem um liame essencial com a essncia no-fontica
que Leibniz acredita poder atribuir  escritura chinesa. Esta
parece ter sido "inventada por um surdo" (Novos Ensaios) :
"Loqui est voce articulata signum dare cogitationis suae. Scribere
est id facere permanentibus in charta ductibus. Quos ad vocem referri
non est necesse, ut apparet ex Sinensium characteribus" (Opuscules,
p. 497 ) ,
Em outro lugar:
"H, talvez, algumas lnguas artificiais que so plenamente de
escolha e inteiramente arbitrrias, como se acredita que foi a da
China, ou como so as de Georgius Dalgarnus e do falecido sr.
Wilkins, bispo de Chester"16.
Numa carta ao Padre Bouvet ( 1703 ) , Leibniz empenha-
-se em distinguir a escritura egpcia, popular, sensvel, ale-
grica, e a escritura chinesa, filosfica e intelectual:
15. Cf. DE, cap. IV.
16. Noureaux essais. III, II,  1. Dalgarno Dublicou em 1661 a obra inti-
tulada Ars signorum, vulgo character universalis et lingua philosophica. Sobre
Wilkins, cf. supra, Couturat, op. cit., e DE, passim. Uma escritura ou uma
lngua de pura instituio e puramente arbitrria no pode ter sido inventada
como sistema, seno de um s golpe. ~ o que, antes de Duclos, de Rousseau
e de Lvi-Strauss (ef. injra), Leibniz julga provvel: "Assim pensava Golius,
clebre matemtico e grande conhecedor das lnguas, que a lngua deles  artificial,
isto , que foi inventada de uma s vez por algum homem hbil para estabe-
lecer um comrcio de palavras entre a quantidade de naes diferentes que
habitavam este grande pas que denominamos China, embora esta lngua possa
encontrar-se alterada, hoje, pelo IonQo uso" (III, I,  1).
DA GRAMATOLOGIA COMO CINCIA POSITIVA
..os caracteres chineses so talvez mais filosficos, e parecem
construdos sobre consideraes mais intelectuais, de modo a darem
os nmeros, a ordem e as relaes; assim, h apenas traos desligados,
que no visam a nenhuma semelhana cem alguma espcie de corpo".
Isto no impede Leibniz de prometer uma escritura, da
~ qual a chinesa seria ainda apenas o esboo:
"Esse tipo de clculo daria ao mesmo tempo uma espcie de
escritura universal, que teria a vantagem da dos chineses, porque
todos a entenderiam em suas prprias lnguas, mas que supsraritl
infinitamente a chinesa, pois seria possvel aprend-la em poucas
semanas, tendo os caracteres t~em ligados segundo a ordem e a
conexo das coisas, enquanto os chineses, que tm uma infinidade
de caracteres segundo a variedade das coisas, precisam da vida de
um homem para aprenderem o bastante a sua escritura"17.
O conceito da escritura chinesa funcionava, portanto,
como uma espcie de alucinao europia. Isto no implica-
va nada de casual: este funcionamento obedecia a uma Neces-
sidade rigorosa. E a alucinao traduzia menos uma ignorn-
cia do que um des-conhecimento. Ela no era incomodada
pelo saber, limitado mas real, de que ento se podia dispor a
respeito da escritura chinesa.
Ao mesmo tempo que o "preconceito chins", um "pre-
conceito hierogdifista" produzira o mesmo efeito de cegamento
interessado. A ocultao, longe de proceder - em aparncia
- do desprezo etnocntrico, toma a forma da admirao
hiperblica. No termnamos de verfcar a Necessdade deste
esquema. Nosso sculo no est liberto dele: cada vez que
o etnocentrismo  precipitado e barulhentamente invertido,
algum esforo abriga-se silenciosamente por trs do espetacu-
lar para consolidar um dentro e retirar de.ste algum benefcio
domstico. Q espantoso Padre Kircher emprega assim todo
o seu gnio para abrir o 0cidente  egiptologial8, mas a ex-
celncia mesma que ele reconhece a uma escritura "sublime"
probe toda decifrao cientfica desta. Evocando o Prodro-
mus coptus sive aegyptiacus (1636), M. V.-David escreve:
"Esta obra , em todas suas partes, o primeiro manifesto da
investigao egiptolgica, uma vez que o autor nela determina a
natureZa du ~lngua egpcia anti~a - tendo-lhe sido fornecido por
17. Die philosophische Schri~t~n, ed. Gerhardt, T. VII, p. 25 e DE, p.
67. Sobre todos estes problemas, c/. tambm R. F. Merkel, "Leibniz und China",
in Leibniz zu seinem 300 Cerburt.stag, 1952. Sotre as cartas trocadas com o
Padre Bouvet a respeito do pensamento e da escritura chinese~, cf. pp. 18-20
e Baruzi, Leiniz, 1909, pp. 156-165.
18. DE, cap. III.
1S. DE, pp. 43-44.
100 GRAMATOLOGIA
outra via o instrumento desta descoberta (a). O mesmo livro des-
carta, contudo, todo projeto de decifrao dos hierglifos.
(a) cf. Lingua aegyptiaca restituta"I9.
O procedimento do des-conhecimento por assimilao
no  aqui, como no caso de Leibniz, de tipo racionalista e
calculador. 1~ mstico:
"Os hierglifos, l-se no Prodromus, so efetivamente uma escri-
tura, mas no a escritura composta de letras, palavras e partes do
discurso determinadas, que utilizamos em geral. So uma escritura
muito mais excelente, mais sublime e mais prxima das abstraes,
que, por tal encadeamento engenhoso dos smbolos, ou seu equiva-
lente, prope de um s olhar (uno intuitu)  inteligncia do sbio
um raciocnio complexo, noes elevadas, ou algum mistrio insigne
oculto no seio da natureza ou da Divindade"~.
H, portanto, entre o racionalismo e o misticismo, uma
certa cumplicidade. A escritura do outro  investida, cada
vez, de esquemas domsticos. O que poderamos denominar
ento, com Bachelard, um "corte epistemolgico", opera-se
principalmente graas a Frret e a Warburton. Pode-se acom-
panhar a laboriosa extrao pela qual ambos prepararam a
deciso, o primeiro sobre o exemplo chins, o segundo sobre
o exemplo egpcio. Com muito respeito por Leibniz e pelo
projeto de escritura universal, Frret despedaa a representa-
o da escritura chinesa por este implicada: "A escritura
chinesa no , portanto, uma lngua filosfica na qual nada
haja a desejar... Os chineses nunca tiveram nada de se-
melhante"z'.
Mas nem assim Frret se libertou do preconceito hiero-
glifista: preconceito que Warburton destri criticando violen-
tamente o Padre Kircher'~. O propsito apologtico que anima
esta crtica no excluia sua eficcia.
 no campo terico assim liberado que as tcnicas cien-
tficas de decifrao so reguladas pelo abade Barthlemy e
20. Prodromus, p. 260, citado e traduzido por Drioton (cf. DE, p. 46).
Sobre os projetos poligrficos de A. Kircher, cf. Polygraphia nova et universalis
ex combinatoria arte detecta, 1663. Sobre suas relaes com Lulle, Becher,
Dalgamo, Wilkins, Leibniz, cf. DE, pp. 61 e ss.
21. Rjlexions sur les principes 8nraux de l'avt d'crire, er en particulier
sur les jondements de I'criture chinoise, 1718, p 629. Cf. tambm o Esstri sur
la chronologie gnu~als de I'criture, que trata da "histria judaica", "abstrao
feita do respeito religioso que a Bblia inspira" (DE, pp. 80 e ss.).
22. Essai sur les hiroglyphes des Egyptiens, oti I'on voit I'Origine et le
Prcgr,s d" Langage et de t'crititne, 1'Antiuit des Sciences en Egypte, et
l'Origine du culte des animaux, avec des Obsrvations sur I'Anliquit des
Hiroglyphes Scienlijiques, et des Rmarques sur la Chronologie et sur la pre-
mire ~criture des Chinois, 1744. Este  o ttulo da traduo francesa de um
fragmento de The divine legation oJ Moses (1737-1741). Teremos de medir,
mais adiante, a influncia desta obra sobre Condillac, Rousseau e os colabo-
radores da Encyclopdie.
DA GRAMATOLOGIA COMO CINCIA POSITIVA 101
depois por Champollion. Pode ento nascer uma rflexo
sistemtica sobre as relaes entre a escritura e a fala. A
maior dificuldade era j conceber, de maneira histrica e sis-
temtica ao mesmo tempo, a coabitao organizada, num
mesmo cdigo grfico, de elementos figurativos, simblicos,
abstratos e fonticos'~.
A CINCIA E O NOME DO HOMEM
A gramatologia havia entrado na via segura de uma cin-
cia? As tcnicas de decifrao, sabe-se no cessaram de pro-
gredir em ritmo acelerado4. Mas as histrias gerais da escri-
tura, nas quais a preocupao de classificao sistemtica sem-
pre orientou a simples descrio, permanecero durante muito
tempo comandadas por conceitos tericos, que se sente niti-
damente no estarem  altura de imensas descobertas. De
descobertas que precisamente deveriam ter estremecido os fun-
damentos mais seguros de nossa conceitualidade filosfica,
inteiramente ordenada com respeito a uma situao determi-
nada das relaes entre logos e escritura. Todas as grandes
histrias da escritura se abrem pela exposio de um projeto
classificatrio e sistemtico. Mas poder-se-ia transpor hoje
ao domnio da escritura o que Jakobson diz das lnguas aps a
tentativa tipolgica de Schlegel:
"As questes de tipologia conservaram durante muito tempo um
carter especulativo e pr-cientfico. Enquanto a classificao gen-
tica das lnguas avanava a passos gigantes, os tempos ainda no
estavam maduros para uma classificao tipolgica" (op. cit., p. 69).
Uma crtica sistemtica dos conceitos utilizados pelos
historiadores da escritura no pode haver-se seriamente com
a rigidez ou a diferenciao insuficiente de um aparelho te-
rico se inicialmente no tiver referenciado as falsas evidncias
que guiam o trabalho. Evidncias ainda mais eficazes por
pertencerem  camada mais profunda, mais antiga e aparente-
mente a mais natural, a menos histrica de nossa conceitua-
lidade, a que melhor se subtrai  crtica, e inicialmente porque
a suporta, a nutre e a informa: o prprio solo histrico nosso.
Em todas as histrias ou tipologias gerais da escritura,
encontra-se por exemplo, aqui ou ali, uma concesso anloga
 que fazia dizer P. Berger, autor, na Frana, da primeira
grande Histria cta escritura na antigidade ( 1892) : "Na
23. DE, pp. 126-131.
24. Cf. E. Doblhofer, Le dchiffrement de9 critures, 1959, e EP, p. 352.
GRAMATOLOGIA 102
maior parte dos casos, os fatcs no se conformam a distines
que . . . so justas apenas em teoria" (p. XX). Ora, trata-
va-se de nada menos do que das distines entre escrituras
fontica e ideogrfica, silbica e alfabtica, entre imagem e
smbolo etc. O mesmo se d com o conceito instrumentalista
e tecnicista da escritura, inspirado pelo modelo fontico, do
qual s convm, alis, numa iluso teleolgica, e que o pri-
meiro contato com as escrituras no-ocidentais deveria bastar
para denunciar. Ora, este instrumentalismo est implicado
em toda parte. Em nenhum lugar foi formulado to sistemati-
camente, com todas as suas conseqncias, como por M.
Cohen: sendo a linguagem um "instrumento", a escritura 
"o prolongamento de um instrumento"25. No seria possvel
descrever melhor a exterioridade da escritura  fala, da fala
ao pensamento, do significante ao significado em geral. H
muito a pensar sobre o preo que assim paga  tradio meta-
fsica uma lingstica - ou uma gramatolegia - que se diz,
no caso considerado, marxista. Mas o mesmo tributo se re-
conhece por toda parte: teleologia logocntrica (expresso
pleonstica); oposio entre natureza e instituio; jogo das
diferenas entre smbolo, signo, imagem etc.; um conceito
ingnuo da representao; uma oposio no criticada entre
sensvel e inteligvel, entre a alma e o corpo; um conceito
objetivista do corpo prprio e da diversidade das funes
sensveis (os "cinco sentidos" considerados como outros tan-
tos aparelhos  disposio do falante ou do escrevedor); a
oposio entre a anlise e a sntese, o abstrato e o concreto,
que desempenha um papel decisivo nas classificaes pro-
postas por J. Fvrier e M. Cohen e no debate que as ope;
um conceito do conceito sobre o qual a mais clssica reflexo
filosfica deixou poucas marcas; uma referncia  conscin-
cia e  inconscincia que reclamaria com toda Necessidade
um uso mais vigilante destas noes e alguma considerao
pelas investigaes que as tomam como tema25; uma noo de
signo que a filosofia, a lingstica e a semiologia esclarecem
rara e fracamente. A concorrncia entre a histria da escri-
tura e a cincia da linguagem  vivida s vezes em termos
25. Op. cit., p. 2. M. V.-David, nos trabalhos j citados, crftica este
instrumentalismo. O instrumentalismo, cuja dependncia metafsica no seria
possvel exagerar, tambm inspira freqentemente a definio lingstica da
ess~ncia da linguagem, assimilada a uma funo e, o que  mais grave, a umn
funo exterior a seu contedo ou a seu agente.  o que  sempre implicado
pelo conceito de ferramenta. Assim, A. Martinet toma sob sua responsabilidade
e desenvolve longamente a definio da linguagem como "instrumento", "ferra-
menta" etc., quando a natureza "metafrica" desta definio, reconhecida
pelo
autor, deveria torn-la problemtica e renovar a questo sobre o sentido da
instrumentalidade, sobre o sentido do funcionamento e sobre o funcionamento
do sentido (Cf. lmens de lingeistique gnrale, pp. 12-14, 25).
26. Cf., por exemplo, M. Cohen, op. cir.. p. 6.
DA GRAMATOLOGIA COMO CINCIA POSITIVA 103
mais de hostilidade do que de colaborao. Supondo-se mes-
mo que a concorrncia seja admitida. Assim, a respeito da
grande distino operada por J. Fvrier entre "escritura sin-
ttica" e "escritura analtica", assim como a respeito da no-
o de "palavra" que nela desempenha um papel central, o
autor nota: "O problema  de ordem lingstica, no o
abordaremos aqui" (op. cit., p. 49). Em outro lugar, a
no-comunicao com a lingstica  justificada por J. Fvrier
nestes termos:
A matemtica " uma lngua especial que no tem mais nenhuma
relao com a linguagem,  uma espcie de lngua universal, vale
dizer qu constatamos atravs das matemticas que a linguagem -
eu me vingo dos lingistas -  absolutamente incapaz de dar conta
de certas formas do pensamento moderno. E, neste momento, a
escritura, que foi de tal modo des-conhecida, toma o lugar da lin-
guagem, depois de ter sido a sua serva" (EP, p. 349).
Poder-se-ia mostrar que todos estes pressupostos e todas
as oposies assim creditadas formam sistema: circula-se de
umas s outras no interior de uma nica e mesma estrutura.
A teoria da escritura no precisa apenas de uma liberao
intracientfica e epistemolgica, anloga  que foi operada
por Frret e Warburton sem tocarem nos fundamentos de que
falamos aqui. Deve-se, sem dvida, empreender hoje uma
reflexo na qual a descoberta "positiva" e a "desconstruo"
da histria da metafsica, em todos os seus conceitos, se con-
trolem reciprocamente, minuciosamente, laboriosamente. Sem
isto, toda liberao epistemolgica corre o risco de ser ilus-
ria ou limitada, propondo apenas comodidades prticas ou
simplificaes nacionais sobre fundamentos que no so afe-
tados pela crtica. Tal , sem dvida, o limite do notvel
empreendimento de I. J. Gelb (op. cit.): apesar de imensos
progressos, apesar do projeto de instaurar uma cientificidade
gramatolgica e de criar um sistema unificado de noes sim-
ples, flexveis e manejveis, apesar da excluso de conceitos
inadequados - tal como o de ideograma - a maior parte
das oposies conceituais que acabamos de evocar continuam
a funcionar nele com toda a segurana.
Adivinha-se, porm, atravs de trabalhos recentes, o que
dever ser um dia a extenso de uma gramatologia chamada
a no mais receber seus conceitos diretores de outras cincias
humanas ou, o que vem a dar quase no mesmo, da metafsica
tradicional. Isto se adivinha atravs da riqueza e da novidade
da informao, e de seu tratamento tambm, mesmo se a con-
1 04 GRAMATOLOGIA
ceitualizao permanece muitas vezes, nestas obras de arrom-
bamento, aqum de um arete audacioso e seguro.
O que aqui nos parece anunciar-se  que, de um lado,
a gramatologia no deve ser uma das cincias humanas e, de
outro lado, que no deve ser uma cincia regional entre outras.
Ela no deve ser uma das cincias do homem, porque
coloca de incio, como sua questo prpria, a questo do no-
me do homem. Liberar a unidade do conceito do homem ,
sem dvida, renunciar  velha idia dos povos ditos "sem
~scritura" e "sem histria". A. Leroi-Gourhan mostra-o bem:
recusar o nome de homem e o poder de escritura fora de sua
comunidade  um nico e mesmo gesto. Na verdade, aos
povos ditos "sem escritura" nunca falta mais que um certo
tipo de escritura. Recusar a tal ou qual tcnica de consigna-
o o nome de escritura, tal  o "etnocentrismo, que melhor
define a viso pr-cientfica do homem" e faz, ao mesmo
tempo, que "em numerosos grupos humanos, a nica palavra
pela qual os membros designam seu grupo tnico  a palavra
`homem' " (GP. 11, p. 32 e passim).
Mas no basta denunciar o etnocentrismo e definir a
unidade antropolgica pela disposio da escritura. Assim,
A. Leroi-Gourhan no mais descreve a unidade do homem e
da aventura r~umana pela simples possibilidade da grafia em
geral: mas antes como uma etapa ou uma articulao na
histria da vida - do que denominamos aqui a diferncia -
como histria do grama. Em vez de recorrer aos conceitos
que servem habitualmente para distinguir o homem dos outros
viventes (instinto e intelgncia, ausncia ou presena da fala,
da sociedade, da economia, ete., ete.), apela-se aqui  noo
de programa. Deve-se entend-la, certamente, no sentido da
ciberntica, mas esta mesma s  inteligvel a partir de uma
histria das possibilidades do rastro como unidade de um
duplo movimento de proteno e reteno. Este movimento
transborda largamente as possibilidades da "conscincia in-
tencional". Esta  uma emergncia que faz aparecer o grama
como tal (isto , segundo uma nova estrutura de no-presen-
a) e sem dvida possibilita o surgimento dos sistemas de
escritura no sentido estrito. Da "inscrio gentica" e das
"curtas cadeias" programticas regulando o comportamento
da ameba ou do aneldeo at a passagem para alm da escri-
tura alfabtica s ordens do logos e de um certo homo sapiens,
a possibilidade do grama estrutura o movimento de sua his-
tria segundo nveis, tipos, ritmos rigorosamente originaisn.
27. Cf. GP, II, pp. 12 e ss., 23 e ss., 262 e ss.
DA GRAMATOLOGIA COMO CIENCIA POSITIVA 105
,Mas no se pode pens-los sem o conceito, mais geral, de
grama. Este  irredutvel e inexpugnvel. Se se aceitasse a
expresso arriscada por A. Leroi-Gourhan, poder-se-ia falar
de uma "liberao da memria", de uma exteriorizao do
rastro, comeada desde sempre mas cada vez maior, que, dos
programas elementares dos comportamentos ditos "instinti-
ves" at a constituio dos fichrios eletrnicos e das mcui-
nas de leitura, amplia a diferncia e a possibilidade da estoca
gem (mise en rserve): esta constitui e apaga ao mesmo tem-
po, no mesmo movimento, a subjetividade dita consciente,
seu logos e seus atributos teolgicos.
A histria da escritura se erige sobre o fundo da hist-
ria do grama como aventura das relaes entre a face e a
mo. .Aqui, por uma precauo cuio esquema temos de re-
petir incessantemente, precisemos que a histria da escritura
no  explicada a partir do que acreditamos saber da face e
da mo, do olhar, da fala e do gesto. Ao contrrio, trata-se
de desorganizar este saber familiar, e de despertar, a partir
desta histria, o sentido da mo e da face. A. Leroi-Gourhan
descreve a lenta transformao da motricidade manual que
liberta o sistema audiofnico para a fala, o olhar e a mo
para a escritura2s.  difcil, em todas estas descries, evitar
a linguagem mecanicista, tecnicista, teleolgica, no momento
exato em que se trata precisamente de reencontrar a origem
e a possibilidade do movimento, da mquina, da tekhn, da
orientao em geral. Para dizer a verdade, isto no  difcil,
 por essncia impossvel. E o  para todo discurso. De um
discurso a outro, a diferena aqui s pode ser a de modo de
habitao no interior de uma conceitualidade prometida ou
j submetida ao arruinamento. Nela e j sem ela, deve-se
tentar aqui re-apreender a unidade do gesto e da fala, do
corpo e da linguagem, da ferramenta e do pensamento, antes
de articular-se a originalidade de um e de outro e sem que
esta unidade profunda d origem ao confusionismo. No se
deve confundir estas significaes originais na rbita do sis-
tema onde se opem. Mas deve-se, pensando a histria dc
sistema, exceder em alguma parte, de maneira exorbitante,
o seu sentido e o seu valor.
Acede-se ento a esta representao do anthropos: equi-
lbrio precrio ligado  escritura manovisual~'. Este equil-
brio  lentamente ameaado. Sabe-se, pelo menos, que "ne-
nhuma alterao maior", gerando um "homem futuro" que
28. I, p. 119 e ss.
29. P. 161 e ss.
1 06 GRAMATOLOGIA
no mais seria um "homem", "j no pode quase produzir-se
sem a perda da mo, da dentio e, por conseguinte, da
posio erecta. Uma humanidade anodonte e que viveria dei-
tada, empregando o que lhe restasse dos membros anteriores
para apertar botes, no  completamente inconcebvel"~.
O que ameaa desde sempre este equilbrio confunde-se
com o mesmo que enceta a linearidade do smbolo. Vimos
que o conceito tradicional do tempo, toda uma organizao
do mundo e da linguagem eram solidrios com isto. A es-
critura no sentido estrito - e principalmente a escritura fo-
ntica - enraizam-se num passado de escritura no-linear.
Foi preciso venc-lo e pode-se, se assim se quiser, falar aqui
de xito tcnico: garantia uma maior segurana e maiores
possibilidades de capitalizao num mundo perigoso e angus-
tiante. Mas isto no se fez de uma vez. Instalou-se uma
guerra, e um recalque de tudo o que resistia  linearizao.
E de incio do que Leroi-Gourhan denomina "mitograma",
escritura que soletra seus smbolos na pluridimensionalidade:
nele o sentido no est sujeito  sucessividade,  ordem do
tempo lgico ou  temporalidade irreversvel do som. Esta
pluridimensionalidade no paralisa a histria na simultanei-
dade, ela corresponde a uma outra camada da experincia
histrica e pode-se tambm considerar, inversamente, o pen-
samento linear como uma reduo da histria.  verdade
que ento seria preciso, talvez, empregar um outro termo: o
de histria foi, sem dvida, associado sempre a um esquema
linear do desenrolamento da presena, quer sua linha rela-
cione a presena final  presena originria segundo a reta
ou segundo o crculo. Pela mesma razo, a estrutura simb-
lica pluridimensional no se d na categoria do simultneo.
A simultaneidade coordena dois presentes absolutos, dois
pontos ou instantes de presena, e permanece um conceito
linearista.
O conceito de linearizao  muito mais eficaz, fiel e
interior do que os utilizados habitualmente para classificar
as escrituras e descrever a sua histria (pictograma, ideogra-
ma, letra, etc.). Denunciando mais de um preconceito, em
particular quanto s relaes entre o ideograma e o pictograma,
quanto ao pretenso "realismo" grfico, Leroi-Gourhan lembra
a unidade, no mitograma, de tudo aquilo cuja disrupo 
marcada pela escritura linear: a tcnica (a grfica, em par-
30. P. 183. Remetemos tambm ao Eloge de la main, de H. Focillon, e
ao livro de Jean Brun, La main er l'esprit. Num contexto totalmente diferente,
designamos, em outro lugar, a poca da escfitura como a suspenso do esfar-
-de-p ("Fora e SiRnijtcao" e "A palavra soprada", em A Escritura e a Dije.
rena).
DA GRAMATOLOGIA COMO ClNCIA POSITIVA
ticular), a arte, a religio, a economia. Para reencontrar o
acesso a esta unidade, a esta outra estrutura de unidade, 
preciso des-sedimentar "quatro mil anos de escritura linear"31.
A norma linear no pode jamais impor-se de maneira
absoluta pelas mesmas razes que, de seu interior, limitaram
o fonetismo grfico. Agora as conhecemos: estes limites sur-
giram ao mesmo tempo que a possibilidade do que limi-
tavam, eles abriam o que acabavam e ns j os nomeamos:
discrio, diferncia, espaamento. A produo da norma
linear pesou, portanto, sobre estes limites e marcou os con-
ceitos de smbolo e linguagem. Deve-se pensar conjuntamen-
te o processo de linearizao, tal como Leroi-Gourhan o
descreve numa vasta escala histrica e a crtica jakobsoniana
do conceito linearista de Saussure. A "linha" representa
apenas um modelo particular, qualquer que seja seu privil-
gio. Este modelo veio a ser modelo e conserva-se, enquanto
modelo, inacessvel. Se sP d por aceito que a linearidade da
linguagem no prescinde deste conceito vulgar e mundano da
temporalidade (homognea, dominada pela forma do agora
e pelo ideal do movimento contnuo, reto ou circular), que
Heidegger mostrou determinar do interior toda a ontologia,
de Aristteles a Hegel, a meditao da escritura e a descons-
truo da histria da filosofia tornam-se inseparveis.
O modelo enigmtico da linha , portanto, aquilo mesmo
que a filosofia no podia ver enquanto tinha os olhos abertos
sobre o dentro da sua prpria histria. Esta noite se desfaz
um pouco no momento em que a linearidade - que no  a
perda ou a ausncia, mas o recalcamento do pensamento sim-
blico pluridimensional32 - afrouxa sua opresso porque
comea a esterilizar a economia tcnica e cientfica que, du-
rante muito tempo, ela favoreceu. Desde muito tempo, com
efeito, a sua possibilidade foi estruturalmente solidria com
a da economia, da tcnica e da ideologia. Esta solidariedade
aparece nos processos de entesouramento, de capitalizao,
de sedentarizao, de hierarquizao, da formao da ideo-
logia pela classe dos que escrevem, ou antes, dos que dispem
dos escribas33. No que a reapario macia da escritura no-
31. Tomo I, cap. IV. O autor mostra a, em particular, que "assim como
a emergncia da agricuttura no se faz sem interveno de estados anteriores,
a da escritura no se faz tampouco a partir de um nada grfico" (p. 278);
e que "a ideografia  anterior  pictografia" (p. 280).
32. Talvez se possam interpretar assim certas observaes de Leroi-Gourhan
sobre a "perda dv pensamento simblico muttidimensional" e sobre o pensa-
mento que "se afasta da linguagem linearizada" (I, pp. 293-299).
33. Cf. EP, pp. 138-139. G. P. I., pp. 238-250. "O desenvolvimento das
primeiras cidades no corresponde apenas  apario do tcnico do fogo mas...
a escritura naace ao mesmc` tempo que a metalurgia. Ainda aqui, no se trata
de uma coincidncia. . . ' (I, p. 252). "~ no momento em que comea a esta-
1 08 GRAMArOLOGIA
-linear interrompa esta solidariedade estrutural; muito ao
contrrio. Mas ela transforma profundamente a sua natureza.
O fim da escritura linear  efetivamente o fim do livro3
,
mesmo que, ainda hoje, seja na forma do livro que se dei-
xam - bem ou mal - embainhar novas escrituras, quer se-
jam literrias ou tericas. Alis, trata-se menos de confiar
ao envlucro do livro escrituras inditas do que de ler, enfim,
o que, nos volumes, j se escrevia entre as linhas. ~ por isso
que, comeando-se a escrever sem linha, rel-se tambm a
escritura passada segundo uma outra organizao do espao,
Se o problema da leitura ocupa hoje a dianteira da cincia,
 em virtude deste suspenso entre duas pocas da escritura.
Porque comeamos a escrever, a escrever de outra maneira,
devemos reler de outra maneira.
Desde h mais de um sculo, pode-se perceber esta in-
quietude da filosofia, da cincia, da literatura, cujas revolu-
es devem todas ser interpretadas como abalos destruindo
pouco a pouco o modelo linear. Entendamos o modelo pico.
O que se d hoje a pensar no pode ser escrito segundo a
belecer-se o capitalismo agrrio qua aparece o meio de fix-lo numa contabilidade
escrita e  tambm no momento em que se afirma a hierarquizao social que
a escritura constri as suas primeiras genealogias" (p. 253). "A apario da
escritura no  fortuita; depois de milnios de amadurecimento nos sistemas
de representao mitogrfica emerge, com o metal e a escravido, a notao
linear do pensamento (ver cap. VI). Seu contedo no  fortuito" (II p. 67,
cf. tambm pp. 161-162).
Embora seja hoje muito mais bem conhecida e descrita, esta solidariedade
estrutural, notadamente entre a capitalizao e a escritura, foi reconh^cida desde
muito tempo: entre vrios outros, por Rousseau, Court de Gebelin, Engels ete.
34. Portanto, a escritura linear "constituiu, durante vrios milnios, inde-
pendentemente de seu papel de conservador da memria coletiva, por seu desen-
rolamento numa s dimenso, o instrumento de anlise de onde saiu o pensa-
mento filosfico e cientfico. A conservao do pensamento pode agora ser
concebida de outro modo do que nos livros, que ainda conservam, apenas por
pouco tempo, a vantagem de seu rpido manuseio. Uma vasta `magnetoteca' de
seleo eletrbnica fornecer, num futuro prximo, a informao pr-selecionada
e restituda instantaneamente. A leitura conservar sua importncia durante
sculos ainda, apesar de uma sensvel regresso para a maioria dos Homens,
mas a escritura [entendamo-la no sentido de inscrio linear] est verossimil-
mente convidada a desaparecer depressa, substituda por aparelhos-ditafone de
impresso automtica. Deve-se ver nisso uma espcie de restituio do
estado
anterior ao avassalamento fonttco da mo? Pensaria antes que se trata de
um aspecto do fenmeno geral de regresso manual (v. p. 60) e de uma nova
'liberao'. Quando s conseqncias a longo prazo sobre as formas do racio-
cinio, sobre uma volta ao pensamento difuso e multidimensional, so imprevisveis
no ponto em que estamos. O pensamento cientfico , antes, molestado pela
Necessidade de estirar-se na fieira tipogrfica e  certo que, se algum procedi-.
mento permitisse apresentar os livros de modo que a matria dos diferentes
capftulos se oferecesse simultaneamente sob todas as suas incidncias, os
autores e seus usurios encontrariam nisso uma vantagem considervel. E certo,
contudo, que, se o raciocnio cientfico no tem, sem dvida, nada a perder
com a desapario da escritura, no h dvida de que a filosofia, a literatura,
vero as suas formas evolurem. Isto no  especialmente lamentvel, uma
vez que o impresso conservar as formas de pensar curiosamente arcaicas, que
os homens tero usado durante o perodo do grafismo alfabtico; quanto s
formas novas, estaro para as antigas como o ao para o slex, sem dvida
no um instrumento mais cortante, mas um instrumento mais manejvel. A
escritura passar  infra~strutura sem alterar o funcionamento da inteligncia,
como uma transio que ter tido atguns milnios de primazia" (GP, II, pp.
261-262. Cf. tambm EP, Conclustons).
DA GRAMATOLOGIA COMO CIENCIA POSITIVA 109
Unha e o livro, a no ser que se imitasse a operao que
consistiria em ensinar as matemticas modernas com o aux-
lio de um baco. Esta inadequao no  moderna, mas
hoje se denuncia melhor do que nunca. O acesso  pluri-
dimensionalidade e a uma temporalidade des-linearizada no
 uma simples regresso ao "mitograma": ao contrrio, faz
toda a racionalidade sujeita ao modelo linear aparecer como
uma outra forma e uma outra poca da mitografia. A meta-
-racionalidade ou a metacientificidade que asslm se anunciam
na meditao da escritura no podem, portanto, encerrar-se
numa cincia do homem, assim como no podem responder
 idia tradicional da cincia. De um s e mesmo gesto, elas
transpem o homem, a cincia e a linha.
Menos ainda esta meditao pode manter-se nos limites
de uma cincia regional.
A CHARADA E A CUMPLICIDADE DAS ORIGENS
Mesmo que fosse uma grafologia. E mesmo uma gra-
fologia renovada, fecundada pela sociologia, pela histria, pela
etnografia, pela psicanlise.
"J que os traados individuais revelam particularidades de esp-
rito de quem escreve, os traados nacionais devem permitir, numa
certa medida, pesquisar particularidades do esprito coletivo dos
povos."35
Uma tal grafologia cultural, por legtimo que seja o seu
projeto, apenas poder ver a luz e proceder com alguma
segurana no momento em que problemas mais gerais e mais
fundamentais tiverem sido elucidados: quanto  articulao
de uma grafia individual e de uma grafia coletiva, do "dis-
curso", se se pode dizer, e do "cdigo" grficos, considerados
no do ponto de vista da inteno de significao ou da deno-
tao, mas do estilo e da conotao; quanto  articulao das
formas grficas e das diversas substncias, das diversas for-
mas de substncias grficas (as matrias: madeira, ceras, pele,
pedra, tinta, metal, vegetal) ou de instrumentos (ponta, pin-
cel, etc., etc. ) ; quanto  articulao do nvel tcnico, econv-
35 A XXIIe Semaine de Synrhse colquio cujo contedo foi recolhido
em L'crirure et la psychologie des peuples, foi colocada sob o signo desta
cbservao de Marcel Cohen (La grande invenrion de 1'criture er son voluriore~.
Mas a cada instante as ricas comunicaes apresentadas durante o colquio
apontam para alm do propsito grafolgico. O prprio M. Cohen reconhece
a dificuldade e o carter prematuro de uma tal tarefa: "Evidentemente, no
podemos entrar no caminho da grafologia dos povos: seria por demais delicado,
por demais difcil. Mas podemos formular esta idia, de que as diferenas no
se devem unicamente a razes tcnicas, pode haver outra coisa... ' (p. 342).
1 1 0 GRAMATOLOGIA
mico ou histrico (por exemplo, no momento em que
constituiu um sistema grfico e no momento, que no  nes-
cessariamente o mesmo, em que se fixou um estilo grficoc
quanto ao limite e ao sentido das variaes de estilos no inte
rior do sistema; quanto a todos os investmentos a que  su
metida uma grafia, na sua forma e na sua substncia.
Deste ltimo ponto de vista, dever-se-ia reconhecer um
certo privilgio a uma pesquisa do tipo pscanaltico. En
equanto diz respeito  constituio originria da objetividac
e do valor do objeto -  constituio dos bons e dos maus
objetos como categorias que no se deixam derivar de una
ontologia formal terica e de uma cincia da objetividade e
objeto em geral - a psicanlise no  uma simples cincia
regional, ainda que, como seu nome o indica, ela se apresente
sob o ttulo da psicologia. Que ela faa empenho desse t
tulo certamente no  indiferente e assinala um certo estadoo
da crtica e da epistemologia. Contudo, ainda que a psicanlise
no alcanasse a transcendentalidade - sob rasura -
do arqui-rastro, ainda que ela se conservasse uma cincia
mundana, sua generalidade teria um sentido arcntico cor
respeito a toda cincia regional. Pensamos aqui, evidente
mente, em pesquisas que se empenhariam na direo das d
Mlanie Klein. Encontrar-se-ia um exemplo no ensaio sobr
O papel da escola no desenvolvimento libidinal da criana=
36. Texto de 1923, recolhido nos Essais de psychanatyse, pP. 95 e ss., c
traduo francesa. Destacamos algumas de suas linhas: "Quando Fritz escrevi~
para ele as linhas representavam estradas e as tetras circulavam sobre elas, sen4
das em motocicletas, isto . na caneta. Por exemplo, o 'i' e o 'e' rodavam junte
numa motocicleta dirigida habitualmente pelo 'i', e amavam-se com uma ternur
cempktamente desconhecida no mundo real. Como rodavam sempre junto,
haviam-se totnado to semelhantes que no havia quase nenhuma diferena entr
eles, pois o comeo e o fim do ' e do `e' eram semelhantes (ele falava da
minsculas do alfabeto latino), e era apenas no meio que o 'i' tinha um traci
nho e o `e' um buraquinho. No que se refere s tetras 'i' e 'e' do alfabet
gtico, explicou que elas tambm rodavam numa motocicleta; o que as distingui
das letras latinas era alguma coisa como uma otra marca de motocicteta, e
fato de que o `e' tinha uma caixinha no luear do buraco do `e' latino. O
'i' eram destros, inteligentes e muita distintos, possuam muitas armas,
pontudas
e viviam em grutas entre as quais, contudo, havia tambm montanhas,
jardins
e portas. Representavam o pnis, e seu caminho representava o coito. D
outro lado, os '1' foram descritos como estpidos, desajeitados, preguiosos
sujos. Viviam em grutas subterrneas. Na cidade dos `I', a poeira e os
papis
empilhavam-se nas ruas; em suas casinhas 'asquerosas', misturavam com
gua
uma tintura comprada na terra dos 'i'; bebiam dessa mistura e vendiam-na so
o nome de vinho. Tinham dificuldades para andar e no podiam cavar
terra porque seguravam a enxada ao contrrio, d~ cabea para baixo etc
Ficou evidente que o 't' represeniava as fezes. Numerosas fantasias"
diziam
respeito igualmente s outras letras. Assim, ao invs de duplo `s' ete nunc
 Equivaknte ao termo francs janrasme, cuja apario data do sculo XI
(com o sentido de "iluso") mas que s voltou a ser corrente, aps long
intervalo, em nosso sculo, com a psicanlise. Valemo-nos, em francs, de se
termo pouco usual ("fantasma" diz-se "phantme") e de seu arcasmo par
~raf-lo com ph, evitando tambm, desta maneira, outras confuses. Trata-s
de "roteiro imaginrio em que o sujeito est presente e que figura, de mod
mais ou menos deformado pelos processos defensivos, a efetivao de um desej
e, em ttima instncia, de um desejo inconsciente" (Vocabulaire de la P.sychc
nalyse). (N. dos T.)
DA GRAMATOLOGIA COMO CIfNCIA POSITIVA III
que evoca, de um ponto de vista clnico, todos os investimen-
tos de que so carregadas as operaes da leitura e da escri-
tura, a produo e o manuseio do algarismo etc. Na medida
em que a constituio da objetividade ideal deve essencial-
mente passar pelo significante escrito~'', nenhuma teoria desta
constituio tem o direito de negligenciar os investimentos da
escritura. Estes investimentos no retm apenas uma opa-
cidade na idealidade do objeto, eles permitem a liberao
desta idealidade. Do esta fora sem a qual uma objetividade
em geral no seria possvel. No nos dissimulemos a gravi-
dade de uma tal afirmao e a imensa dificuldade da tarefa
assim atribuda  teoria da objetividade, bem como  psica-
nlise. Mas a Necessidade est na mesma medida que a
dificuldade.
 no seu trabalho mesmo que o historiador da escritura
encontra esta Necessidade. Seus problemas apenas podem
ser retomados na raiz de todas as cincias. A reflexo sobre a
essncia do matemtico, do poltico, do econmico, do religio-
so, do tcnico, do jurdico etc., comunica da maneira mais
interior com a reflexo e a informao sobre a histria da
escritura. Ora, continua o veio que circula atravs de todos
estes campos de reflexo e constitui a sua unidade fundamen-
tinha escrito seno um, at que uma fantasia permitiu explicar e afastar esta
inibio. O 's' era ete mesmo, o outro era seu pai. Deviam embarcar juntos
num barco a motor, pois a pena era tambm um barco, e o caderno um
lago. O 's' que era e1e mesmo subiu no barco que pertencia ao outro `s' e
partiu rapidamente no lago. Era por isso que ele no escrevia iuntos os dois
's'. O uso freqente que ele fazia do 's' simples, no lugar do 's' longo, devia-se
ao fato seguinte: omitia-se assim uma parte do 's' longo, e isto era para ele 'como
se se roubasse o nariz de uma pessoa'. Este erro era provocado, portanto, pelo
desejo de castrar o pai; desapareceu depois desta interpretao" No podemos
ritar aqui todos os exemplos anlogos analisados por M. Klein. ~ Leiamos ainda
esla passagem de valor mais geral: "Para Ernest como para Fritz, pude observar
que sua inibio face  escritura e  leitura, bases de toda a atividade escolar
ulterior, provinha da letra 'i' que, com seu movimento simples de 'subida' e
de 'redescida', constitui de fato o fundamento de toda escritura (nota: Duranre
oma reunio da Sociedade de Psicanlise de Herlim, Herr Rohr examina.a
alguns pormenores da escritura chinesa e de sua interpretao psicanaltica. Na
discusso que se seguiu, indiquei que a escritura pictogrfica antiga, fundamento
de nossa escritura, ainda est viva nas fantasias de cada criana em particular,
de modo aue os diversos traos, pontos, ete., de nossa escritura seriam apenas
simplificaes resultantes de condensaes, de destocamentos e de mecanismos
rnm os 4uais os sonhos e as neuroses nos familiarizaram, - simplificas de
pictogramas antiBvs dos quais restariam, contudo, rastros no indivduo). A
significao simbblica sexuat da caneta aparece nestes exemplos... pode-se
observar que o sentido simblico sexual da caneta se espalha no ato de escrever,
desearregando-se nele. Da m~sma forma, a significao libidinal da leitura
provm do investimento simbblico do livro e do olho. Outros elementos forne-
cidos pelas componentes pulsionais tambm agem aqui,  claro: o fato de
'olhar por uma abertura' na Ieitura, as tendncias exibicionistas, agressivas e
sdicas na escritura; na origem da significao sexual simblica da caneta, h
provavelmente a da arma e da mo. Digamos ainda que a atividade da leitura
 mais passiva, a da escritura mais ativa, e que diveras fixaes nos estgios
de organizao pr-genitals tm um papel importante nas inibies que atingem
esta ou aquela" (p. 98 da traduo francesa). Cf. tambm Ajuriaguerra,
Coumes, Denner, Lavonde-Monod, Perron, Stambak, L'criture de 1'enJanr, 1964.
37. Cf. Husserl, A origem da geomerria.
1 1 2 GRAMATOLOGIA
tal,  o problema da fonetizao da escritura. Esta fonetiza
o tem uma histria, nenhuma escritura est absolutament
isenta dela, e o enigma desta evoluo no se deixa dominar
pelo conceito de histria. Este aparece, sabe-se, num mo
mento determinado da forietizao da escritura e a pressupe
de maneira essencial.
O que nos ensina a este respeito a informao mais
macia, mais recente e menos contestvel? Inicialmente que
por razes estruturais ou essenciais, uma escritura puramemte
fontica  impossvel e nunca terminou de reduzir o no-fo
ntico. A distino entre a escritura fontica e a escritura
no-fontica, por indispensvel e legtima que seja, permanece
muito derivada em relao ao que se poderia denominar uma
sinergia e uma sinestesia fundamentais. Segue-se que no
apenas o fonetismo no  nunca onipotente mas tambm que
comeou desde sempre a trabalhar o significante mudo. "Fo
ntico" e "no-fontico" no so, portanto, nunca as quali
dades puras de certos sistemas de escritura, so os caracteres
abstratos de elementos tpicos, mais ou menos numerosos
dominantes, no interior de todo sistema de significao em
geral. Sua importncia, alis, diz respeito menos  sua dis
tribuio quantitativa do que  sua organizao estruturl.
O cuneiforme~wpor exemplo, e simultaneamente ideogramtico
e fontico. E no se pode nem mesmo dizer que cada signi
ficante grfico pertence a esta ou quela classe, o cdigo
cuneiforme movendo-se alternativamente nos dois registros.
Na verdade, cada forma grfica pode ter um duplo valor -
ideogrfico e fontico. E seu valor fontico pode ser simples
ou complexo. Um mesmo significante pode ter um ou vrios
valores fnicos, pode ser homfono ou polfono. A essa com
plexidade geral do sistema acrescenta-se ainda um recurso
sutil a determinativos categoriais, a complementos fonticos
inteis na leitura, a uma pontuao muito irregular. E R
Labat mostra que aqui  impossvel compreender o sistema
sem passar pela sua histria38.
Isto  verdade para todo sistema de escritura e no de
pende do que s vezes se considera, apressadamente, com
nveis de elaborao. Na estrutura de uma narrativa picto
grfica, por exemplo, uma representao de coisa, tal como
um braso totmico, pode adquirir um valor simblico de
nome prprio. A partir deste momento, enquanto denomi
nao, ela pode funcionar em outros encadeamentos com un
38. L'criture cunijorme et la civilisation msopotamtenne, EP, pp. 7
e ss.
DA GRAMATOLOGIA COMU CINCIAPOSITIVA 113
valor fontico39. Sua estratificao pode, assim, tornar-se
muito complexa e transbordar a conscincia emprica ligada
a seu uso imediato. Transbordando esta conscincia atual, a
estrutura deste significante pode continuar a operar, no ape-
ns nas franjas da conscincia potencial, mas segundo a cau-
salidade do inconsciente.
V-se que o nome, em singular o nome dito grprio,
est sempre preso numa cadeia ou num sistema de diferenas.
Somente se torna denominao na medida em que se pode
inscrever numa figurao. O prprio do nome no escapa ao
espaamento, quer seja ligado por sua origem a representa-
es de coisas no espao ou permanea preso num sistema de
diferenas fnicas ou de classificao social aparentemente
desligado do espao corrente. A metfora trabalha o nome
prprio. O sentido prprio no existe, sua "aparncia"  uma
funo necessria - e que se deve analisar como tal - no
sistema das diferenas e das metforas. A parusia absoluta
do sentido prprio, como presena a si dos logos na sua
voz, no ouvir-se-falar absoluto, deve ser situada como uma
funo respondendo a uma indestrutvel mas relativa Neces-
sidade, no interior de um sistema que a compreende. Isto vem
a situar a metafsica ou a onto-teologia do logos.
O problema da charada de transferncia resume toda a
dificuldade. Uma representao de coisa pode encontrar-se
investida, enquanto pictograma, de um valor fontico. Este
no apaga a referncia "pictogrfica" que, alis, nunca foi
simplesmente "realista". O significante quebra-se ou estre-
la-se em sistema: remete ao mesmo tempo, e pelo menos, a
uma coisa e a um som. A coisa , nela mesma, um con-
,
junto de coisas ou uma cadeia de diferenas "no espao"~
o som, que  tambm inscrito numa cadeia, pode ser uma
palavra: a inscrio  ento ideogramtica ou sinttica, no
39. A. Miraux, Les primitis, siKnaux et symboles pictogrammes et pro-
tocrirure. Um exemplo, entre tantos outros do que Mtraux denomina "esboo
de fonetismo": "Assim, o chefe Cheyenne que se chama 'tartaruga-seguindo-sua-
mea' ser re,presentado por um personagem encimado por duas tartarugas.
'Homenzinho' ser identificado a uma silhueta de criana desenhada sobre sua
cabea. Esta expresso dos nomes prbprios faz-se com poucas dificuldades
quando se trata de coisas concretas mas  uma dura prova para a imaginao
do escriba se este deve transmitir pela pictografia idias abstratas Para trans-
crever o nome de um indivlduo chamado grandeestrada', um fndio Oglagla
recorreu  seguinte combinao simblica: traos Daralelos com pegadas fazem
pensar na 'estrada', um p intado perto desta evoca a rapidez que ,
ssaro p
evidentemente um dos atributos das 'boas-estradas'. E claro que apenas os
nue j conh:cem os nomes correspondentes a estes smbolos esto em condies
de decifr'-los. Neste titulo, esses desenhos teriam portanto, um valor mnemo-
tcnico. Tomemos, como outro exemplo, o nome prbprio `Boa-doninh . Da
boca do animal, desenhado de maneira realista saem dois traos ondulados
que normalmente simbolizam a torrente das palavras Este signo sendo utilizado
para os 'bons discursos', supe-se que o leitor reter apenas o adjetivo e esque-
cer a idia de discurso", EP, pp. 10-11.
114 GRAMATOLOGIA
se deixa decompor; mas o som tambm pode ser um ele-
mento atmico entrando por sua vez em composio: lida-
-se ento com uma escritura de aparncia pictogrfica e na
verdade fontico-analtica do mesmo tipo que o alfabeto. O
que se sabe agora da escrita dos Astecas.. do Mxico parece
abranger todas estas possibilidades.
"Assim, o nome prprio Tocaltitlan  decomposto em vrias
slabas que so produzidas pelas imzgens seguintes: lbios (tenrli),
rua (otlim), casa (calli) e finalmente dente (tlanri). O procedimento
liga-se estreitamente a este... que consiste em sugerir o nome de
uma personagem pelas imagens dos seres ou das coisas que entram
na composio de seu nome. Os Astecas foram mais adiante na via
d.o fonetismo. Conseguiram transmitir atravs de imagens sons se-
parados recorrendo a uma verdadeira anlise fontica"4~
Os trabalhos de Barthel e de Knorosov sobre os glifos
maias no chegam a resultados concordantes, seus progres-
sos permanecem muito lentos, mas a presena de elementos
fonticos  hoje quase certa. O mesmo se d com a escri-
tura da ilha da Pscoa4l. No apenas esta seria picto-ideo-
-fonogrfica, mas no interior mesmo de suas estruturas no-
-fonticas a equivocidade e a sobredeterminao podem dar
lugar a metforas retomadas em todo o seu peso por uma
verdadeira retrica grjica, se se pode arriscar esta expres-
so absurda.
A complexidade desta estrutura, descobrimo-la hoje em
escrituras ditas "primitivas" e em culturas que se acreditava
"sem escritura". Mas sabamos h muito tempo que a escri-
tura chinesa ou japonesa, que so maciamente no-fonti-
cas, comportaram bem cedo elementos fonticos. Estes per-
maneceram estruturalmente dominados pelo ideograma ou
pela lgebra e temos assim o testemunho de um poderoso
movimento de civilizao desenvolvendo-se fora de todo logo-
centrismo. A escritura no reduzia a voz nela mesma, ela
ordenava-a num sistema:
"Esta escritura recorreu mais ou menos aos emprstimos fon-
ticos, certos signos sendo empregues por seu som independentemente
do seu sentido original. Mas este emprego fontico dos signos nunca
pde ser to amplo a ponto de alterar em seu princpio a escritura
chinesa e encaminh-la na via da notao fontica... A escritura
no tendo alcanado na China uma anlise fontica da linguagem,
nunca pde ser sentida como um decalque mais ou menos fiel da
fala e  por isso que o signo grfico, smbolo de uma realidade nica
40. EP, p. 12.
41. EP, p. 16. A. Mtraux resume nesse lugar, esquematicamente. os
resultados dos Grundlagen zur Entzijlerung der Osterinselschrijt de Barthel.
DA GRAMATOLOGIA COMO CIENCIA POSITIVA 115
e singular como ele prprio, conservou muito do seu prestgio pri-
mitivo. No cabe acreditar que a fala no tenha tido antigamenre
na China a mesma eficcia que a escritura. mas sua potncia pode
ter sido parcialmente eclipsada pela do escrito. Ao contrrio nas
civilizaes onde a escritura~ evoluiu bastante cedo para o silabrio
ou o alfabeto, foi o verbo que concentrou em si, em definitivo, todas
as potncias da criao religiosa e mgica. E, com efeito,  notvel
que no se encontre na China esta valorizao espantosa da fala.
do verbo, da slaba ou da vogal que  atestada em todas as grandes
civilizaes antigas, da bacia mediterrnea  India"4~.
~ difcil no subscrever globalmente esta anlise. Obser-
vemos, contudo, que ela parece considerar a "anlise fontica
da linguagem" e a escritura fontica como um "resultado"
normal, como um telos histrico em vista do qual, assim como
um navio a caminho de um porto, a escritura chinesa fra-
cassou em algum lugar. Ora, pode-se pensar que o sistema
da escritura chinesa seja assim uma espcie de alfabeto ina-
cabado? De outro lado, J. Gernet parece explicar o "pres-
tgio primitivo" do grafismo chins por sua relao "sim-
blica" com uma "realidade nica e singular como ele". Ora,
no  evidente que nenhum significante, quaisquer que sejam
sua substncia e sua forma, tem "realidade nica e singular"?
Um significante , de incio de jogo, a possibilidade de sua
prpria repetio, de sua prpria imagem ou semelhana. 
esta a condio de sua idealidade, o que o faz reconhecer
como significante e o faz funcionar como tal, referindo-o a
um significado que, pelas mesmas razes, no poderia nunca
ser uma "realidade nica e singular". Desde que o signo apa-
rece, isto , desde sempre, no h nenhuma oportunidade de
encontrar em algum lugar a pureza da "realidade", da "uni-
cidade", da "singularidade". Enfim, com que direito supor
que a fala haja podido ter, "antigamente", antes do nasci-
mento da escritura chinesa, o sentido e o valor que lhe conhe-
cemos no Ocidente? Por que a fala teria tido de ser "eclip-
sada" pela escritura? Se se quer tentar pensar, arrombar o
que, sob o nome de escritura, separa muito mais do que tc-
nicas de notao, no  necessrio despojar-se tambm, entre
outros pressupostos etnocntricos, de uma espcie de mono-
genetismo grfico que transforma todas as diferenas em afas-
tamentos ou atrasos, acidentes ou desviaes? E no  ne-
cessrio meditar este conceito heliocntrico da fala? E a
semelhana do logos ao sol (ao bem ou  morte que no se
pode encarar de frente), ao rei ou ao pai (o bem ou o sol
42. J. Gernet, La Chine Aspeefs et Jonerions ps7'rholoRi4ue.r de 1'crirure.
in EP, pp. 32 e 38. (O Krifo  nosso.) Cf. tambm M. Granet, La pen.c~e
chinoise, 1950. cap. I.
1 1 6 GRAMATOLOGIA
inteligvel so comparados ao pai na Repblica, 508 c)? O
que deve ser a escritura para ameaar este sistema analgico
emseu centro vulnervel e secreto? O que deve ser a escri-
tura para significar o eclipse do que  bem e do que  pai?
No  preciso deixar de considerar a escritura como o ecligse
que vem surpreender e ofuscar a glria do verbo? E, se h
alguma Necessidade de eclipse, a relao da sombra e da luz,
da escritura e da fala, no deve ela mesma aparecer de outra
maneira?
De outra maneira: o descentramento necessrio no pode
ser um ato filosfico ou cientfico enquanto tal, j que aqui se
trata de descolocar, pelo acesso a outro sistema ligando a
fala e a escritura, as categorias fundadoras da lngua e d gra-
mtica da episteme. A tendncia natural da teoria - do que
une a filosofia e a cincia na episteme - impelir antes a
tapar as brechas do que a forar a clausura. Era normal que
o arrombamento fosse mais seguro e mais penetrante do lado
da literatura e da escritura potica; normal tambm que soli-
citasse inicialmente e fizesse vacilar, como Nietzsche, a auto-
ridade transcendental e a categoria mestra da episteme: o
ser. Este  o sentido dos trabalhos de Fenollosa43 cuja in-
fluncia sobre Ezra Pound e sua potica  sabida: esta po-
tica irredutivelmente grfica era, com a de Mallarm, a pri-
meira ruptura da mais profunda tradio ocidental. A fas-
cinao que o ideograma chins exercia sobre a escritura de
Pound adquire assim toda a sua significao historial.
Desde que a fonetizao se deixa interrogar na sua ori-
gem, na sua histria e nas suas aventuras, v-se seu movi-
mento confundir-se com os da cincia, da religio, da poltica,
da economia, da tcnica, do direito, da arte. As origens destes
movimentos e destas regies histricas no se dissociam, como
43. Questionando uma a uma as estruturas lgico-gramaticais do Ocidente
(e de incio a lista das categorias de Aristteles), mostrando que nenhuma
descrio correta da esctura chinesa pode toler-las, Fenollosa lembrava que a
poesia chinesa era essenciahnents uma escritura. Notava, por exemplo: "Se
desejarmos empreender o estudo preciso da poesia chinesa, ser-nos- preciso...
guardarmo-nos da gramtica ocidental, de suas estritas categorias de linguagem,
de sua complacncia para com os nomes e os adjetivos. Precisaremos buscar,
ou pelo menos ter sempre em mente, as ressonncias do verbo em cada nome.
Evitaremos o `' para introduzir um tesouro de verbos desdenhados. A maior
parte das tradues transgridem todas estas regras. O desenvolvimento da frase
transitiva normal apia-se no fato de que na natureza uma ao deterwina
outra; assim, a causa e o objeto so, na realidade, veibos. Por exemplo, nossa
frase 'a leitura determina a escritura' seria exprimida explicitamente em chins
por trs verbos Uma forma tal  o equivalente de trs ocaes desenvolvidas
e que podem ser apresentadas em locues adjetivas, participais, infinitlvas ou
condicionais. Um exemplo entre outros: `Se algum l, isto o ensina a escrever'.
Outro: `Aquele que l torna-se aquele que escreve'. Mas, na primeira forma
condensada, um chins escreveria: `Ler determina escrever' " ("L'criture chi~
noise considre comme art potique", traduo francesa in Mesures, outubro
de 1937, n4 4, p. 135).
DA GRAMATOLOGIA COMO CINCIAPOSIilVA 117
devem faz-lo para a delimitao rigorosa de cada cincia,
seno por uma abstrao de que devemos permanecer cons-
cientes e que devemos praticar com vigilncia. Pode-se de-
nominar arquiescritura esta cumplicidade das origens. O
que se perde nela , portanto, o mito da simplicidade da
origem. Este mito est ligado ao prprio conceito de origem:
 fala recitando a origem, ao mito da origem e no apenas
aos mitos de origem.
Que o acesso ao signo escrito garanta o poder sagrado de
fazer perseverar a existncia no rastro e de conhecer a estru-
tura geral do universo; que todos os cleros, exercendo ou
no um poder poltico, se tenham constitudo ao mesmo tem-
po que a escritura e pela disposio da potncia grfica;
que a estratgia, a balstica, a diplomacia, a agricultura, a
fiscalidade, o direito penal, se liguem em sua histria e na sua
estrutura  constituio da escritura; que a origem atribuda
 escritura o tenha sido segundo esquemas ou cadeias de mi-
temas sempre anlogos nas mais diversas culturas e que tenha
comunicado, de maneira complexa mas regulada, com a dis-
tribuio do poder poltico assim como com a estrutura fam-
lial; que a possibilidade da capitalizao e da organizao
poltico-administrativa tenha sempre passado pela mo dos
escribas que anotaram o que esteve em jogo em numerosas
guerras e cuja funo foi sempre irredutvel, qualquer que
fosse o desfile das delegaes nas quais se pde v-la  obra;
que, atravs das defasagens, das desigualdades de desenvol-
vimento, do jogo das permanncias, dos atrasos, das difuses
etc., permanea irredutvel a solidariedade entre os sistemas
ideolgico, religioso, cientfico-tcnico etc., e os sistemas de
escritura que foram, portanto, mais que, e outra coisa que,
"meios de comunicao" ou veculos do significado; que o
sentido mesmo do poder e da eficcia em geral, que no pde
aparecer enquanto tal, enquanto sentido e dominao (por
idealizao), seno com o poder dito "simblico", tenha sido
sempre ligado  disposio da escritura; que a economia,
monetria ou pr-monetria, e o clculo grfico sejam co-
-originrios, que no haja direito sem possibilidade de rastro
(seno, como mostra H. Lvy-Bruhl, de notao no sentido
estrito), tudo isto remete a uma possibilidade comum e radi-
cal que nenhuma cincia determinada, nenhuma disciplina
abstrata, pode pensar como tal44,
44. Naturalmente, no podemos pretender descrever aqui a. massa infinita
do contedo factual que intitulamos neste pargrafo. A ttulo indicativo e
preliminar, remetemos aos trahalhoa seguintes, cada um dos quais contm uma
importante bibliografia: J. Fvrier, M. Granet, M. Cohen, M. V.-David, op. `W .
Cf. tambm A. Mtraux, artsgo citado. FP, p. 19 (ver a interveno de C~
118 GRAMATOLOGIA
Deve-se entender bem aqui esta incompetncia da cin-
cia, que  tambm a incompetncia da filosofia, a clausura
da episteme. Acima de tudo, elas no reclamam uma volta a
uma forma pr-cientfica ou infrafilosfica do discurso. Mui-
to ao contrrio. Esta raiz comum, que no  uma raiz mas a
esquivana da origem e que no  comum porque apenas
volta ao mesmo com a insistncia to pouco montona da
diferena, este movimento inomevel da dif erena-mesma, que
alcunhamos estrategicamente de rastro, reserva ou diferncia,
apenas se poderia denominar escritura na clausura histrica,
isto , nos limites da cincia e da filosofia.
A constituio de uma cincia ou de uma filosofia da
escritura  uma tarefa necessria e difcil. Mas, chegando a
estes limites e repetindo-os sem interrupo, um pensamento
do rastro, da dferncia ou da reserva deve tambm apontar
para alm do campo da episteme. Fora da referncia econ-
mica e estratgica ao nome que Heidegger justifica dar hoje
a uma transgresso anloga mas no idntica de todo filo-
sofema, pensamento  aqui para ns um nome perfeitamente
neutro, um branco textual, o ndex necessariamente indeter-
minado de uma poca por vir da diferncia. De um certo
modo, o "pensamento" no quer dizer nada. Como toda
abertura, este ndex pertence, pela face nele que se d a
ver, ao dentro de uma poca passada. Este pensamento no
pesa nada. Ele , no jogo do sistema, aquilo mesmo que
nunca pesa nada. Pensar  o que j sabemos no ter ainda
comeado a fazer: o que, medido conforme a estatura da
escritura, enceta-se somente na episteme.
Gramatologia, este pensamento se conservaria ainda en-
cerrado na presena.
Dierterlen p. 19 e a de M. Cohen, p. 27); J. Gernet, artigo citado, pp. 29,
33, 37, 38, 39, 43; J. Sainte Fare Garnot, Les biroglyphea, I'volution des
critures gvptinres, EP, pp. 57, 68, 70; R. Labat, artigo citado, pp.
77, 78, 82, 83; O. Masson, La civilisarion genne, Les crirures crtoises er
mycniennes, EP, p. 99 E. Laroche, L'Asie mineure, les Hittites, peuple d
double criture, EP, pp.~ 105-111, 113. M. Rodinson, Ies smires et I'alphaber,
Les critures sud-arabiques et thiopiennes, EP, pp. 136 a 145. J. Fitliozat,
Les critures indiennes, Le monde indien et .con sysrme graphique, EP, p. 148.
H. Lvy-Bruhl, L'criture et le droit, EP, pp. 325-333. Ver tambm EP, ConJron-
rarions et conclusions, pp. 335 e ss.
II. Natureza, Cultura, Escritura
"Eu me sentia como se tivesse cometido um
incesto".
Cnnjes.sion.r
Introduo  "Epoca de
Rousseau"
"Temos um rgo que corresponde ao da
audio, a saber, o da voz: no temos, porm,
um que corresponda  viso, e no emitimos
cores como emitimos sons. Este  mais um
meio para cultivar o primeiro sentido. exerci-
tando-se mutuamente o rgo ativo e o rgo
passivo.''
E~nile
Fiando-se na organizao de uma leitura clssica, dir-
-se-ia, talvez, que acahamos de propor uma dupla grade:
histrica e sistemtica. Finjamos acreditar nesta oposio.
Faamo-lo por comodidade, pois esperamos que agora estejam
bastante claras as razes de nossa suspeio. Ora, como nos
preparamos para tratar daquilo que, empregando a mesma
linguagem e com igual desconfiana, denominamos um "exem-
plo", devemos agora justificar nossa escolha.
Por que conceder  "poca de Rousseau" um valor
"exemplar"? Qual  o privilgio de Jean-Jacques Rousseau
na histria do logocentrismo? O que se indica debaixo deste
nome prprio? E que lugar tm as relaes entre este nome
prprio e os textos aos quais foi assim subscrito? A estas
questes no pretendemos fornecer mais do que um comeo
de resposta; talvez apenas um comeo de elaborao, limi-
tado  organizao preliminar da questo. Este trabalho se
apresentar progressivamente. No podemos, portanto, jus-
tific-lo por antecipao e prefcio. Tentemos, contudo, uma
abertura.
1 22 GRAMATOLOGIA
Se a histria da metafsica  a histria de uma deter-
minao do ser como presena, se a sua aventura se confunde
com a do logocentrismo, se ela se produz inteiramente como
reduo do rastro, a obra de Rousseau parece-nos ocupar,
entre o Fedro de Plato e a Enciclopdia de Hegel, uma
situao singular. Qu significam esses trs pontos de refe-
rncia?
Entre a abertura e a efetivao filosfica do fonologismo
(ou logocentrismo), o motivo da presena articulou-se de
uma maneira decisiva. Sofreu uma modificao interior cujo
ndice mais vistoso seria o momento da certeza no cogito
cartesiano. A identidade da presena oferecida  dominao
da repetio havia-se constitudo anteriormente sob a forma
"objetiva" da idealidade do eidos ou da substancialidade da
ousia. Esta objetvidade assume desde agora a forma da
representao, da idia como modificao de uma substncia
presente a si, consciente e certa de si no instante de sua
relao a si. No interior de sua forma mais geral, a domi-
nao da presena adquire uma espcie de asseguramento
infinito. O poder de repetio que o eidos e a ousia torna-
varn disponvel parece adquirir uma independncia absoluta.
A idealidade e a substancialidade relacionam-se consigo mes-
mas, no elemento da res cogitans, por um movimento de pura
auto-afeo. A conscincia  experincia de pura auto-afe-
o. Ela diz-.se infalvel e, se axiomas da luz ~atural lhe do
esta certeza, sobrepujam a provocao do Gnio Maligno e
provam a existncia de Deus,  porque constituem o elemento
mesmo do pensamento e da presena a si. Esta no  desor-
denada pela origem divina destes axiomas. A alteridade infi-
nita da substncia divina no se interpe como um elemento
de mediao ou de opacidade na transparncia da relao a
si e na pureza da auto-afeo. Deus  o nome e o elemento
do que possibilita um saber de si absolutamente puro e abso-
lutamente presente a si. O entendimento infinito de Deus
 o outro nome do logos como presena a si, de Descartes
a Hegel e apesar de todas as diferenas que separam os dife-
rentes lugares e momentos n estrutura desta poca. Ora,
o logos apenas pode ser infinito e presente a si, apenas pode
produzir-se como auto-afeco, atravs da voz: ordem de sig-
nificante pelo qual o sujeito sai de si em si, no toma fora
de si o significante que ele emite e que o afeta ao mesmo
tempo. Tal  pelo menos a experincia - ou conscincia
- da voz: do ouvir-se-falar. Ela vive-se e diz-se como
excluso da escritura, a saber do apelo a um significante "ex-
terior", "sensvel", "espacial", interrompendo a presena a si.
INTRODUO  "EPOCA DE ROUSSEAU" 123
Ora, no interior desta poca da metafsica, entre Des-
cartes e Hegel, Rousseau , sem dvida, o nico ou o pri-
meiro a fazer um tema e um sistema da reduo da escritura,
tal como era profundamente implicada por toda a poca.
Repete o movimento inaugural do Fedro e do Da interpre-
tao, mas desta vez a partir de um novo modelo da pre-
sena; a presena a si do sujeito na conscincia ou no senti-
mento. O que ele exclua mais violentamente do que qual-
quer outro devia, bem entendido, fascin-lo e atorment-lo
mais do que a qualquer outro. Descartes expulsara o signo -
e singularmente o signo escrito - para fora do cogito e da
evidncia clara e distinta; sendo esta a presena mesma da
idia  alma, nela o signo era acessrio, abandonado  regio
do sensvel e da imaginao. Hegel reapropria o signo sen-
svel no movimento da Idia. Critica Leibniz e elogia a escri-
tura fontica no horizonte ce um lagas absolutamente presente
a si, que se mantm perto de si na unidade de sua fala e de
seu conceito. Mas nem Descartes nem Hegel se bateram com
o problema da escritura. O lugar deste combate e desta
crise  o que se denomina o sculo XVIII. No somente por-
que restaura os direitos da sensibilidade, da imaginao e do
signo, mas porque as tentativas de tipo leibniziano haviam
aberto uma brecha na segurana logocntrica. Ser preciso
trazer  luz aquilo que, nestas tentativas de caracterstica uni-
versal, limitava de incio de jogo a potncia e a extenso do
arrombamento. Antes de Hegel e em termos explcits, Rous-
seau condenou a caracterstica universal; no por causa do
fundamento teolgico que ordenava a sua possibilidade ao
entendimento infinito ou logos de Deus, mas porque parecia
suspender a voz. "Atravs" desta condenao, pode-se ler
a mais enrgica reao organizando no sculo XVIII a defesa
do fonologismo e da metafsica logocntrca. O que ameaa,
ento,  precisamente a escritura. Esta ameaa no  aci-
dental e desordenada: faz compor num nico sistema histrico
os projetos de pasigraf ia, a descoberta das escrituras no-euro-
pias ou, em todo caso, os progressos macios das tcnicas de
decifrao, a idia, enfim, de uma cincia geral da linguagem
e da escritura. Contra todas estas presses, abre-se ento
uma guerra. O "hegelianismo" ser a sua mais bela cicatriz.
Os nomes de autores ou de doutrinas no contam aqui
com nenhum valor substancial. No indicam nem identida-
des nem causas. Seria leviano pensar que "Descartes", "Leib-
niz", "Rousseau", "Hegel" ete., so nomes de autores, os no-
mes dos autores de movimentos ou de deslocamentos que
1 24 GRAMATOLOGIA
designamos assim. O valor indicativo que lhes atribumos 
de incio o nome de um problema. Se nos autorizamos pro-
visoriamente a tratar desta estrutura histrica fixando nossa
ateno em textos de tipo filosfico ou literrio, no  para
neles reconhecer a origem, a causa ou o equilbrio da estru-
tura. Mas, como no pensamos tampouco que esses textos
sejam simples efeitos da estrutura, em qualquer sentido que
isto seja entendido; como pensamos que todos os conceitos
propostos t agora para pensar a articulao de um ~liscurso
e de uma totalidade histrica esto presos na clausura meta-
ffsica que questionamos aqu, como no conhecemos outro e
no produziremos nenhum outro enquanto esta clausura ter-
minar nosso discurso; como a fase primordial e indispensvel,
de fato e de direito, no desenvolvimento desta problemtica,
consiste em interrogar a estrutura interna desses textos como
sintomas; como esta  a nica condio para determin-los
a si mesmos, na totalidade de sua pertencena metafsica, da
tiramos argumento para isolar Rousseau e, no rousseausmo,
a teoria da escritura. Esta abstrao , alis, parcial e
permanece provisria a nossos olhos. Mais adiante, aborda-
remos diretamente este problema numa "questo de mtodo".
Para alm destas justificaes macias e preliminares,
seria preciso invocar outras urgncias. No campo do pensa-
mento ocidental, e notadamente na Frana, o discurso domi-
nante - denominemo-lo "estruturalismo" - permanece pre-
so hoje, por toda uma camada de sua estratificao, e s
vezes pela mais fecunda, na metafsica - o logocentrismo
- que ao mesmo tempo, se pretende, ter, como se diz to
depre,ssa, "ultrapassado" Se escolhemos o exemplos dos tex-
tos de Claude Lvi-Strauss, se escolhemos partir deles e deles
receber a incitao a uma leitura de Rousseau,  por mais do
que uma razo: por causa da riqueza e do interesse terico
desses textos, do papel animador que desempenham atual-
mente, mas tambm do lugar que neles ocupam a teoria da
escritura e o tema da fidelidade a Rousseau. Assim, eles
sero aqui um pouco mais do que uma epgrafe.
1. A Violncia da Letra de
Lvi-Strauss a Rousseau
Falarei agora da escritura'? No, tenho
vergonha de divertir-me com estas bagatelas
num tratado sobre a educao.
Emile on dc I'edncaNon
Ela [a escritura] parece antes favorecer a
explorao dos homens do que ilumin-los...
A escritura e a perfdia penetravam de co-
mum acordo entre eles.
("t.io de escritura", in Tris~es Trpico.c. )
A metafsica constituiu um sistema de defesa exemplar
contra a ameaa da escritura. Ora, o que  que liga a escri-
tura  violncia? O que deve ser a violncia, para que algo
nela iguale a operao do rastro?
E por que fazer jogar esta questo na afinidade ou na
filiao que encadeiam Lvi-Strauss a Rousseau?  dificul-
dade de justificar esse estreitamento histrico, acrescenta-se
uma outra: o que  a descendncia na ordem do discurso e
do texto? Se, de maneira algo onvencional, denominamos
aqui discurso a representao atual, viva, consciente de um
texto na experincia dos que o escrevem ou lem, e se o
texto transborda sem cessar esta representao por todo o
sistema de seus recursos e leis prprias, ento a questo ge-
nealgica excede amplamente as possibilidades que hoje nos
so dadas de elabor-la. Sabemos que ainda est vedada
a metfora que descreveria infalivelmente a genealogia dum
texto. Em sua sintaxe e em seu lxico, no seu espaamento,
1 26 GRAMATOLOGIA
por sua pontuao, suas lacunas, suas margens, a pertencena
histrica de um texto no  nunca linha reta. Nem causali-
dade de contgio. Nem simples acumulao de camadas.
Nem pura justaposio de peas emprestadas. E, se um texto
se d sempre uma certa representao de suas prprias razes,
estas vivem apenas desta representao, isto , de. nunca to-
carem o solo. O que destri sem dvida a sua essncia radi-
cal, mas no a Necessidade de sua f uno enraizante. Dizer
que nunca se faz mais do que entrelaar as razes ao infi-
nito, dobrando-as at faz-las enraizarem-se em razes, pas-
sarem de novo pelos mesmos pontos, redobrarem antigas ade-
rncias, circularem entre suas diferenas, enrolarem-se sobre
si mesmas ou volverem-se reciprocamente, dizer que um texto
nunca  mais do que um sistema de razes,  sem dvida
contradizer ao mesmo tempo o conceito do sistema e o esque-
ma da raiz. Mas, por no ser uma pura aparncia, esta con-
tradio. adquire sentido de contradio e recebe seu "ilo-
gismo" apenas se for pensada numa configurao finita - a
histria da metafsica - presa no interior de um sistema de
razes que no se termina a e que ainda no tem nome.
Ora, a conscincia de si do texto, o discurso circuns-
crito onde se articula a representao genealgica (por exem-
plo, um certo "sculo XVIII" que Lvi-Strauss constitui ao
reclamar a sua insero nele), sem confundir-se com a pr-
pria genealogia, desempenha, precisamente por este afasta-
mento, um papel organizador na estrutura do texto. Mesmo
que se tivesse o direito de falar de iluso retrospectiva, esta
no seria um acidente ou um detrito terico; dever-se-ia dar
conta de sua Necessidade e de seus efeitos positivos. Um
texto tem sempre vrias idades, a leitura deve tomar partido
quanto a elas. E esta representao genealgica de si j ,
ela mesma, representao de uma representao de si: o que
o "sculo XVIII francs", por exemplo e se existe algo como
tal, construa j como sua prpria provenincia e sua prpria
presena.
O jogo destas pertencenas, to manifesto nos textos da
antropologia e das "cincias humanas", produz-se nteiramente
no interior de uma "histria da metafsica"? Fora em algum
lugar a sua clausura? Tal , talvez, o horizonte mais amplo
das questes que aqui sero apoiadas em alguns exemplos.
Aos quais podem-se dar nomes prprios: os detentores do
discurso, Condillac, Rousseau, L.vi-Strauss; ou nomes co-
muns: os conceitos de anlise, de gnese, de origem, de natu-
reza, de cultura, de signo, de fala, de escritura ete.; enfim, o
nome comum de nome prprio.

A VIOLNCIA DA LETRA: DE LVI-STRAUSS A ROUSSEAU 125
O fonologismo , sem dvida, no interior tanto da lin-
gstica como da metafsica, a excluso ou o rebaixamento da
escrituca. Mas  tambm a autoridade atribuda a uma cin-
cia que se deseja considerar como o modelo de todas as cin-
cias ditas humanas. Nestes dois sentidos o estruturalismo de
Lvi-Strauss  um fonologismo. O que j abordamos, quanto
aos "modelos" da lingstica e da fonologia, proibe-nos assim
contornar uma antropologia estrutural sobre a qal a cincia
fonolgica exerce uma fascinao to de~arada: por exem-
plo, em Linguagem e parentesco, que seria preciso interrogar
linha por linha.
"O nascimento da fonologia subverteu esta situao. Ela no
renovou apenas as perspectivas lingsticas: uma transformao dessa
amplitude no est limitada a uma disciplina particular. A fonologia
no pode deixar de desempenhar, perante as cincias sociais, o mesmo
papel renovador que a fsica nuclear, por exemplo, desempenhou no
conjunto das cincias exatas" (p. 47).
Se desejssemos elaborar aqui a questo do modelo, seria
preciso levantar todos os "como" e os "igualmente" que pon-
tuam a demonstrao, regendo e autorizando a analogia entre
o fonolgico e o sociolgico, entre os fonemas e os termos
de parentesco. "Analogia impressionante", -nos dito, mas
cujo funcionamento do.s "como" nos mostra bem depressa que
se trata de uma muito certa mas muito pobre generalidade de
leis estruturais, dominando sem dvida os sistemas considera-
dos, mas tambm, muitos outros, e sem privilgio: fonologia
exemplar como o exemplo na srie e no como o modelo
regulador. Mas, sobre este terreno, foram colocadas as ques-
tes, articuladas as objees, e como o fonologismo episte-
molgico erigindo uma cincia como padro supe o fonolo-
gismo lingstico e metafsico elevando a voz acima da escri-
tura,  este ltimo que tentaremos reconhecer de incio.
Pois Lvi-Strauss escreveu sobre a escritura. Poucas p-
ginas, sem dvda2, mas notves sob vrios aspectos: bels-
smas e feitas para espantar, enunciando na forrna do para-
1. Na Antrepologia Estrutural (traduo brasileira de Chaim S. Katz e
Eginardo Pires, Rio de Janeiro. Tempo Brasileiro, 1%7). Cf. tambm Introduc-
tion d 1'oeuvre de Mauss, p. XXXV.
2. So inicialmente os Tris!~es Trpicos, (trad. de Wilson Martins, So
Paulo, Anhembi), ao longo de toda esta "Lio de escritura" (cap. XXIII)
cuja substnica terica se reencontra no segundo dos Eutretiens avec Claude
Lvi-Strauss (G. Charbonnier) (Primitijs et civiliss). Trata-se tambm da
Ar.tropoloeia estrutural ("Problemas de mtodo e de ensino", notadamente no
captulo dizendo do "critrio de autenticidade", p. 407). Enfim, de maneira
menos direta, no Pensarnento selvagem, sob um ttulo sedutor, O tempo redes-
ccberto. (As citaes referem-se a O Pensamento selvagem, traduo de Maria
Celeste da Costa e Souza e Alxnir de Oliveira Aguiar, Editora Nacional e
Editora da USP, So Paulo, 1970.)
1 28 GRAMATOLOGIA
doxo e da modernidade o antema que o Ocidente obstina-
damente retomou, a excluso pela qual ele se constituiu e se
reconheceu, desde o Fedro at o Curso de lingstica geral.
Outra razo para reler Lvi-Strauss: se j o experimen-
tamos no  possvel pensar a escritura sem cessar de se fiar,
como numa evidncia bvia, em todo o sistema das diferenas
entre a physis e seu outro (a srie de seus "outros": a arte,
a tcnica, a lei, a instituio; a sociedade, a imotivao, o
arbitrrio etc. ) e em toda a conceitualidade que se lhe ordena,
deve-se seguir com a mxima ateno o procedimento inquieto
de um cientista que ora, em tal etapa de sua reflexo, apia-se
nesta diferena, e ora nos conduz a seu ponto de apagamento:
"A oposio entre natureza e cultura, sobre a qual outrora
insistimos, nos parece, hoje, oferecer um valor principalmente
metodolgico"3. Sem dvida, Lvi-Strauss nunca foi seno de
um ponto de apagamento a outro. J As estruturas elemen-
tare.s do parentesco ( 1949 ), comandadas pelo problema da
proibio do incesto, creditavam a diferena apenas em volta
de uma costura. Uma e outra, com is.so, no se tornavam
seno mais enigmticas. E seria temerrio decidir se a cos-
tura - a proibio do incesto -  uma estranha exceo que
se viria a encontrar no sistema transparente da diferena,
um "fato", como diz Lvi-Strauss, com o qual "nos achamos
ento confrontados" ( p. 9 ) ; ou, ao contrrio, a origem da
diferena entre natureza e cultura, a condio, fora de sis-
tema, do sistema da diferena. A condio seria um "escn-
dalo" apenas se se desejasse compreend-la no sistema de
que ela  precisamente a condio.
"Suponhamos ento que tudo o que  universal, no homem,
deriva da ordem da natureza e se caracteriza pela espontaneidade,
que tudo o que est adstrito a uma norma pertence  cultura e
apresenta os atributos do relativo e do particular. Achamo-nos, ento.
confrontados com um fato, ou antes um conjunto de fatos, que no
est longe,  luz das definies precedentes, de aparecer como um
escndalo: ... pois a proibio do incesto apresenta sem o menor
equvoco, e indissoluvelmente reunidos, os dois caracteres onde reco-
nhecemos os atributos contraditrios de duas ordens exclusivas: ela
constitui uma regra, mas uma regra que, nica entre todas as regras
sociais, possui ao mesmo tempo um carter de universalidade" (p. 9).
Mas o "scndalo" s apareceria num certo momento da
anlise: quando, renunciando a uma "anlise real" que nunca
nos proporcionar diferena entre natureza e cultura, passa-
va-se a uma "anlise ideal" permitindo definir o "duplo cri-
trio da norm e da universalidade". ~, portanto, a partir
3. O pensamento setvagem, p. 282, ef. tambm p. 153.
A VIOLENCIA DA LETRA: DE LVI-STRAUSS A ROUSSEAU 129
da confiana feita  diferena entre as duas anlises que o
escndalo adquiria sentido de escndalo. Que significava esta
confiana? Ela aparecia-se a si mesma como o direito do
cientista a empregar "instrumentos de mtodo" cujo "valor
lgico"  antecipado, em estado de precipitao com respeito
ao "objeto",  "verdade" etc., daquilo em vista do que a
cincia est em trabalho. So estas as primeiras palavras -
ou quase - das Estruturas:
... comea-se a compreender que a distino entre estado de
natureza e estado de sociedade (diramos hoje de melhor grado:
estado de natureza e estado de cultura), na falta de uma significao
histrica aceitvcl, apresenta um valor que justifica plenamente sua
utilizao, pela sociologia moderna, como um instrumento de m-
todo" (p. 1).
V-se: quanto ao "valor principalmente metodolgico"
dos conceitos de natureza e de cultura, no h nem evoluo
nem, acima de tudo, arrependimento, das Estruturas ao Pen-
samercto Selvagem. Nem tampouco quanto a este conceito de
instrumento de mtodo: nas Estruturas, ele anuncia muito
precisamente o que,_ mais de dez anos depois, nos ser dito
da bricolagem, d.as ferramentas como "meios  mo", "con-
servados em virtude do princpio de que `isto pode sempre
servir' ". "Como a bricolagem, no plano tcnico, a reflexo
mtica pode atingir, no plano intelectual, resultados brilhantes
e imprevistos. Reciprocamente, foi muitas vezes notado o
carter mitopotico da bricolagem" (pp. 37 a 39 ) . Restaria
 claro, perguntar-se se o etnlogo se pensa como "engenhei-
ro" ou como bricolador. Le cru et le cuit apresenta-se como
"o mito da mitologia" ("Prefcio", p. 20).
Contudo, o apagamento da fronteira entre natureza e
cultura no  produzido, das Estruturas ao Pensamento Sel-
vagem, pelo mesmo gesto. No primeiro caso, trata-se antes
de respeitar a originalidade de uma sutura escandalosa. No
segundo caso, de uma reduo, por preocupada que seja em
no "dissolver" a especificidade do que analisa:
... no seria bastante reabsorver humanidades particulares
uma humanidade geral; esta primeira empresa esboa outras, que
Rousseau [cuja `clarividncia habitual' Lvi-Strauss acaba de louvar]
no teria de to boa mente admitido e que incumbem s cincias
exatas e naturais: reintegrar a cultura na natureza, e, finalmente, a
vida no conjunto de suas condies fsico-qumicas" (p. 282).
Conservando e anulando, ao mesmo tempo, oposies
conceituais herdadas, este pensamento mantm-se, portanto,
130 GRAMATOLOGIA
como o de Saussure, nos limites: ora no interior de uma con-
ceitualidade no criticada, ora pesando sobre as clausuras e
trabalhando na desconstruo.
Enfim, e esta ltima citao nos conduz necessariamente
a este ponto, por que Lvi-Strauss e Rousseau? Esta con-
juno dever justificar-se progressivamente e do interior.
Mas j se sabe que Lvi-Strauss no se sente apenas em
harmonia com Jean-Jacques, seu herdeiro pelo corao e
pelo que se poderia denominar o afeto terico. Ele tambm
se apresenta, freqentemente, como o discpulo moderno de
Rousseau, l-o como o instituidor e no apenas como o pro-
feta da etnologia moderna. Poderiam ser citados cem textos
para a glria de Rousseau. Lembremos contudo, no final do
Totemi.smo hoje, este captulo sobre o "Totemismo de dentro":
"fervor militante" "para com a etnografia", "clarividncia
espantosa" de Rousseau que, "mais avisado que Bergson" e
"antes mesmo da descoberta do totemismo" "penetrou naquilo
que abre a possibilidade do totemismo em geral" (p. 147),
a saber:
1. a piedade, esta afeo fundamental, to primitiva
quanto o amor de .si, e que nos une naturalmente a outrem:
ao homem, certamente, mas tambm a todo ser vivo.
2. a essncia originariamente metafrica, porque pas-
sional, diz Rousseau, de nossa linguagem. O que autoriza
aqui a interpretao de Lvi-Strauss  este Essai sur l'ori-
gine des langues de que tentaremos mais tarde uma leitura
paciente: "Como os primeiros motivos que fizeram o ho-
mem falar foram paixes [e no necessidades], as suas pri-
meiras expresses foram tropos. A linguagem figurada foi
a primeira a nascer" (cap. III). ~ ainda no "Totemismo de
dentro" que o segundo Discurso  definido como "o primeiro
tratado de antropologia geral com que conta a literatura fran-
cesa. Em termos quase modernos, Rousseau a coloca o pro-
blema central da antropologia, que  o da passagem da na-
tureza  cultura" (p. 142). Mas eis a homenagem mais sis-
temtica: "Rousseau no se limitou a prever a etnologia: ele
fundou-a. Inicialmente de modo prtico, escrevendo este
Discaurs sur l'origine et hs fondements de l'ingalit parmi
les hommes que colo~a o problema das relaes entre a na-
tureza e a cultura, e onde se pode ver o primeiro tratado de
etnologia geral; e depois no plano terico, distinguindo, com
clareza e conciso admirveis, o objeto prprio do etnlogo
do objeto do moralista e do historiador: "Quando se deseja
estudar os homens,  preciso olhar perto de si; mas, para
A VIOLf,NCIA DA LETRA: DE LEVI-STRAUSS A ROUSSEAU 131
estudar o homem,  preciso aumentar o alcance da vista;
impe-se primeiro observar as diferenas, para descobrir as
propriedades" (Essai sur l'origine des langues, cap. VIII)4.
Assim, h a um rousseausmo declarado e militante.
Ele j nos impe uma questo muito geral que orientar mais
ou menos diretamente todas as nossas leituras: em que me-
dida a pertencena de Rousseau  metafsica logocntrica e
 filosofia da presena - pertencena que j pudemos reco-
nhecer e cuja figura exemplar teremos de desenhar - designa
limites a um discurso cientfico? Retm ela necessariamente
em sua clausura a disciplina e a fidelidade rousseaustas de
um etnlogo e de um terico da etnologia moderna?
Se esta questo no bastasse para encadear ao nosso pro-
psito inicial o desenvolvimento que se seguir, dever-se-ia
talvez voltar:
1 . a certa digresso sobre a violncia que no sobre-
vm do fora, para surpreend-la, a uma linguagem inocente,
que sofre a agresso da escritura como o acidente de seu
mal, de sua derrota e de sua queda; mas violncia originria
de uma linguagem que  desde sempre uma escritura. Em
momento algum, portanto, no se contestar Rousseau e Lvi-
-Strauss quando estes ligam o poder da escritura ao exerc-
cio da violncia. Mas, radicalizando este tema, deixando de
considerar esta violncia como derivada com respeito a uma
fala naturalmente inocente, faz-se virar todo o sentido de
uma proposio - a unidade da violncia e da escritura -
que se deve, portanto, evitar abstrair e isolar.
2. a certa outra elipse sobre a metafsica ou a onto-
-telogia do logos (por excelncia no seu momento hegeliano)
como esforo impotente e onrico para dominar a ausncia
reduzindo a metfora na parusia absoluta do sentido. Elipse
sobre a escritura originria na linguagem como irredutibilidade
da metfora, que  preciso pensar aqui na sua possibilidade
e aqum da sua repetio retrica. Ausncia remdivel do
nome prprio. Rousseau acreditava, sem dvida, numa lin-
guagem iniciando-se na figura, mas veremos bem que nem por
isso deixava de acreditar num progresso em direo ao sen-
tido prprio. "A linguagem figurada foi a primeira a nascer" '
diz, mas  para acrescentar: "o sentido prprio foi encontrado
4. "lean-Jacques, Rousseau, fondateur des seences de I'homme", p. ?A0.
Trata-se de uma conferncia includa no volume Jean-Jacques Rousseau - La
Baconnire - 1%2 Reconhece-se aqui um tema caro a Merleau-Ponty: o
trabalho etnolgico iealiza a variao imaginria  busca do invariante essencial.
132 GRAMATOLOGIA
por ltimo" (Essai, cap. IlI)5.  a esta escatologia do
prprio (prope, proprius, proximidade a si, presena a si,
propriedade, limpeza ( propret) ) que formulamos a questo
do rFWEw.
A GUERRA DOS NOMES PRPRIOS
Mas como distinguir, por escrito, um
homem que se nomeia de um que se chama'?
No h dvida de que este  um equvoco
que seria sanado pelo ponto vocativo.
E.ssai sur I'ori,~inc dc'.s lan,t,'uc.s
Remontar, agora, dos Tristes trpicos ao E.s'.srli .rur I'ori-
gine des Ian~iles, da "Lio de escritura" dada  lio de escri-
tura recusada por aquele que tinha "vergonha de divertir-se"
com as "bagatelas" da escritura num tratado sobre a educao.
Nossa questo ser, talvez, mais bem delimitada: dizem eles
a mesma coisa? Fazem a mesma coisa?
Nestes Tristes trpicos que so ao mesmo tempo Con-
fessions e uma espcie de suplemento ao Se~pplnrent clcl voyage
de Bougairlville, a "Lio de escritura" marca um episdio
do que se poderia denominar a guerra etnolgica, a confron-
tao essencial que abre a comunicao entre os povos e as
culturas, mesmo quando esta comunicao no se pratica sob
o signo da opresso colonial ou missionria. Toda a "Lio
de escritura"  relatada no registro da violncia contida ou
diferida, violncia surda s vezes, mas sempre opressora e
pesada. E que pesa em diversos lugares e diversos momentos
da relao (relation ) : no relato de Lvi-Strauss como na rela-
o (rapport) entre indivduos e grupos, entre culturas ou no
interior de uma mesma comunidade. Que pode significar a
relao  escritura nestas diversas instncias da violncia?
Penetrao entre os Nhambiquara. Afeo do etnlogo
por aqueles a quem consagrou, sabe-se, uma de suas teses,
La vie familiale et sociale des Indiervs Namikwara (1848).
S. A idia da linguagem originariamente fi~urada estava bastante difun-
dida nesta poca: ela se encontra particularmente em Warburton e em Condillac,
cuja influncia sobre Rousseau , aqui, maciu. Em Vico: B. Ga~nebin e M.
Raymond perguntaram-se, a reapeito do ssoi .sur I'oriRine des langues,
se Rousseau no teria tido a Scienza Nuora yuando era se~retrio de Montaigu
em Veneza. Mas, se Roussaau e Vico afirmam ambos a natureza metafrica
das lnguas primitivas, apenas Vico lhes atribui esta origem divina, tema de
desacordo tambm entre Condillac e Rousseau. Alm disso, Vico  ento um
dos raros, seno o mico, a acreditar na contemporaneidade de origem entre a
escritura e a fala: "Os filsofos acreditaram muito erradamente, yue nasc^ram
primeiro as lnguas e mais tarde a escritura; muito ao contrrio, nasceram
gmeas e caminharam paralelamente" (Scienza Nuova 3, I). Cassirer no
hesita em afirmar yue Rousseau "retomou", no ssai, as teorias de Vico sobre
a linguagem (Philosophie der .synnbolischen Formen, I, I, 4).
p VlOLENCIA DA LETRA: DE LEVI-STRAUSS A ROUSSEAU 133
Penetrao, portanto, no "mundo perdido" dos Nhambiquara,
"pequeno bando de indgenas nmades que esto entre os mais
primitivos que se possam encontrar no mundo" em "um ter-
ritrio do tamanho da Frana", atravessado por uma picada*
(pista grosseira cujo "traado"  quase "indiscernvel do ma-
to": seria preciso meditar conjuntamente a possibilidade da
estrada e da diferena como escritura, a histria da escritura
e a histria da estrada, da ruptura, da via rupta, da via rom-
pida, varada, fracta, do espao de reversibilidade e de repetio
traado pela abertura, pelo afastamento e espaamento vio-
lento da natureza, da floresta natural, selvagem, selvagem.
A silva  selvagem, a via rupta escreve-se, discerne-se, ins-
creve-se violentamente como diferena, como forma imposta
na hyl, na floresta, na madeira como matria;  difcil ima-
ginar que o acesso  possibilidade dos traados virios no
seja ao mesmo tempo acesso  escritura). O terreno dos
Nhambiquara  atravessado pela linha de uma picada autc-
tone. Mas tambm por uma outra linha, desta vez uma linha
importada :
Fio de uma linha telegrfica abandonado, "tornado intil logo
depois que colocado" e que "se estende em postes que no se subs-
tituem quando caem de podres, vtimas do cupim ou dos ndios, que
tomam o zumbido caracterstico de uma linha telegrfica pelo d
uma colmeia de abelhas selvagens em trabalho" (Tristes Trpico.s,
cap. XXVI, p. 287).
Os Nhambiquara, cuja fustigao e crueldade - presu-
mida ou no - so muito temidas pelo pessoal da linha,
"conduzem o observador ao que ele facilmente tomaria - mas
erradamente - por uma infncia da humanidade (p. 290).
Lvi-Strauss descreve o tipo biolgico e cultural desta popula-
o cujas tcnicas, economia, instituies e estruturas de pa-
rentesco, por primrias que sejam, lhes garantem, bem enten-
dido, um lugar de direito no gnero humano, na sociedade dita
humana e no "estado de cultura". Eles falam e probem o
incesto. "Todos eram parentes entre si, pois os Nhambiquara
se casam de preferncia com uma sobrinha, filha de irm,
ou com uma prima da espcie chamada cruzada pelos etnlo-
gos; filha de irm do pai ou do irmo da me" (p. 294).
Mais uma razo para no se deixar atrair pela aparncia e
para no acreditar que se assiste aqui a uma "infncia da
humanidade": a estrutura da lngua. E principalmente seu
uso. Os Nhambiquara utilizam vrios dialetos, vrios siste-
mas segundo as situaes. E  aqui que intervm um fen-
" Em portugus no original. (N. dos T.)
1 34 GRAMATOLOGIA
meno que se pode, grosseiramente, denominar "lingstico'' e
que dever interessar-nos no mais alto grau. Trata-se de um
fato que no teremos os meios de interpretar para alm de
suas condies de possibilidades gerais, de seu a priori; cujas
cusas factuais e empricas - tais como elas operam nesta
situao determinada - nos escaparo e no constituem, alis,
o objeto de nenhuma questo da parte de Lvi-Strauss, que
aqui se contenta em constatar. Este fato interessa o que avan-
amos quanto  essncia ou  energia do ypcpew como apa-
gamento originrio do nome prprio. H escritura desde que
o nome prprio  rasurado num sistema, h "sujeito"* desde
que esta obliterao do prprio se produz, isto , desde o
aparecer do prprio e desde a primeira manh da linguagem.
Esta proposio  de essncia universal e pode-se produzi-la
a priori. Como se passa a seguir deste a priori  determinao
dos fatos empricos, esta  uma questo  qual aqui no se
pode responder em geral. De incio porque, por definio,
no h resposta geral a uma questo desta forma.
 portanto ao encontro de um tal fato que caminhamos
aqui. No se trata nisso do apagamento estrutural do que
acreditamos serem nossos nomes prprios; no se trata a da
obliterao, que, paradoxalmente, constitui a legibilidade ori-
ginria daquilo mesmo que ela rasura, mas de um interdito
pesando em sobreimpresso, em certas sociedades, sobre o
uso do nome prprio: "O emprego dos nomes prprios entre
eles  interdito" (p. 294), nota Lv-Strauss.
Antes de passarmos  sua abordagem, notemos que esta
proibio  necessariamente derivada com respeito  rasura
constituinte do nome prprio no que denominamos a arqui-
escritura, isto , no jogo da diferena.  porque os nomes
prprios j no so nomes prprios, porque a sua produo 
a sua obliterao, porque a rasura e a imposio da letra so
originrias, porque estas no sobrevm a uma inscrio pr-
pria;  porque o nome prprio nunca foi, como denominao
nica reservada  presena de um ser nico, mais do que o
mito de origem de uma legibilidade transparente e presente sob
a obliterao;  porque o nome prprio nunca foi possvel a
no ser pelo seu funcionamento numa classificao e portan-
 Recordamos que em francs a palavra sujet possui, at em seu uso
corrente, vrias acepa que, embora dicionarizadas para seu equivalente por-
tugus, no so usuais. em nossa lngua. Assim, sujeiro deve e pode ser enten-
dido como: o que sub-jaz (do grego hyppokeimenon) a todo o demais, especiat-
mente em ontologia; assunto, tema (de certa forma,  o que sub-jaz a uma
conversa, a uma escritura); opondo-se a objeto (o que  posto diante), trata-se
do sujeito cognoscente (em filosofia), do sujeito da frase (em gramtica) e
do titular de um direito (acepo jurdica); finalmente, o sdito (sub-dims,
aquele a quem  dita alguma coisa com valor de lei), em oposio a Soberano
e distintamente do cidado. (N. dos T.)
A VIOL~NCIA DA LETRA: DE LBVI-STRAUSS A ROUSSEAU 135
to num sistema de diferenas, numa escritura que retm os
rastros de diferena, que o interdito foi possvel, pode jogar,
e eventualmente ser transgredido, como veremos. Transgre-
dido, isto , restitudo  obliterao e  no-propriedade de
origem.
Isso est estritamente em acordo, alis, com a inteno
de Lvi-Strauss. Em "Universalizao e particularizao"
(0 pensamento selvagem, cap. VI), ser demonstrado que
"nunca se d um nome: classifica-se o outro. . . ou classifica-
-se a si mesmo"6. Demonstrao ancorada em alguns exemplos
de proibies que afetam aqui e acol o uso dos nomes pr-
prios. Sem dvida, seria necessrio distinguir cuidadosamente
aqui a Necessidade essencial da desapario do nome prprio
e  proibio determinada que pode eventual e ulteriormente
acrescentar-se-lhe ou articular-se-lhe. A no-proibio, tanto
quanto a proibio, pressupe a obliterao fundamental. A
no-proibio, a conscincia ou a exibio do nome prprio,
limita-se a restituir ou descobrir uma impropriedade essencial
e irremedivel. Quando, na conscincia, o nome se diz pr-
(6) "Estamos, portanto, em presena de dois tipos extremos de nomes
prprios, entre os quais existe toda uma srie de intermedirios. Num caso,
o nome  uma marca de identificao, que confirma, pela aplicao de uma
regra, a pertencena do indivduo, a quem se d o nome, a uma classe pr-
-ordenada (um grupo social num sistema de grupos, um status natal num
sistema de status); no outro caso, o nome  uma livre criao do indivduo
que d o nome e exprime, por meio daquele a quem d o nome, um estado
transitrio de sua prpria subjetividade. Mas poder-se-ia dizer que, num caso
ou noutro, se d verdadeiramente o nome? A escolha, parece, s est entre
identificar o outro, determinando-o numa classe, ou, a pretexto de dar-lhe um
nome, identificar-se a si mesmo atravs dele. Portanto, nunca se d um nome:
classifica-se o outro, se o nome que se lhe d for funo dos caracteres que
possui, ou classifica-se a si mesmo se, acreditando-se dispensado da seguir uma
regra, se denomina o outro `livremente', isto , em funo dos caracteres que
se possuem. E, mais freqentemente, fazem-se as duas coisas, ao mesmo tempo"
(F. 211). Cf. tambm "O indivduo como espie" e "O tempo redescoberto"
(cap. VII e VIII): "Em cada sistema, por conseguinte, os nomes prprios
representam quanta de significao abaixo dos quais nada se faz, alm de
mostrar. Atingimos, assim, a raiz do erro paralelo, cometido por Peirce e
Russell, o primeiro definindo o nome prprio como um `ndice', o segundo
crendo descobrir o modelo lgico do nome prprio no pronome demonstrativo.
 admitir, com efeito, que o ato de denominar se situa num contnuo no qual
se efetuaria, insensivelmente, a passagem do ato de significar ao ato de mostrar.
Ao contrrio, esperamos ter estabelecido que esta passagem  descontnua, se
bem que cada cultura lhe fixe os limites de forma diferente. Aa cincias naturais
situam seu umbral no nvel da espcie, da variedade, ou da subvariedade,
conforme os casos. Sero, pois, termos de generalidade diferente que elas
percebero de cada vez como nomes prcprios" (p. 248).
Talvez fosse preciso, radicalizando esta inteno, perguntar-se se  legtimo
referir-se ainda  propriedade pr-nominal do "mostrar" puro, se a indicao
pura, como grau zero da linguagem, como "certeza sensvel" no  um mito
desde sempre apagado pelo jogo da diferena. Talvez fosse Freciso dizer da
indicao "prpria" o que Lvi-Strauss, ainda, diz dos nomes prprios, em
outro lugar: "Para baixo, o sistema no conhece, tampouco, limite externo.
j que consegue tratar a diversidade qualitativa das espcies naturais como a
matria simblica de uma ordem, e que sua marcha para o concreto, o especial
e o individual, nem sequer  detida pelo obstculo das denominaes pessoais:
nem mesmo os nomes prprios deixam de servir de termos a uma classificao"
(p. 251. Cf. tambm p. 213).
1 36 GRAMATOLOGIA
prio, ele j se classifica e se oblitera ao denominar-se. J no
 mais do que um nome que se diz prprio.
Se se deixa de entender a escritura em seu sentido estrito
de notao linear e fontica, deve-se poder dizer que toda so-
ciedade capaz de produzir, isto , de obliterar seus nomes
prprios e de jogar com a diferena classificatria, pratica a
escritura em geral.  expresso de "sociedade sem escritura"
no corresponderia, pois, nenhuma realidade nem nenhum con-
ceito. Esta expresso provm do onirismo etnocntrico, abu-
sando do conceito vulgar, isto , etnocntrico, da escritura.
O desprezo pela escritura, notemos de passagem, acomoda-se
muito bem com este etnocentrismo. A h apenas um para-
doxo aparente, uma destas contradies onde se profere e se
efetiva um desejo perfeitamente coerente. Num nico e mes-
mo gesto, despreza-se a escritura (alfabtica), instrumento
servil de uma fala que sonha com sua plenitude e com sua
presena a si, e recusa-se a dignidade de escritura aos signos
no-alfabticos. Percebemos este gesto em Rousseau e em
Saussure.
Os Nhambiquara - o sujeito da "Lio de escritura"
- seriam, portanto, um destes povos sem escritura. No
dispem daquilo que ns denominamos escritura no sentido
corrente. Isto , em todo caso, o que nos diz Lvi-Strauss:
"Supe-se que os Nhambiquara no sabem escrever" (p. 314).
Logo adiante, esta incapacidade ser pensada, na ordem tico-
-poltica, como uma inocncia e uma no-violncia interrom-
pidas pela escritura ocidental e pela "Lio de escritura". Assis-
tiremos a esta cena. Tenhamos ainda um pouco de pacincia.
Como se recusar aos Nhambiquara o acesso  escritura
em geral, se no for determinando esta segundo um modelo?
Perguntar-nos-emos mais tarde, confrontando vrios textos de
Lvi-Strauss, at que ponto  legtimo no denominar escri-
tura esses "pontilhados" e "ziguezagues" sobre as cabaas, to
brevemente evocados em Tristes trpicos. Mas, acima de
tudo, como recusar a prtica da escritura em geral a uma
sociedade capaz de obliterar o prprio, isto , a uma sociedade
violenta? Pois a escritura, obliterao do prprio classificad
no jogo da diferena,  a violncia originria mesma: pura
impossibilidade do "ponto vocativo", impossvel pureza do
ponto de vocao. No se pode apagar este "equvoco" que
Rousseau desejava que fosse "levantado" pelo "ponto voca~
tivo". Pois a existncia de um tal ponto em algum cdigo da
pontuao no mudaria em nada o problema. A morte da
denominao absolutamente prpria, reconhecendo numa lin~
guagem o outro como outro puro, invocando-o como o que 
VlOLBNCIA DA LETRA: DE LEVI-STRAUSS A ROUSSEAU 137
 a morte do dioma puro reservado ao nco. Anterior 
eventualidade da violncia no sentido corrente e derivado,
a de que falar a "Lio de escritura", h, como o espao da
sua possibilidade, a violncia da arquiescritura, a violncia
da diferena, da classificao e do sistema das denominaes.
Antes de desenharmos a estrutura desta implicao, leiamos
a cena dos nomes prprios; com uma outra cena, que leremos
daqui a pouco, ela  uma preparao indispensvel para a
"Lio de escritura". Est separada desta por um captulo e
por uma outra cena: "Em fama". E est descrita no captulo
XXVI, "Na linha".
"Por fceis que fossem os Nhambiquara - indiferentes  pre-
sena do etngrafo, ao seu caderno de notas e ao seu aparelho
fotogrfico - o trabalho era complicado por motivos lingsticos.
Em primeiro lugar, o emprego de nomes prprios entre eles  inter-
dito; para identificar as pessoas, era preciso acompanhar o uso do
pessoal da linha, isto , convencionar com os indgenas nomes de
emprstimo, pelos quais seriam designados. Seja nomes portugueses,
como Jlio, Jos Maria, Lusa; seja apelidos: Lebre, Acar. Co-
nheci, mesmo, um que Rondon ou um de seus companheiros tinha
batizado de Cavanhaque, por causa da sua barbicha, rara entre os
ndios, qu geralmente so glabros. Um dia em que eu brincava com
um grupo de crianas, uma das meninas foi espancada por outra;
ela veio se refugiar perto de mim, e ps-se, em grande mistrio, a
me murmurar alguma coisa no ouvido, que no compreendi e que
fui obrigado a mandar repetir diversas vezes, a tal ponto que a
adversria descobriu a manobra e, manifestamente furiosa. veio, por
sua vez, revelar-me o que parecia ser um segredo solene: depois de
algumas hesitaes e perguntas,' a interpretao do incidente no
permitia dvida. A primeira menina, por vingana, tinha vindo me
dizer o nome da sua inimiga, e, quando esta percebeu, me comunicou
o nome da primeira,  guisa de represlia. A partir desse momento,
tornou-se muito fcil, ainda que pouco escrupuloso, excitar as crian-
as umas contra as outras, e obter, assim, todos os seus nomes.
Depois do que, uma pequena cumplicidade assim criada, deram-me,
sem maiores dificuldades, os nomes dos adultos. Quando estes ltimos
compreenderam os nossos concilibulos, as crianas foram repreen-
didas, e secou-se a fonte de minhas informaes"7 (pp. 293-294).
7. J que lemos Rousseau na transparncia desses textos por que no
deslsar sob esta cena uma outra, recortada numa Promenade (IX)? Soletrando-se
todos os seus elementos um a um e minuciosamente, prestar-se-a menos ateno
 sua oposio termo a termo do que  simetria rigorosa de uma tal oposio.
Tudo acontece como se Rousseau tivesse desenvolvido o positivo tranqtiilizante
cuja impresso Lvi-Strauss nos d em negativo. Eis: "Mas loPo cansado de
esvaziar a minha bolsa para fazer as pessoas se esmagarem, abandonei a boa
companhia e fui passear sozinho pela feira. A variedade dos objetos me divertiu
por muito tempo. Percebi, entre outros, cinco ou seis saboianos rodeando uma
menina que ainda tinha, no seu inventrio, uma dzia de feias mas de que
ela bem gostaria de se livrar. Os saboianos, por sua vez bem gostariam de
livr-la delas, mas todos juntos no tinha mais do que duas ou trs moedas
de cobre e isso no dava para fazer uma grande brecha nas mas Esse inven-
trio era, para eles, o jardim das Hesprides, e a menina era o drago que o
guardava. Essa comdia me divertiu por muito tempo; pus-Ihe termo, enfim,
pagando as mas  menina e fazendo-a distribu-las aos meninos. Tive ento
um dos mais doces espetculos que possam deleitar um corao de homem, o
1 3 8 GRAMATOLOGIA
No podemos entrar aqui nas dificuldades de uma dedu-
o emprica dessa proibio, mas sabe-se a priori que os
"nomes prprios" cuja interdio e revelao Lvi-Strauss
descreve, no so nomes prprios. A expresso "nome pr-
prio"  imprpria, pelas razes mesmas que lembrar O pen-
samento selvagem. O que o interdito atinge  o ato profe-
rindo o que funciona como nome prprio. E esta funo 
a conscincia mesma. O nome prprio no sentido corrente,
no sentido da conscincia, no  (diramos "na verdade", se
no devssemos desconfiar aqui desta palavra8), mais do que
designao de pertencena e classificao lingstico-social.
A supresso do interdito, o grande jogo da denncia e a grande
exibio do "prprio" ( aqui se trata, notemos, de um ato de
guerra e haveria muito a dizer sobre o fato de que so meni-
ninhas que ~se entregam a este jogo e a estas hostilidades)
consistem no em revelar nomes prprios, mas em dilacerar
o vu que esconde uma classificao e uma pertencena, a
inscrio num sistema de diferenas lingstico-sociais.
O que os Nhambiquara escondiam, o que as menininhas
expem na transgresso, no so mais idiomas absolutos, so
j espcies de nomes comuns investidos, "abstratos", se 
verdade, como se poder ler em O pensamento selvagem (cap.
VI, p. 213), que os "sistemas de denominaes comportam
tambm seus `abstratos"'.
O conceito de nome prprio, tal como Lvi-Strauss o
utiliza sem o problematizar em Tristes trpicos, est portanto
longe de ser simples e manipulvel. O mesmo acontece, por
conseguinte, com os conceitos de violncia, de astcia, de per-
fdia ou de opresso que pontuaro, um pouco mais adiante,
a "Lio de escritura". J se pde constatar que a violncia
aqui, no sobrevm de um s golpe, a partir de uma inocncia
original cuja nudez seria surpreendida, no momento em que
o segredo dos nomes que se dizem prprios  violado. A es-
trutura da violncia  complexa e a sua possibilidade - a
escritura - no o  menos.
Havia, com efeito, uma primeira violncia a ser nomeada.
Nomear, dar os nomes que eventualmente ser proibido pro-
de ver a alegria urtida  inocncia da idade espalhar-se  minha volta. Pois
mesmo os espectadores, vendo-a, compartilharam-na. e eu, que compartilhava
a preo to barato esta alegria, tambm tinha a de sentir que era obra minha".
8. Desta palavra e deste conceito que, havamos sugerido no comeo.
no tem sentido a no ser na clausura logocntrica e na metafsica da presena.
Quando no implsca a possibilidade de uma adequao intuitiva ou judicativa,
continua contudo a privilegiar, na aletheia, a instncia de uma viso cumulada,
saciada pela presena. ~ a mesma razo que impede o pensamento da escritura
de se conter simplesmente no interior de uma cincia, e mesmo de um crculo
epistemolgico. Ela no pode ter nem tal ambio nem tal modstia.
p VIOLENCIA DA LETRA: DE LEVI-STRAUSS A ROUSSEAU 139
nunciar, tal  a violncia originria da linguagem que consiste
em inscrever uma diferena, em classificar, em suspender o
vocativo absoluto. Pensar o nico no sistema, inscrev-lo
neste, tal  o gesto da arquiescritura: arquiviolncia, perda do
prprio; da proximidade absoluta, da presena a si, perda na
verdade do que jamais teve lugar, de uma presena a si que
nunca foi dada mas sim sonhada e desde sempre desdobrada,
repetida, incapaz de aparecer-se de outro modo seno na sua
prpria desapario. A partir desta arquiviolncia, proibida
e portanto confirmada por uma segunda violncia reparadora,
protetora, instituindo a "moral", prescrevendo esconder a es-
critura, apagar e obliterar o nome que se pretende prprio
que j dividia o prprio, uma terceira violncia pode even-
tualmente surgir ou no surgir (possibilidade emprica) na-
quilo que se denomina correntemente o mal, a guerra, a indis-
crio, a violao: que consistem em revelar por efratura o
nome que se pretende prprio, isto , a violncia originria
que desmomou o prprio de sua propriedade e de sua limpeza
(propret). Terceira violncia de reflexo, poderamos dizer,
que desnuda a no-identidade nativa, a classificao como
desnaturao do prprio, e a identidade como momento abs-
trato do conceito.  neste nvel tercirio, o da conscincia
emprica, que sem dvida se deveria situar o conceito comum
de violncia (o sistema da lei moral e da transgresso) cuja
possibilidade permanece ainda impensada.  neste nvel que
 escrita a cena dos nomes prprios; e mais tarde a lio de
escritura.
Esta ltima violncia  tanto mais complexa na sua estru-
tura quanto ela remete simultaneamente s duas camadas
inferiores da arquiviolncia e da lei. Ela revela, com efeito,
a primeira nomeao que era j uma expropriao, mas tam-
bm desnuda o que desde ento desempenhava funo de pr-
prio, o que se diz prprio, substituto do prprio diferido,
percebido pela conscincia social e moral como o prprio, o
selo tranqilizante da identidade a si, o segredo.
Violncia emprica, guerra no sentido corrente (astcia e
perfdia das menininhas, astcia e perfdia aparentes das me-
nininhas, pois o etnlogo as inocentar mostrando-se como o
verdadeiro e nico culpado; astcia e perfdia do chefe ndio
representando a comdia da escritura, astcia e perfdia apa-
rentes do chefe ndio tomando todos os seus truques de em-
prstimo ao intruso ocidental) que Lvi-Strauss pensa sempre
como um acidente. Ela sobreviria num terreno de inocncia,
140 GRAMATOLOGIA
num "estado de cultura" cuja bondade natural no se teria,
ainda, degradado9.
Esta hiptese, que a "Lio de escritura" verificar, 
sustentada por dois ndices, de aparncia anedtica, que per-
tencem ao cenrio da representao por vir. Anunciam a
grande encenaGo da "Lio" e fazem brilhar a arte da compo-
sio neste relato de viagem. Segundo a tradio do sculo
XVIII, a anedota, a pgina de confisses, o fragmento de di-
rio so sabiamente colocados, calculados em vista de uma
demonstrao filosfica sobre as relaes entre natureza e so-
ciedade, sociedade ideal e sociedade real, isto , a maior par-
te das vezes entre a outra sociedade e a nossa sociedade.
Qual  o primeiro ndice? A guerra dos nomes prprios
segue a chegada do estranho e no nos espantaremos com isso.
Ela nasce na presena e mesmo da presena do etngrafo que
vem desorganizar a ordem e a paz natural, a cumplicidade
que liga pacificamente a boa sociedade a si mesma em seu
jogo. No apenas o pessoal da linha imps aos indgenas ape-
lidos ridculos, obrigando-os a assumi-los do dentro (Lebre,
Acar. Cavanhaque) mas  a irrupo etnogrfica que rompe
o segredo dos nomes prprios e a inocente cumplicidade re-
gendo o jogo das menininhas.  o etnlogo quem viola um
espao virginal to seguramente conotado pela cena de um
jogo, e de um jogo de menininhas. A simples presena do
estranho, a mera abertura de seu olho no pode deixar de
provocar uma violao: o  parte, o segredo cochichado no
ouvido, os deslocamentos sucessivos da "manobra", a acelera-
o, a precipitao, um certo jbilo crescente no movimento
antes da recada que se segue  falta consumada, quando a
"fonte" "se secou", tudo isto faz pensar numa dana, numa
festa, tanto quanto numa guerra.
Portanto, a simples presena do vedor (voyeur)  uma
violao. Violao pura, de incio: um estranho silencioso
assiste, imvel, a um jogo de menininhas. Que uma delas
tenha "espancado" uma "amiga", isto ainda no  uma ver-
dadeira violncia. Nenhuma integridade foi encetada. A vio-
lncia aparece apenas no momento em que se pode abrir 
efratura a intimidade dos nomes prbprios. E isto s  poss-
vel no momento em que o espao  trabalhado, reorientado
9. Situao diftcil de descrever em termos rouss~aufstas, a pretensa au-
sncia da escritura compHeando ainda as coisas: o Essai sur t'orlgtne des
languas talvez denominasse "selvajaria" o estado de sociedade e de escritura
descrito por Lvi-Strauss: "Esses tres modos de escrever correspondem com
bastante exatido aos tres diversos estados pelos quais se podem considerar
os homens retutidos em nao. A pintura dos objetos convm aos povos
selvagens; os signos das palavras e das oraes aos povos brbaros; e o alfa-
beto aos povos policiados" (Essat, cap. V).
142 GRAMATOLOGIA
de quem se sabe "inaceitvel", este remorso que produz a
etnografial, Rousseau os teria ensinado ao etnlogo moderno.
 pelo menos o que nos  dito na conferncia de Genebra:
"Na verdade, eu no sou `eu', mas o mais fraco, o mais humilde
dos `outrem'. Tal.  a descoberta das Confisses. O etnlogo
escreve alguma coisa a no ser confisses? Em seu nome em pri-
meiro lugar, como mostrei, j que este  o mvel da sua vocao
e da sua obra; e nesta obra mesma, em nome de sua sociedade,
que, pelo ofcio do etnlogo, seu emissrio, escolhe-se outras socie-
dades, outras civilizaes, e precisamente as mais fracas e as mais
humildes; mas para verificar a que ponto ela mesma  `inaceit-
vel'. . . ' (p. 245).
Sem falar do ponto de dominao assim conquistado em
sua terra por quem conduz esta operao, reencontra-se aqui,
pois, um gesto herdado do sculo XVIII, de um certo sculo
XVIII em todo caso, uma vez que j se comeava, aqui e ali,
a desconfiar deste exerccio. Os povos no-europeus no so
apenas estudados como o ndice de uma boa natureza refugia-
da, de um solo nativo recoberto, de um "grau zero" com re-
lao ao qual se poderiam desenhar a estrutura, o devir e
principalmente a degradao de nossa sociedade e de nossa
cultura. Como sempre, essa arqueologia  tambm uma te-
leologia e uma escatologia; sonho de uma presena plena e
imediata fechando a histria, transparncia e indiviso de uma
parusia, supresso da contradio e da diferena. A misso
do etnlogo, tal como Rous~eau lha teria designado,  traba-
lhar para este advento. Eventualmente contra a filosofia que,
"s" ela, teria procurado "excitar" os "antagonismos" entre o
"eu e o outro"lt. Que no nos acusem aqui de forar as pa-
lavras e as coisas. Melhor, leiamos. Sempre na conferncia
de Genebra, mas se achariam cem outros textos semelhantes:
"A revoluo rousseausta, pr-formando e iniciando a revoluo
etnolgica, consiste em recusar identificaes foradas, seja a de uma
cultura a si mesma, ou a de um indivduo, membro de uma cultura,
a uma personagem ou a uma funo social, que esta mesma cultura
procura impor-lhe. Nos dois casos, a cultura, ou o indivduo, rei-
vindicam o direito a uma identificao livre, que apenas se pode
realizar para alm do homem: com tudo o que vive, e portanto
sofre; e tambm aqum da funo ou da personagem; com um ser,
j no modelado, mas dado. Ento, o eu e o outro, liberados de
10 ' se o Ocidente produziu etngrafos,  que um remorso bem
poderoso`devia atorment-lo" ("Zim clice de rum", Tristes trpicos, cap. 38).
11. O que pode sef lido em sobreimpresso do segundo Discours: "E
a razo que gera o amor-prprio, e  a reflexo que o fortifica;  ela que
redobra o homem sobre si mesmo;  ela que o separa de tudo o que o
incomoda e afHge.  a filosofia que o isola;  atravs dela que ele diz em
segredo, ao ver um homem sofrendo: `Morre se assim quiseres; eu estou em
segurana' ".
A VIOLNCIA DA LETRA: DE LEVI-STRAUSS A ROUSSEAU 143
um antagonismo que s a filosofia procurava excitar, recobram
a sua unidade. Uma aliana original, enfim renovada, permite-lhes
fundamentarem juntos o ns contra o ele, isto , contra uma socie-
dade inimiga do homem, e que o homem se presta tanto mais a
recusar quanto Rousseau, por seu exemplo, lhe ensina como eludir
as insuportveis contradies da vida civilizada. Pois, se  verdade
que a natureza expulsou o homem, e que a sociedade persiste opri-
mindo-o, o homem pode pelo menos inverter em seu proveito os
plos do dilema, e procurar a sociedade da natureza para nela meditar
sobre a natureza da sociedade. Esta , parece-me, a indissolvel
mensagem do Contrat social, das Lettres sur la Botanique, e das
Rveries''12.
Em "Um clice de rum", uma severa crtica de Diderot
e uma. glorificao de Rousseau ("o mais etngrafo dos fil-
sofos... nosso mestre. . . nosso irmo, com relao a quem
mostramos tanta ingratido, mas a quem cada pgina deste
livro poderia ser dedicada, se a homenagem no fosse indigna
da sua grande memria") concluem-se assim: "...a nica
questo  saber se esses males so tambm inerentes ao estado
[de sociedade]. Atrs dos abusos e dos crimes, deve-se, pois,
procurar a base inabalvel da sociedade humana" (p. 417)'3.
Seria empobrecer o pensamento to diverso de Lvi-
Strauss no lembrar aqui, com insistncia, o que este intuito
e esta motivao no esgotam. Contudo, elas no se limitam
a conotar o trabalho cientfico, marcam-no em profundidade
no seu prprio contedo. Anunciramos um segundo ndice.
Os Nhambiquara, entre os quais se desdobrar a cena da "Li-
o de escri'ura", entre os quais se insinuar o mal com a
intruso da escritura vinda do fora (~~c~Bav, j dizia o Fedro,
recordamo-nos), os Nhambiquara, que no sabem escrever,
diz-se, so bons. Aqueles - jesutas, missionrios protestan-
tes, etnlogos americanos, tcnios da linha - que acreditaram
perceber violncia ou dio entre os Nhambiquara no apenas
se enganaram, provavelmente projetaram sobre eles a sua pr-
pria maldade. E at mesmo provocaram o mal que depois
acreditaram ou quiseram perceber. Leiamos ainda o fim do
captulo XXVII intitulado, sempre com a mesma arte, "Em
famlia". Esta passagem precede imediatamente a "Lio de
escritura" e lhe , de certo modo, indispensvel. Confirme-
mos incialmente o que  bvio: se no subscrevemos as decla-
raes de Lvi-Strauss quanto  inocncia e  bondade dos
Nhambiqura, quanto  sua "imensa gentileza", "mais verdica
12. P. 245. Grifo do autor.
13. Tristes trpicvs, cap. XXXVIII. Quanto a Diderot, notemos de
passagem que a severidade de seu juzo sobre a escritura e o livro nao fica
devendo nada  de Rousseau. O artigo "Livro", de sua autoria, na Enciclopdia,
 um reqisitrio de arande violncia.
144 GRAMATOLOGIA
expresso da ternura humana" etc., a no ser atribuindo-lhes
um lugar de legitimidade totalmente emprica, derivada e rela-
tiva, tomando-as como descries das afees empricas do
sujeito deste captulo - os Nhambiquara tanto quanto o autor
- se portanto no subscrevemos essas declaraes a no ser
enquanto relao emprica, no se segue que venhamos dar
f s descries moralizantes do etngrafo americano que de-
plora, inversamente, o dio, a rabujice e a incivilidade dos
indgenas. Na realidade, estas duas relaes opem-se sime-
tricamente, tm a mesma medida, e ordenam-se em torno de
um nico eixo. Depois de citar a publicao de um colega
estrangeiro, severssimo com os Nhambiquara, por sua compla-
cncia para com a doena, a sujeira, a misria, por sua impo-
lidez, seu carter rancoroso e desconfiado, Lvi-Strauss acres-
centa:
"Quanto a mim, que os conheci numa poca em que as doenas
introduzidas pelo homem branco j os haviam dizimado, mas que
desde as tentativas sempre humanas de Rondon - ningum empreen-
dera submet-ls, desejaria esquecer essa descrio lancinante, e nada
conservar na memria seno este quadro, tomado aos meus cadernos
de notas, em que rabisquei certa noite,  luz de minha lmpada de
bolso: 'Na plancie obscura, as fogueiras do acampamento brilham.
Em torno do fogo, nica proteo contra o frio que desce, atrs do
frgil biombo de palmas e de ramos apressadamente plantado no
cho, do lado de que se receia o vento ou a chuva; junto dos cestos
cheios de pobres objetos que constituem toda a sua riqueza terres-
tre; deitados no cho que se estende ao redor, perseguidos por outros
bandos igualmente hostis e amedrontados, os casais, estreitamente
enlaados, sentem-se, um para o outro, como o sustentculo, o re-
conforto, a nica defesa contra as dificuldades cotidianas e a melan-
colia sonhadora que, de vez em quando, invade a alma nhambiquara,
O visitante que, pela primeira vez, acampa no mato com os ndios,
sente-se tomado ao mesmo tempo de angstia e de piedade diante
do espetculo dessa humanidade to completamente desprovida; esma-
gada, dir-se-ia, contra o cho de uma terra hostil por algum implacvel
cataclismo; nua, tremendo junto dos fogos vacilantes. Ele circula
s apalpadelas entre os cerrados, evitando bater-se contra uma mo,
um brao, um torso, de que se adivinham os quent~s reflexos  1uz
de um fogo. Mas essa misria  animada de cochichos e de risos.
Os casais se abraam como na nostalgia de uma unidade perdida;
as carcias no se interrompem  passagem do estranho. Adivinha-se
em todos eles uma imensa gentileza, uma profunda despreocupao,
uma ingnua e encantadora satisfao animal, e, reunindo esses sen-
timentos diversos, algo como a mais comovedora e verdica expresso
da ternura humana", (p. 311).
A "Lio de escritura" segue-se a esta descrio que se
pode, certamente, ler como o que ela diz ser de imediato:
pgina de "caderno de notas" rabiscada uma noite  luz de
uma lmpada de bolso. Sesia diferente se esta comovente
A VIOL~NCIA DA LETRA: DE LEVI-STRAUSS A ROUSSEAU 145
 pintura devesse pertencer a um discurso etnolgico. Contudo,
 ela instala incontestavelmente uma premissa - a bondade ou
a inocncia dos Nhambiquara - indispensvel  demonstra-
o que se seguir, da intruso conjunta da violncia e da
escritura. D a que, entre a confisso etnogrfica e o discurso
terico do etnlogo, deve ser observada uma rigorosa fron-
teira. A diferena entre o emprico e o essencial deve conti-
nuar a fazer valer os seus direitos.
Sabe-se que Lv-Strauss reserva palavras muito speras
para as filosofias que abriram o pensamento a esta diferena
e que so, na maior parte dos casos, filosofias da conscincia,
do cogito no sentido cartesiano ou husserliano. Palavras mui-
to speras tambm para o Essai sur les donnes imdiates de
la conscience, censurando os seus antigos professores por
meditarem demais, em vez de estudarem, o Curso de lings-
tica gercll de Saussure'4. Ora, pense-se o que se quiser, no
fundo, das filosofias assim incriminadas ou ridicularizadas (e
de que no falaremos aqui, a no ser para observar que elas
a so evocadas apenas em seus espectros, tais como assom-
bram s vezes os manuais, os textos escolhidos ou o rumor
pblico), deve-se reconhecer que a diferena entre o afeto
emprico e a estrutura de essncia nelas era regra fundamen-
tal. Nunca Descartes ou Husserl teriam deixado entender que
considerassem verdade de cincia uma modificao emprica
de sua relao ao mundo ou a outrem, nem premissa de um
silogismo a qualidade de uma emoo. Nunca, nas Regulae,
se passa da verdade fenomenologicamente irrecusvel do "eu
vejo amarelo" ao juzo "o mundo  amarelo". No prossiga-
mos nesta direo. Nunca, em todo caso, um filsofo rigoroso
da conscincia teria chegado to depressa  concluso da
bondade profunda e da inocncia virginal dos Nhambiquara
sobre a f de uma relao emprica. Do ponto de vista da
cincia etnolgica, esta relao  to surpreendente quanto
podia ser "lancinante", a palavra  de Lvi-Strauss, a do mal-
vado etnlogo americano. Surpreendente, esta afirmao in-
condicionada da bondade radical dos Nhambiquara sob a pena
de um etnlogo que, aos fantasmas exangues dos filsofos da
conscincia e da intuio, ope os que~foram, se se deve crer
o incio de Tristes trpicos, os seus nicos verdadeiros mes-
tres: Marx e Freud.
Todos os pensadores que so classificados s pressas, no
incio deste livro, sob o ttulo da metafsica, da fenomenologia
e do existencialismo, no se teriam reconhecido sob os traos
que lhes so atribudos. Isso  bvio. Mas seria erro concluir
14. Tristes trpcos, cap. VI. "Como se faz um etnlogo".
146 GRAMATOLOGIA
da que, em contrapartida, os discursos inscritos sob seu sig-
no - e notadamente os captulos que nos ocupam - teriam
satisfeito Marx e Freud. Que, geralmente, pediam para ver
quando se lhes falava de "imensa gentileza", de "profunda
despreocupao", de "ingnua e encantadora satisfao ani-
mal" e de "algo como a mais comovedora e verdica expresso
da ternura humana" (Tristes trpicos, p. 311 ). Que pediam
para ver e, sem dvida, no teriam compreendido a que se
aludia efetivamente sob o nome da "aliana original, enfim
renovada", permitindo "fundamentar juntos o ns contra o
ele" (j citado), ou sob o nome de "esta estrutura regular e
como cristalina, que as mais bem preservadas das sociedades
primitivas nos ensinam no ser contraditria  humanidade"
(Lio inaugural do Collge de France).
Em todo este sistema de parentesco filosfico e de rei-
vindicao genealgica, o menos surpreso de todos sem dvida
no teria sido Rousseau. Ele no teria pedido que o deixas-
sem viver em paz com os filsofos da conscincia e do senti-
mento interior, em paz com este cogitols sensvel, com esta
voz interior - que, acreditava ele, sabe-se, nunca mentia?
Conciliar em si Rousseau, Marx e Freud  uma tarefa difcil.
Concili-los entre si, no rigor sistemtico do conceito,  pos-
svel?
A ESCRITURA E A EXPLORAO DO HOMEM
PELO HOMEM
Sem jamais completar seu projeto, o bricoleur
pe-lhe sempre algo de si mesmo.
O pensamento selvagem (p. 42).
O seu sistema talvez seja falso; mas, ao desen-
volv-lo, ele fez seu auto-retrato fiel.
J.-J. RoUssEAU, Dilogos.
Abramos, enfim, a "Lio de escritura". Se prestamos
uma tal ateno a este captulo, no  para abusar de um
dirio de viagem e do que se poderia considerar a expresso
menos cientfica de um pensamento. De um lado, reencon-
tram-se em outros escritosl, sob outra forma e mais ou menos
dispersos, todos os temas da teoria sistemtica da escritura
apresentada pela primeira vez nos Tristes trpicos. De outro
lado, o prprio contedo terico  longamente exposto nessa
15. Na Conlrence de Gnve, Lvi-Strauss acredita poder opor simples-
mente Rousseau aos filsofos que tomam "o cogito como ponto de partida"
(P. 242).
16. Em particular nos Entrefiens com G. Charbonnier, que no acres-
centam nada  substncia terica da "Lio de escritura".
A VIOLENCIA DA LETRA: DE LEVI-STRAUSS A ROUSSEAU 147
obra, mais longamente do que em qualquer outro lugar, em
comentrio a um "extraordinrio incidente". Este incidente
tambm  relatado nos mesmos termos no incio da tese sobre
os Nhambiquara, sete anos anterior aos Tristes trpicos. En-
fim,  apenas nos Tristes trpicos que o sistema  articulado
da maneira mais rigorosa e mais completa. As premissas in-
dispensveis, a saber, a natureza do organismo submetido 
agresso da escritura, em nenhum outro lugar so mais expl-
citas.  por isso que seguimos longamente a descrio da ino-
cncia Nhambiquara. Apenas uma comunidade inocente, ape-
nas uma comunidade de dimenses reduzidas (tema rousseau-
ista ue logo se precisar), apenas uma micro-sociedade de
no-violncia e de franqueza cujos membros podem manter-se
todos retamente ao alcance da alocuo imediata e transpa-
rente, "cristalina", plenamente presente a si na sua fala viva
,
apenas uma tal comunidade pode sofrer, como a surpresa de
uma agresso vinda do fora, a insinuao da escritura, a in-
filtrao da sua "astcia" e da sua "perfdia". Apenas uma
tal comunidade pode importar do estrangeiro "a explorao
do homem pelo homem". A Lio , pois, completa: nos
textos ulteriores, as concluses tericas do incidente sero
apresentadas sem as premissas concretas, a inocncia original
ser implicada mas no exposta. No texto anterior, a tese
sobre os Nhambiquara, o incidente  referido mas no d
lugar, como nos Tristes trpicos, a uma longa meditao sobre
o sentido, a origem e a funo histricas do escrito. Em con-
trapartida, buscaremos na tese informaes que ser precioso
inscrever  margem dos Tristes trpicos.
A escritura, explorao do homem pelo homem: no
impomos esta linguagem a Lvi-Strauss. Lembremos, por
precauo, os Entretiens: "a prpria escritura no nos parece
associada de modo permanente, em suas origens, seno a so-
ciedades que so fundadas sobre a explorao do homem pelo
homem" (p. 36). Lvi-Strauss tem conscincia de propor,
nos Tristes trpicos, uma teoria marxista da escritura. Ele o
diz numa carta de 1955 (ano da publicao do livro) 
Nouvelle Critiquel'. Criticado por Maxime Rodinson em no-
me do marxismo, ele se qucixa:
"Se (M. Rodinson) tivesse lido meu livro, em lugar de se
contentar com os extratos publicados h alguns meses, teria encon-
trado nele, atm de uma hiptese marxista sobre a origem da escri-
tura, dois estudos consagrados a tribs brasileiras - Caduvu e Bo-
roro - que so tentativas de interpretao das superestruturas ind-
148 GRAMATOLOGIA
genas fundadas no materialismo dialtico, e cuja novidade, na litera-
tura etnogrfica ocidental, merecia talvez mais ateno e simpatia"".
Nossa questo, portanto, no  mais apenas "como con-
ciliar Rousseau e Marx", mas tambm: "Basta falar de su-
perestrutura e denunciar, numa hiptese, a explorao do ho-
mem pelo homem para conferir a esta hiptese uma pertinncia
marxista?" Questo que s tem sentido se implicar um rigor
original da crtica marxista e distingui-la de toda outra crtica
da misria, da violncia, da explorao etc.; e, por exemplo,
da crtica budsta. Nossa questo no tem, evidentemente,
nenhum sentido no ponto em que se pode dizer que "entre a
crtica marxista . . . e a crtica budista . . . no h oposio
nem contradio"'8.
Mais uma precauo  necessria antes da Lio. Hava-
mos sublinhado, h tempos, a ambigidade da ideologia que
comandava a excluso saussuriana da escritura: etnocentrismo
profundo privilegiando o modela da escritura fontica, modelo
que torna mais fcil e mais legtima a excluso da grafia. Mas
etnocentrismo pensando-se ao contrrio como antietnocentris-
mo, etnocentrismo na conscincia do progressismo libertador.
Separando radicalmente a lngua da escritura, pondo esta em
baixo e de fora, pelo menos acreditando poder faz-lo, dando-
-se a iluso de libertar a lingstica de toda passagem pelo tes-
temunho escrito, pensa-se conceder com efeito o seu estatuto
de lngua autntica, de linguagern humana e plenamente sig-
nificante, a todas as lnguas praticadas pelos povos que, con-
tudo, continuam a ser denominados "povos sem escritura".
A mesma ambigidade afeta as intenes de Lvi-Strauss e
isso no  fortuito.
De um lculo, admite-se a diferena corrente entre lingua
gem e escritura, a exterioridade rigorosa de uma a outra, o
que permite manter a distino entre povos dispondo da escri-
tura e povos sem escritura. Lvi-Strauss nunca lana suspei-
o sobre o valor de uma tal distino. O que lhe permite
principalmente considerar a passagem da fala  escritura como
um salto, como a travessia instantnea de uma linha de des-
continuidade: passagem de uma linguagem plenamente oral,
pura de toda escritura - isto , pura, inocente - a uma lin-
guagem que junta a si a sua "representao" grfica como um
17. Essa carta nunca foi publicada pela NouvetJe Critique. Pode-se l-la
em AW ropologia estrurura(, p. 373.
18. Tristes rrpicos, cap. XL (p. 441 ) : ".4 sua maneira, e no seu plano,
cada um corresponde a uma verdade. Entre a crtca marxista, que liberta
o homem das suas primeiras cadeias - ensinando-lhe que o sentido aparente
da sua condio desaparece desde que concorde em alargar o objeto que est
considerando - e a crtca budista, que completa a liberao, no h oposio
nem contradio. Cada uma faz o mesmo que a outra, num nvel dferente".
A VIOLNCIA DA LETRA: DE LVI-STRAUSS A ROUSSEAU 149
significante acessrio de um tipo novo, abrindo uma tcnica
de opresso. Lvi-Strauss necessitava deste conceito "epigene-
tsta" da escritura para que o tema do mal e da explorao
sobrevindo com a grafia fosse efetivamente o tema de uma
surpresa e de um acidente afetando do fora a pureza de uma
linguagem inocente. Afetando-a comn que por acaso'9. Em
todo caso, a tese epigenetista repete, desta vez a respeito da
escritura, uma afirmao que podamos encontrar cinco anos
antes na Introduction  l'oeuvre de Marcel Mauss (p. XLVII) :
"a linguagem no pde nascer seno instantaneamente". Ha-
veria sem dvida mais do que uma questo a formular sobre
este pargrafo que liga o sentido  significao e muito estri-
tamente  significao lingstica na linguagem falada. Leia-
mos simplesmente estas linhas.
"Quaisquer que tenham sido o momento e as circunstncias de
sua apario na escala da vida animal, a linguagem no pde nascer
seno instantaneamente. As coisas no puderam passar progressiva-
mente a significar. Na esteira de uma transformao cujo estudo
no cabe s cincias sociais, mas  biologia e  psicologia, efetuou-se
uma passagem, de um estgio onde nada tinha sentido a um outro
em que tudo o possua." (Que a biologia e a psicologia possam dar
conta dessa ruptura  o que nos parece mais que problemtico. Se-
gue-se uma distino fecunda entre discurso significante e discurso
cognoscente que, uns cinqenta anos antes, um filsofo da conscin-
cia, mais negligenciado do que outros, soubera rigorosamente articular
em investigaes lgicas.)
Esse epigenetismo no , alis, o aspecto mais rousseau-
sta de um pensamento que se autoriza to freqentemente do
Essai sur l'origirce des langues e do segundo Discurso, onde
- contudo - tambm se trata do "tempo infinito que teve
de custar a primeira inveno das lnguas".
O etnocentrismo tradicional e fundamental que, inspi-
rando-se no modelo da escritura fontica, separa a machado a
escritura da fala,  pois manipulado e pensado como antietno-
centrismo. Ele sustenta uma acusao tico-poltica: a explo-
rao do homem pelo homem  o feito das culturas escreven-
19. Sobre o tema do acaso, presente em Race et histoi~e (pp. 256-271)
e em O pensamento selvagem, ef. principalmsnte os Entretiens (pp. 28-29) :
desenvolvendo longamente a imagem do jogador de roleta, Lvi-Strauss explica
que a combinao complexa que constituiu a civilizao ocidental, com o seu
tipo de historicidade determinada pelo uso da escritura, poderia perfeitamente
ter-se dado desde os incios da humanidade, poderia ter-se dado muito mais
tarde, deu-se neste momento, "no h uma razo,  assim. Mas voc me
dir: 'Isso no  satisfatrio' ". Este acaso  determinado logo a seguir como
"aquisio da escrura". Esta  uma hipbtese em que Lvi-Strauss reconhece
no fazer empenho, mas que - segndo ele - " preciso de incio t-la presente
ao esprito". Mesmo que no implique a crena n acaso (ef. O pensamento
selvagem, p. 34 e p. 253), um certo estruturalismo deve invoc-la para reta-
cionar entre si as especificidades absolutas das totalidades estruturais. Veremos
como esta necessidade tambm se imps a Rousseau.
150 GRAMATOLOGIA
tes de tipo ocidental. Desta acusao so salvas as comunida-
des da fala inocente e no-opressora.
De outro lado -  o avesso do mesmo gesto -, a par-
tio entre povos com escritura e povos sem escritura, se L-
vi-Strauss reconhece incessantemente a sua pertinncia,  logo
apagada por ele assim que se desejasse, por etnocentrismo,
faz-la desempenhar um papel na reflexo sobre a histria e
sobre o valor respectivo das culturas. Aceita-se a diferena
entre povos com escritura e povos sem escritura, mas no se
levar em conta a escritura enquanto critrio da historicidade
ou do valor cultural; aparentemente se evitar o etnocentrismo
no momento exato em que ele j tiver operado em profundi-
dade, impondo silenciosamente seus conceitos correntes da
fala e da escritura. Era exatamente este o esquema do gesto
saussuriano. Em outras palavras, todas as crticas libertadoras
com as quais Lvi-Strauss fustigou a distino pr-julgada
entre sociedades histricas e sociedades sem histria, todas
estas denncias legtimas permanecem dependentes do conceito
de escritura que aqui problematizamos.
O que  a "Lio de escritura"?
Lio num duplo sentido e o ttulo  belo por mant-lo
reunido. Lio de escritura, pois  de escritura ensinada que
se trata. O chefe Nhambiquara aprende a escritura do etn-
grafo, aprende-a de incio sem compreender; mais propria-
mente ele mimica a escritura do que compreende a sua funo
de linguagem, ou melhor, compreende a sua funo profunda
de escravizao antes de compreender o seu funcionamento,
aqui acessrio, de comunicao, de significao, de tradio
de um significado. Mas a lio de escritura  tambm lio
da escritura; ensinamento que o etnlogo acredita poder indu-
zir do incidente no curso de uma longa meditao, quando,
lutando, diz ele, contra a insnia, reflete sobre a origem, a
funo e o sentido da escritura. Tendo ensinado o gesto de
escrever a um chefe 1`dhambiquara que aprendia sem com-
preender, o etnlogo, por sua vez, compreende ento o que
ele Ihe ensinou e tira a lio da escritura.
Assim, dois momentos:
A. A relao emprica de uma percepo: a cena do
"extraordinrio incidente".
B . Depois das peripcias do dia, na insnia, na hora
da coruja, uma reflexo histrico-filosfica sobre a cena da
escritura e o sentido profundo do incidente, da histria cer-
rada da escritura.
A VIOLNGIA DA LETRA: DE LLVI-STRAUSS A ROUSSEAU 151
A. O extraordinrio ncdente. Desde as primeiras
linhas, o cenrio lembra precisamente esta violncia etnogr-
fica de que fatvamos acima. As duas partes penetram bas-
tante nesta direo, o que restitui ao seu verdadeiro sentido as
observaes sobre a "imensa gentileza", a "ingnua e encan-
tadora satisfao animal", a "profunda despreocupao", a
"mais comovedora e verdica expresso da ternura humana"
(p. 311 ). Eis:
.. . sua acolhida rebarbativa, o nervosismo manfesto do chefe,
sugeriam que ele os trouxera um pouco  fora, No estvamas
tranqilos, os ndios tampouco; a noite anunciava-se fria; como no
havia rvores, fomos obrigados a dormir no cho,  maneira nhambi-
quara. Ningum dormiu: passamos a noite a nos vigiarmos polida-
mente. Teria sido pouco prudente protongar a aventura. Insisti
junto ao chefe para que se procedesse imediatamente s trocas. Ocorre
ento um extraordinrio incidente que me obriga a lembrar fatos
anteriores. Supe-se que os Nhambiquara no sabem escrever; mas
tampouco desenham, com exceo de alguns pontilhados ou zigueza-
gues em suas cabaas. Como entre as Caduvus, distribu, entretanto,
folhas de papel e lpis, de que nada fizeram no incio; depois, um
da, eu os v ocupados em traar no papel linhas horizontais ondula-
das. Que quereriam fazer'? Tive de me render  evidncia: escreviam
ou, mais exatamente, procuravam dar ao seu lpis o mesmo emprego
qtte eu, o nico que ento podiam conceber, pois eu ainda no ten-
tara distra-los com mus desenhos. Os esforos da maioria se resu-
mam nisso; mas o chefe do bando via mais longe. Apenas ele,
sem dvida, compreendera a funo da escritura" (p. 3l4).
Marquemos aqui uma primeira pausa. Entre muitos ou-
tros, este fragmento vem em sobreimpresso de uma passagem
da tese sobre os Nhambiquara. O incidente j era relatado a
e no  intil referir-se a ele. Assinalam-se, particularmente.
trs pontos omitidos nos T'ristes trpices. No carecem de
interesse.
1 . Esse pequeno grupo nhambquara= dispe, contudo.
de uma palavra para designar o ato de escrever, em todo caso
de uma palavra que pode funcionar para este fim. No h
surpresa lingstica diante da irrupo suposta de um poder
novo. Esse pormenor, omitido em Tristes trpicos, j era
assinalado na tese (p. 40, nota 1 ) :
20. Trata-se apenas de um pequeno subgrupo que o etnc?ogo seguir
somente durante o seu periodo nmade. Tem tambm uma vida sedentria.
Pode-se ler na introduo da tese: " suprftuo sublinhar que aqui no se
encontrar um estudo exaustivo da vida e da sociedade Nhambiquara. No
pudemos compartilhar a existncia dos indgenas fora do perodo nmade, e
apenas isso bastaria para limitar o atcance de nossa pesquisa. Uma viagem
feita durante o perodo sedentrio traria sem dtvida informaes capitais c
permitra retificar a perspectiva de conjunto. Fsperamos poder empreend-!;`
um dia" (p. 3). Esta limitao, que parece ter sido definitiva, no  particu-
iarmente significativa quanto a oucsto da escritura, sendo bem sabido que
ela est, mais do que outras e de maneira essencial, ligada ao fenmeno da
sedentaricdade.
